Editorial

O apartheid israelita

A igualdade de direitos prevista em 1948, na fundação do Estado de Israel, morreu. Em seu lugar nasce a discriminação institucionalizada que vai oficializar o terrorismo de Estado.

Graças à lei que define o Estado israelita para os judeus e lhes dá o direito exclusivo à autodeterminação, é imperativo reconhecer que Israel tem hoje uma política racista oficial. A impressionante e muito respeitável história do país fica manchada com esta lei que os extremistas do Likud que ocupam o Governo fizeram questão de aprovar. Não é nada que fuja à deriva fundamentalista dos últimos anos: o que Netanyahu está a fazer ao Estado de Israel demorará décadas a reverter.

É particularmente triste que isto aconteça num Estado que representa uma cultura tão fascinante e merecedora de respeito. É um paradoxo difícil de explicar e revela uma estranha insegurança vinda de um país que sempre fez gáudio em se afirmar como uma democracia rodeada de ditaduras e autocracias religiosas. Isso agora acabou.

Com esta lei infeliz, Israel não se vai distinguir no essencial da cultura de Estado do Irão. Ser um Estado religioso implica dar primazia à interpretação divina dominante e não ao modelo social, subjugando o cidadão ao crente e desvalorizando a democracia em função da lei religiosa. Claro que a tradição democrática ainda impera no país e as instituições funcionam. Mas agora terão de se sujeitar gradualmente ao primado do divino, subvertendo o racionalismo que é ele também fruto da herança intelectual judaica. A democracia passará a ser uma formalidade e a discriminação será política oficial.

Tudo isto é fruto da mudança populacional proporcionada pelo aumento dos ultra-ortodoxos — porque estes reduzem a mulher à condição de mãe e acabam por gerar muito mais crianças do que as famílias seculares. Com isto, a extrema-direita tem vindo a ganhar destaque e políticos como o execrável Lieberman, ministro da Defesa, têm hoje um protagonismo impensável há apenas duas décadas.

A primeira consequência é a institucionalização do apartheid que vai começar a perseguir árabes e cristãos. Mas esse é apenas o primeiro passo de um crescente fundamentalismo que não vai ficar por aqui: daqui a pouco vai começar a virar-se contra as mulheres e contra as minorias sexuais, reprimindo quem não se conformar ao modelo religioso cada vez mais intolerante. E irá provocar que o laicismo cultural esteja cada vez mais longe das fronteiras israelitas, espalhado nas vibrantes e diversas diásporas judaicas espalhadas pelo mundo. Serão essas a demonstrar a vitalidade da cultura judaica, ficando Israel como mais um triste exemplo de uma deriva nacionalista e populista que nunca acabou bem.