A ciência em lugar inesperado

Portugal contava com mais de 500 instituições religiosas nos séculos XVIII e XIX e cada uma representava um verdadeiro mundo de livros. Nunca faltaram os melhores autores, as edições mais recentes e as obras de conteúdos científicos complexos.

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Pormenor de desenho da biblioteca do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça da Ordem de Cister, presente no catálogo de 1701 na Biblioteca Nacional DR

Poucos sabem hoje que, em 1764, a biblioteca dos Oratorianos das Necessidades, em Lisboa, contava com uma colecção de 20.000 volumes que valia cerca de 100.000 cruzados. Poucos sabem que os antigos códices manuscritos do Mosteiro de Alcobaça da Ordem de Cister eram frequentemente procurados pela sua raridade e pedidos emprestados nas bibliotecas mais célebres da Europa para serem diligentemente copiados. Quase ninguém sabe que os religiosos portugueses tinham celas incrivelmente cheias de livros, não obstante os votos de pobreza e as proibições determinadas pela Santa Obediência. Ainda quase ninguém sabe que nas instituições religiosas havia lugares alternativos de conservação dos livros que formavam “constelações” de bibliotecas mais especializadas. Um exemplo é o Convento de Nossa Senhora de Jesus de Lisboa dos Franciscanos Terceiros, actualmente a Academia das Ciências, que além da sua magnífica biblioteca existia também a “Bibliotheca pequena”, que reunia mais de 2000 “Livros escolhidos”, essenciais para o aproveitamento das aulas e dos estudos.

Para as congregações religiosas, qualquer actividade cultural era impensável sem livros. Desenvolver um sistema de apetrechamento das bibliotecas bem articulado e orgânico tornou-se, desde muito cedo, uma das principais necessidades. Isto não significa que não houvesse outras realidades, outros coleccionadores, outros compradores, mas as congregações religiosas destacaram-se pela grandiosidade das suas colecções, pela regularidade de compra de livros e pela internacionalidade da rede de fornecedores. Portugal contava com mais de 500 instituições religiosas nos séculos XVIII e XIX e cada uma destas instituições representava um verdadeiro mundo de livros.

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Desenho da biblioteca do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça da Ordem de Cister, presente no catálogo de 1701 na Biblioteca Nacional de Portugal DR

Nas casas religiosas, também o livro científico – um produto tipográfico bem peculiar – encontrou um contínuo e habitual canal de circulação. A existência de livros científicos entre os regulares portugueses nunca foi deixada ao acaso. Cada livro que chegava a um convento, por as mais variadas circunstâncias (compra, herança, doação, etc.), era objecto de um processo de selecção rigoroso que avaliava a sua utilidade e pertinência. Um livro desactualizado ou considerado inútil, na maioria dos casos, era revendido para fora do convento.

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Planta da biblioteca do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça da Ordem de Cister presente no catálogo de 1684 da Biblioteca Nacional de Portugal DR

Em Portugal, nunca faltaram os melhores autores, as edições mais recentes e as obras de conteúdos científicos complexos. Muitos destes livros de ciência chegaram ao país nos baús dos eclesiásticos das mais diferentes ordens religiosas.

Quem diria que Frei João lesse a Óptica de Newton de 1730 à luz de vela na sua cela do Mosteiro dos Jerónimos em Belém e até na língua original? Ou que Frei Caetano, do Mosteiro Beneditino de Paço de Sousa, desejasse comprar livros de matemática para satisfazer a sua ávida sede de conhecimento? Ou ainda que Mestre Pedro aconselhasse o padre bibliotecário do Colégio de Santo Agostinho de Coimbra a comprar obras científicas sofisticadas, entre as quais várias de Arquimedes, para usá-las nas aulas.

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Livros científicos presentes no inventário da biblioteca da Casa Professa de São Roque em Lisboa da Companhia de Jesus datado de 1759 (o inventário está na Biblioteca Nacional de Portugal) DR

Quem diria também que o Convento de Nossa Senhora da Graça de Lisboa dos Eremitas de Santo Agostinho tivesse uma biblioteca de 30.000 volumes em que 9% eram livros científicos? Que o convento feminino de Santo Alberto das Carmelitas Descalças de Lisboa tivesse interesse em possuir livros de medicina e cirurgia? Que os padres do Mosteiro de São Bento da Saúde, em 1789, buscassem até ao desespero o Tratado Elementar de Química de Lavoisier para a biblioteca da sua botica? Quem diria que houvesse nas bibliotecas eclesiásticas portuguesas globos, planetários e até máquinas eléctricas? Mais surpreendente ainda é que as bibliotecas institucionais das congregações religiosas pudessem estar abertas a leitores seculares e que os próprios mercadores de livros comprassem uma grande quantidade de obras aos conventos para revendê-los nas suas lojas.

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Exemplar de De Re Aedificatoria Libri Decem (Estrasburgo 1541), obra de arquitectura de Leo Baptista Alberti, com marca de posse manuscrita e carimbo da biblioteca do Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa (está na Biblioteca Nacional de Portuga DR

Durante séculos, cristalizou-se uma imagem bem diferente aos olhos da erudita intelligentsia europeia sobre o mundo ibérico e as raízes religiosas da sua cultura: bibliotecas cheias de pó, edições desactualizadas, monges ignorantes. Quando, ao contrário, para o bibliotecário da Congregação do Oratório do Porto, assim como para muitos outros, incentivar as compras de “livros modernos, produzidos pelos progressos das Sciencias” constituía uma verdadeira missão. No silêncio dos mosteiros, as teorias novas e as ideias inovadoras chegavam sob a forma de livros, convertendo-se em hábitos científicos e criando comunidades de praticantes anónimos e pouco conhecidos. A ciência encontrou, por fim, o seu lugar inesperado.

Historiadora de ciência

Esta série, às segundas-feiras, está a cargo do Projecto Medea-Chart do Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que é financiado pelo Conselho Europeu de Investigação