Entrevista

“Os consumidores vão pagar preços mais altos”

Robert Koopman, economista chefe da OMC, diz que desequilíbrios comerciais se devem mais a políticas macroeconómicas do que comerciais e que subir taxas é a solução “simples”

Local de culto
Foto

Presente em Portugal para participar na Summer School do ISEG, o economista norte-americano, que lidera o departamento de investigação e estatística da Organização Mundial do Comércio (OMC) há quase quatro anos, mostra preocupação com a recente onda proteccionista no mundo, mas confia que não se assistirá a um retrocesso no processo de globalização. Ainda assim, defende que se está a falhar na forma de resolver os problemas, que são mais o resultado das políticas macroeconómicas seguidas e do impacto das tecnologias do que das estratégias comerciais seguidas pelos países. “Culpar alguém de fora é sempre mais fácil”, afirma.

A Administração Trump parece acreditar que os EUA têm o poder de mercado para conseguir melhores acordos comerciais com todos os outros países. Isso é possível?

É interessante que na ciência económica nós falamos em taxas alfandegárias óptimas. Se um país grande com uma influência global sobre a definição dos preços reduz a procura de importações com as taxas, pode fazer com que os preços no mundo caiam, compensando parte do efeito das taxas. É o chamado efeito "termos de troca". Como país muito grande, vários economistas dirão que os EUA têm a capacidade para afectar os preços globais de muitos bens. Mas o mundo mudou muito nos últimos 35 anos. Se se comparar a actual situação com os anos 1980, na altura os EUA eram provavelmente um actor muito maior nos mercados internacionais, com uma maior influência nos preços do que agora, porque o mundo agora está muito mais integrado. Há muitos países que têm muito mais parceiros comerciais e não estão tão dependentes do mercado norte-americano como estavam antes.

Portanto, este tipo de estratégia funcionaria nos anos 1980?

A estratégia pode também funcionar agora, mas não funcionará tão bem como funcionaria nos anos 1980. Mas saliento que estou a falar apenas da estratégia em termos económicos, não estou a fazer qualquer julgamento em termos políticos ou a pronunciar-me sobre se a estratégia é ou não apropriada.

Uma das complexidades no sistema comercial internacional actualmente são as cadeias de valor global. Isso torna a medição do impacto de qualquer política mais difícil?

Sem dúvida. Muitas empresas importam para depois exportar. Temos estas cadeias de fornecimento globais, que são essenciais em produtos como um iPhone que tem incorporado valor de muitos países diferentes. Alguns dados recentes mostram que um iPhone de 300 dólares que chegue à fronteira dos EUA tem 8,95 dólares de valor acrescentado chinês. E a verdade é que qualquer taxa alfandegária que venha a ser aplicada sobre essa importação não vai apenas fazer-se sentir sobre os 8,95 dólares de valor acrescentado chinês, vai ser sobre a totalidade do produto.

Portanto, quando um país impõe taxas, é difícil perceber quem é que exactamente está a ser afectado...

Sim, é muito difícil definir exactamente que efeitos é que vão ser sentidos. Mas há uma quantidade grande de trabalho que tem vindo a ser feito, por exemplo na OMC, e aquilo que se sabe sobre o assunto tem vindo a aumentar a cada ano que passa. Eu penso que uma das questões mais interessantes vai ser a de saber se estas cadeias de valor global são verdadeiramente flexíveis. Isto é, de que forma é que se irá conseguir substituir os fornecedores, quando estes passam a ser mais caros por causa da introdução de taxas. Há um estudo recente feito em Harvard que olha para algumas cadeias de fornecimento e assinalou, por exemplo, que as peças e os componentes que são feitos para os carros da Ford não podem ser substituídos por peças para carros BMW, e vice-versa. Portanto, pode ser muito difícil ajustar estas cadeias de fornecimento e, se é difícil ajustá-las, o que isso significa é que o impacto das taxas alfandegárias é bem maior. É maior porque não há muitas maneiras de escapar a elas, pelo menos de uma forma rápida. Mas neste momento não sabemos ainda quantas destas cadeias de valor rígidas temos e quantas mais flexíveis temos. Por exemplo, quando falamos de produtos electrónicos, há muitos fornecedores concorrentes. Mas quando falamos de componentes especiais para automóveis, é mais difícil arranjar fornecedores alternativos.

Nestas circunstâncias, é possível saber quem seriam os vencedores e os perdedores de uma guerra comercial em larga escala?

