Relatório revela que 300 padres abusaram sexualmente de crianças na Pensilvânia

Documento do grande júri da Pensilvânia relata abusos sexuais perpetrados por membros da Igreja Católica ao longo de sete décadas. Há pelo menos 1000 vítimas identificáveis.

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Do Chile e da Argentina também têm chegado ao Vaticano vários pedidos de demissão de membros da Igreja implicados em escândalos de abuso sexual Adriano Miranda (arquivo)

Décadas de abuso sexual por membros da Igreja Católica do estado norte-americano da Pensilvânia estarão sob escrutínio público com a divulgação do relatório da investigação do grande júri liderado pelo procurador-geral do estado, Josh Shapiro. As cerca de 900 páginas do relatório compilam as conclusões de mais de dois anos de investigação e relatam casos de abusos ocorridos durante quase 70 anos, por mais de 300 padres, que a Igreja tentou encobrir.

Houve quem tentasse impedir a divulgação do relatório, mas, nesta terça-feira, o documento foi tornado público — com alguns nomes removidos. Cerca de duas dezenas de pessoas mencionadas no relatório pediram ao tribunal que removesse os seus nomes. Apesar disso, várias dioceses investigadas tornaram públicos os nomes dos envolvidos e as que ainda não o fizeram prometeram fazê-lo em breve.

Este é o resultado do trabalho de 23 jurados — incluindo católicos praticantes — que reuniram os testemunhos de mais de 1000 vítimas identificáveis de seis das oito dioceses católicas do estado: Allentown, Erie, Greensburg, Harrisburg, Pittsburgh e Scranton.

“Tem havido outros relatórios sobre abuso sexual de crianças dentro da Igreja católica”, lê-se no relatório. “Mas nunca nesta escala. Para muitos de nós, estas primeiras histórias passaram-se noutro local, bastante longe. Agora sabemos a verdade: aconteceu em todo o lado.”

Conclui-se que centenas de bispos e outros líderes da igreja católica romana da Pensilvânia perpetraram e encobriram abusos sexuais de crianças e jovens. Durante anos, persuadiram as vítimas a não denunciarem os crimes e as autoridades a não os investigarem, revela o documento.

Mas para os casos relatados já é tarde demais: é muito pouco provável que as revelações conduzam a acusações penais. A legislação do estado da Pensilvânia impede que vítimas abusadas durante a infância levantem processos criminais contra a Igreja depois de as vítimas completarem 30 anos, explica o New York Times. Ainda assim, completa o Guardian, dois padres foram identificados e acusados devido ao relatório. Um deles abusou sexualmente duas crianças por vários anos, até 2010.

As vítimas estão confiantes de que esta investigação trará um “debate sério” sobre a “eliminação do estatuto de limitação”: se isso não acontecer, “passa-se alguma coisa muito errada com os habitantes da Pensilvânia”, disse Shaun Dougherty ao New York Times. Dougherty, agora com 48 anos, testemunhou em tribunal sobre os abusos que sofreu quando tinha 10 anos.

A Pensilvânia, onde um em cada quatro residentes é católico, é um dos Estados norte-americanos onde os abusos sexuais de crianças por membros da Igreja católica são mais investigados.

Não há dados que permitam conhecer a amplitude do problema nos Estados Unidos, mas as vítimas de abuso pedem que se conduza um inquérito a nível nacional para apurar os números, à semelhança do que aconteceu na Austrália, onde durante quatro anos uma comissão real examinou casos de abuso sexual de crianças por vários grupos religiosos, entre eles a Igreja Católica.

Desde que estalou o escândalo de abuso sexual de Boston, revelado pelo Boston Globe em 2002, que aumentou o número de clérigos norte-americanos investigados e acusados pelo crime. Um dos casos mais recentes é o do cardeal Theodore McCarrick, antigo arcebispo de Washington que se demitiu em Julho.

Do Chile e da Argentina também têm chegado ao Vaticano vários pedidos de demissão de membros da Igreja implicados em escândalos de abuso sexual.