Alcaria: o "club" de Baltazar e "a culpa" de Cliff Richard

Há meses em que dormem mais pessoas em Alcaria do que em todas as povoações juntas à volta. Quem o garante é Baltazar, o homem à frente do Almada d’Ouro Club, onde as noites podem transformar-se numa festa internacional.

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No café de Alcaria sabe-se o essencial sobre o Almada d’Ouro Club: está cheio no Inverno e vazio no Verão, pode-se lá chegar pela estrada da esquerda ou da direita e, se não estiver ninguém, alguém há-de aparecer.

Com estas informações, faço-me à estrada vazia, como tudo em volta, e apanho um caminho inclinado de terra. Não há vislumbre de autocaravanas, nem mesmo o som de uma mosca, o grelhador está frio nas traseiras de uma pequena casa e na porta vê-se um papel com um número de telefone. Ninguém atende, mas já tinham avisado: alguém há-de aparecer.

É hora, portanto, de varrer a autocaravana do pó do Nordeste. Apesar de o Guadiana ter acompanhado a viagem do lado direito e do encontro súbito com a ribeira de Odeleite, em Junho, este pedaço de Castro Marim é seco, dourado por centenas de cerros até ao horizonte. O sol ainda está quente na dianteira da casa e a vista cai sobre uma albufeira azul, aquela que, rezam as redes sociais, tem sido cobiçada por chineses por tomar a forma de um dragão.

Asiáticos, no entanto, não parecem abundar por aqui, pelo menos no final de Junho. Quem chega às portas do Almada d’Ouro é António Baltazar, de bigode farto e cigarro à mão, numa pick-up preta de quem está habituado a explorar caminhos de terra. Foi presidente da Junta de Freguesia de Azinhal (aqui ao lado) de 2005 até ao ano passado e fundou, primeiro, a associação de caçadores e, há dez anos, a área de serviço para autocaravanas Almada d’Ouro Club. Assim, sem “e” no fim, já com a visão de o internacionalizar. “Internacionalizar um clube de caçadores numa freguesia com 700 habitantes?” Baltazar desfaz-se numa gargalhada. Estava a brincar.

“Eu dava-lhes espaço e condições e eles cuidavam dele”

A sede da associação é uma casa amarela e branca no cimo de um cerro, o que lhe dá ares de santuário. Mas lá dentro não há nossas senhoras. As paredes são forradas a retratos dos grandes marcos do “acto venatório”, como gosta o ex-presidente da junta de chamar às caçadas. “Primeiro pensámos que pudessem não gostar, mas a verdade é que os turistas não se importam. Às vezes até querem vir comer connosco.” O pessoal do clube é que nem sempre gosta muito, segundo o relator.

A ideia de chamar caravanistas para esta colina foi, no início, uma forma de manter a sede da associação sob vigilância. “Eu dava-lhes espaço e condições e eles cuidavam dele. No início nem levávamos nada.” Mas com os anos — apesar de Baltazar assegurar que a finalidade do parque não é o lucro — a estadia passou a ter um custo: 4,50 euros por noite, com acesso a água e Internet; 7,50 euros, com electricidade incluída. Já o bar apoia as noites de Inverno com uma prateleira diversificada de garrafas.

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O inglês aos gritos

De Setembro a Maio, não há desertificação nesta colina. A área de serviço é obrigada a negar estadia a “seis ou sete pessoas por dia”. Suecos, alemães, ingleses e holandeses instalam-se em Alcaria nas suas carapaças de aço, durante meses; há quem fique sete ou oito. De dia dedicam-se às caminhadas, em rotas como o PR4, de 11 quilómetros, que cruza a aldeia de Odeleite ou a Fonte do Penedo; à noite, bebem. “Mas sempre com tudo muito contado; não são como nós, que gastamos logo tudo no primeiro dia”, atenta o algarvio.

Agora Baltazar já os conhece. Mas a imagem que tinha dos autocaravanistas transfigurou-se desde que Alcaria começou a receber gente de fora para ficar. “A ideia generalizada era de que eram nómadas, selvagens, anarcas… Nem deuses nem chefes. Mas não. É gente limpa, cumpridora, com sentido de responsabilidade e formação.” Não é que esta espécie nunca tivesse sido avistada por aqui. “Chegámos a ter encontros indesejáveis durante o acto venatório”, revela Baltazar, puxando pela memória de um inglês que apareceu aos gritos entre a palha seca do Baixo Guadiana. 

Mas se os caravanistas não são selvagens desmedidos, por que motivo existem tão poucas áreas de serviço como esta no Nordeste do Algarve? “Um terreno para autocaravanas nunca pode ser rentabilizado como para uma urbanização. Por isso, os municípios não vêem interesse nisto. Eles são os ‘patinhos feios’, porque não precisam de camas, de restaurantes, de nada, embora acabem por consumir e tenham muitas vezes mais poder económico do que os outros”, responde o dirigente, acrescentando um exemplo próximo, o de Castro Marim: “No parque de estacionamento, junto ao supermercado, chegam a estar 100 e tal carros [autocaravanas]. O homem [proprietário do estabelecimento] vive daquilo!”

Também o restaurante de Alcaria já viu piores dias. Agora tem vezes de casa cheia. E os produtores locais vendem no Club “o pão, o mel e os queijinhos”. As caravanas mudaram Alcaria. “Entre Janeiro e Março, dormem mais pessoas aqui do que em todas as povoações juntas à volta.” Almada de Ouro, por exemplo, já teve 180 residentes. “Hoje vivem lá 16 pessoas” e assim é porque, depois de 17 anos em Lisboa, Baltazar regressou com a família para a terra natal, contra a corrente dominante.

“A culpa de tudo isto, desta desertificação do interior, é do Cliff Richard”, acende-se o presidente. Não pelas canções do inglês que tem nome de rua em Albufeira, mas pelos loucos anos de investimento na costa sul, inflamado pela vinda de figuras que ajudaram a inflacionar a vida, e na opinião de Baltazar, a fazer esquecer o Algarve longe do mar.

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