Há alguns níveis em que saber isso é mais fácil. Uma coisa que sabemos é que os consumidores vão perder. Os consumidores vão certamente pagar preços mais altos. Esse é um impacto que é bastante bem compreendido e inevitável. Está-se a introduzir um imposto sobre o consumo, subindo os preços e, portanto, os consumidores vão ter de pagar mais. Depois, algumas empresas vão ganhar. Por exemplo, se se pensar nas taxas sobre o aço e o alumínio: os produtores desse sector que estão a ser protegidos pelas novas taxas vão provavelmente ganhar. Em contraponto, quem quer que use aço e alumínio para produzir outros bens, vai suportar preços maiores. Os preços dos seus próprios bens vão ter de subir e a procura pode baixar. Os consumidores que decidam comprar esses bens, vão fazê-lo a um preço mais alto. Foram impostas taxas alfandegárias mais elevadas sobre as máquinas de lavar provenientes da Coreia. Os preços dessas máquinas subiram imediatamente e, portanto, os produtores de máquinas de lavar norte-americanos pensaram que podiam ganhar vantagens sobre os seus concorrentes do exterior. Mas depois o que aconteceu é que as taxas sobre o aço e o alumínio também subiram e cerca de 70% dos componentes importados pelos fabricantes de máquinas de lavar norte-americanos estão relacionados com aço. E assim a grande maioria do preço dos seus inputs subiram (o que não aconteceu com os coreanos) e agora os fabricantes dos EUA estão preocupados que não vão ter a vantagem que esperavam. O que isto mostra é como as coisas se tornam muito complexas quando estamos perante cadeias de valor bastante longas.

Isso acontece também com a indústria automóvel?

Também. Os produtores de automóveis que estão nos EUA, sejam americanos ou europeus, vão ter de enfrentar preços mais altos de alumínio e aço e vão ter de tomar decisões difíceis.

Há estimativas feitas do impacto de um cenário em que este sistema da OMC e outros acordos bilaterais deixam de existir?

Têm sido feitos estudos muito interessantes sobre esse tema. A OCDE, por exemplo, aponta para um aumento dos custos com o comércio de 10%. E um estudo recente de três economistas (Alessandro Nicita, Marcelo Olarreaga e Peri da Silva) analisa o que é que aconteceria se todos os países, em vez de aplicarem as taxas acordadas na OMC, caminhassem para as suas taxas óptimas. Eles estimam que essas taxas seriam, em média, 32 pontos percentuais mais elevadas, sendo que actualmente essa média está nos 8%. Isso conduziria a um impacto negativo no PIB mundial da ordem dos 3% a 4%.

Num cenário desse tipo, o que é que um país como Portugal, que é relativamente pequeno mas faz parte de um grande bloco comercial com é a União Europeia (UE), pode esperar e fazer?

Nesta questão, há vários aspectos em que fazer parte da UE ajuda muito. Existem taxas comuns face ao exterior e há um acesso livre dentro da UE. De qualquer modo, se Portugal estiver muito integrado e beneficiar de cadeias de valor globais, mais choques adversos podem ser sentidos. No sentido contrário, se os produtos portugueses forem de alguma forma únicos, como o seu vinho ou alimentos, o país, mesmo sendo pequeno, pode ter algum poder de mercado. Não o terá, se estiver a produzir matérias-primas, como o aço ou o alumínio e aí será afectado, se a UE for visada nessas taxas. Se for mais afectado que os seus parceiros da UE, não há muito que possa fazer, mas a minha aposta seria a de que, feitas as contas, Portugal provavelmente beneficia em média por estar dentro da UE.

A administração Trump está a visar fortemente a China e o presidente fala também muitas vezes da Alemanha. Isto é um sinal de que uma política de forte aposta nas exportações, como a que tem sido seguida por esses países, tem limites, nomeadamente políticos?

Cada vez que um país sai do equilíbrio durante muito tempo na sua balança comercial, é evidente que isso causa preocupações entre os seus parceiros, com eventuais consequências políticas. E penso que o que esses países têm de fazer é pesar as suas políticas domésticas face às suas políticas externas. Instituições como a OMC foram exactamente criadas para servirem de fórum para este tipo de discussões. O que acontece é que, muitas vezes, os défices e os excedentes comerciais não são o resultado de políticas comerciais, mas sim o resultado, ou de políticas macroeconómicas explícitas ou da interacção das diferentes políticas macroeconómicas. Um défice ou um excedente da balança comercial e da balança total com o exterior é determinado pela relação entre poupança e investimento. Se se é um país que poupa muito face ao que investe, vai-se registar um grande excedente.

E esses países devem contrariar isso?

É uma decisão política que têm de tomar. Têm de decidir que equilíbrio desejam entre as suas políticas domésticas e as externas e avaliar a sua política macroeconómica. O que eu penso é que olhar apenas para as relações comerciais para resolver isto, quando se está perante um problema que é macroeconómico, não resolve nada. É um erro pensar que simplesmente por se impor taxas sobre um parceiro comercial se vai resolver o problema.

Mas neste momento, os políticos estão a focar-se na política comercial...

Porque é uma coisa bastante simples e fácil de perceber. As taxas conseguem-se ver e mudar.

E é cada vez mais difícil, encontrar políticos que defendam o comércio livre, principalmente nos EUA. Porque é que acha que isso acontece?

Penso que é algo que é difícil as pessoas perceberem. A noção de vantagem competitiva é um daqueles conceitos económicos que é muito poderoso, mas não é muito óbvio. E nós até o aplicamos todos os dias na nossa vida. Geralmente, não produzimos a nossa própria comida, porque dessa forma não teríamos tempo para fazermos as coisas em que somos bons. Mas há agricultores que são bons nisso. E é por isso que nos especializamos e fazemos trocas, todos os dias. Algumas dessas trocas ultrapassam fronteiras, e é quando isso acontece que entramos numa questão psicológica de "nós contra eles". Não pensamos em "nós contra eles" quando vamos à mercearia, mas assim que começamos a falar da Alemanha, da China ou dos Estados Unidos, é fácil começar a pensar dessa maneira, embora seja o mesmo princípio económico que está em jogo.

Mas também há perdedores com o comércio livre.

Há perdedores com a tecnologia. A tecnologia cria disrupções nas indústrias. Isso não tem a ver com comércio, tem a ver com tecnologia. Um estudo que fizemos, que tenta distinguir entre os efeitos do comércio e da tecnologia nos empregos, aponta para que cerca de 80% das perdas de empregos estejam relacionadas com a tecnologia. Aliás, muitas das perdas de emprego estão em sectores de bens não transaccionáveis. Mas o que é que é possível controlar? A imigração e o comércio. As pessoas não votam na tecnologia, ninguém vai votar se devemos ter mais ou menos tecnologia, portanto é natural que os políticos se foquem em coisas que pensam que conseguem controlar e que pensam que podem ser populares politicamente em vez de reflectirem sobre os ajustamentos que é preciso fazer internamente. Culpar alguém de fora é sempre mais fácil.

A existência da OMC está em risco?

Há um grande debate em torno da OMC neste momento e há até países que podem estar a ponderar abandonar a instituição. Um país em concreto. Mas aquilo que vejo neste momento em Genebra [a sede da OMC] é os países membros a tentarem trabalhar dentro do sistema da OMC. E aquilo que a OMC está a fazer é aquilo que é suposto, que é permitir que os seus membros discutam estes temas e que cheguem a um acordo em relação a regras que sejam adequadas para todos.

Podemos estar perante um momento em que o comércio internacional perde peso na economia mundial? A globalização já atingiu o seu máximo?

Há várias pessoas preocupadas com isso. De facto, entre 2012 e 2016 assistimos a um período em que o comércio não cresceu mais do que o PIB, o que comparou com uma média histórica em que o comércio crescia mais 1,5 pontos percentuais do que o PIB. Nos anos 1990, em particular, o comércio internacional ganhou muito peso. Mas isso foi num período de mudança espantosa, em que as economias do leste europeu se abriram e liberalizaram, a China decidiu continuar a abrir-se e a Índia também entrou em força no comércio internacional. Depois veio a crise internacional, que fez o comércio cair muito e depois entrámos neste período em que comércio e PIB estão par a par.

Culpa de um maior proteccionismo?

Penso que tem mais a ver com a situação macroeconómica do que com o proteccionismo. O proteccionismo pode ter contribuído um pouco, mas o que aconteceu foi que o investimento recuperou muito lentamente e o consumo de bens duradouros também. Estas são as componentes do PIB mais intensivas em comércio. Em 2017, o investimento recuperou e aquilo que aconteceu foi que o comércio também recuperou e cresceu quatro vezes mais que o PIB.

E agora com esta vaga de proteccionismo?

Até agora, em 2018, o crescimento forte do comércio mantém-se, tal como o do investimento e do consumo. Mas estamos atentos ao que irá acontecer.

Portanto, não acha que chegámos ao ponto máximo da globalização e que a partir daqui é a descer?

Não vejo a globalização a recuar. Pode haver alguns reajustamentos nas cadeias de valor globais e claro que estou preocupado com o aumento do proteccionismo, mas é preciso levar em conta que as medidas anunciadas pelos EUA afectam produtos no valor de 400 mil milhões de dólares e podem subir até aos 800 mil milhões de dólares e o comércio internacional no seu total é de 20 biliões de dólares. Portanto, aquilo a que é preciso estar atento é ao impacto que se irá sentir no investimento. Se o investimento cair, o comércio cai.