Maria Butina, Associação Nacional do Rifle
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Maria Butina: “Amigável, curiosa e sedutora”

A história de como a alegada agente russa Maria Butina conseguiu ter acesso aos círculos da elite conservadora norte-americana. E de como se tornou amiga dos influentes líderes da National Rifle Association. “Ela era uma lufada de ar fresco.”

Durante quase cinco anos, a estudante russa de Ciência Política Maria Butina foi uma presença invulgar nos mais importantes eventos do movimento conservador americano

Maria Butina, que esta semana foi formalmente acusada de ser uma agente secreta russa, tornou-se amiga dos influentes líderes da National Rifle Association (NRA) e da Conservative Political Action Conference (CPAC), afirmando publicamente o seu interesse nos assuntos americanos e os seus esforços para promover os direitos relativos à posse e ao porte de armas na restritiva Rússia de Vladimir Putin. Imiscuiu-se também nos círculos de candidatos presidenciais do Partido Republicano, procurando inicialmente encontrar-se com o governador do Wisconsin, Scott Walker, e depois, quando a candidatura deste falhou, com Donald Trump.

Mas em Agosto de 2016, quando se mudou para os Estados Unidos ao abrigo de um visto de estudante, o FBI estava atento, segundo agentes americanos próximos do caso. Contudo, em vez de a interrogar ou confrontar, os agentes federais decidiram vigiar os seus movimentos para descobrir o que ela estava a fazer nos Estados Unidos e com quem se iria encontrar — o tipo de vigilância que é comum quando cidadãos de outros países são suspeitos de estarem a trabalhar para governos estrangeiros.

Por essa altura, Butina já tinha perguntado publicamente a Trump qual a sua opinião sobre a Rússia e conhecido o seu filho mais velho numa convenção da NRA. Depois de o FBI a ter começado a vigiar, marcou presença numa festa aquando da tomada de posse de Trump e tentou intermediar um encontro entre o novo Presidente e um alto funcionário do Governo russo no National Prayer Breakfast [evento anual que decorre em Washington e que reúne as elites políticas, sociais e económicas] do ano passado.

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A russa de 29 anos foi presente a um júri de instrução na terça-feira e acusada de conspiração e de não se ter registado como agente estrangeira DR

Em 2017, depois de se ter matriculado numa pós-graduação na American University em Washington, Butina começou também a sondar grupos de esquerda, tentando sem sucesso entrevistar um grupo de direitos civis de Washington sobre as suas vulnerabilidades ao cibercrime, alegando que se tratava de um projecto académico, revelou uma testemunha da sua abordagem.

No domingo, alertadas para a iminência da sua deslocação de Washington para a Dakota do Sul, onde a vigilância seria mais difícil, as autoridades federais detiveram Butina.

A russa de 29 anos foi presente a um júri de instrução na terça-feira e acusada de conspiração e de não se ter registado como agente estrangeira. A acusação alega que Butina trabalhou em conjunto com um contacto no Governo russo para se infiltrar em grupos políticos americanos, como parte de um plano para “promover os interesses da Federação Russa.”

Robert Driscoll, advogado de Butina, afirmou que ela não é uma agente russa e que não passa de uma estudante que se interessa por política e deseja relacionar-se com cidadãos americanos. “Ela pretende defender vigorosamente os seus direitos e espera poder limpar o seu nome”, disse num comunicado.

Uma presença sofisticada

As autoridades americanas alegam que as suas actividades mostram a amplitude e a sofisticação das operações de influência da Rússia nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo que, segundo os procuradores, 12 funcionários dos serviços secretos russos tentaram, a partir de Moscovo, influenciar a campanha presidencial de 2016 roubando e divulgando documentos relativos aos candidatos democratas, Butina percorria o país, estabelecendo laços com poderosas figuras conservadoras em nome do Kremlin, afirmam os documentos judiciais.

“Esta última acusação é apenas mais uma prova do alcance e da cuidadosa planificação do assalto russo à democracia americana”, diz um antigo funcionário americano com conhecimento da investigação sobre a Rússia, falando em condição de anonimato devido aos processos em curso. “Se alguém ainda tem dúvidas sobre a veracidade da ameaça da contra-espionagem russa, esta acusação é mais uma prova de que a ameaça existe, é real, e que é urgente que o país a enfrente.”

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Quem se cruzou com Butina lembra que a sociável ruiva tinha uma história de vida que encantou muitos dos activistas e funcionários que conheceu nos eventos do Partido Republicano Civic Chamber of the Russian Federation/REUTERS

As actividades de Butina levantam questões sobre a razão pela qual a NRA e outros grupos lhe concederam acesso privilegiado, possibilitando-lhe conhecer políticos importantes e influentes líderes de opinião. A NRA não respondeu a pedidos de esclarecimento.

Quem se cruzou com Butina lembra que a sociável ruiva tinha uma história de vida que encantou muitos dos activistas e funcionários que conheceu nos eventos do Partido Republicano. Em 2015, contou num programa de uma rádio conservadora que cresceu nas florestas da Sibéria, onde o seu pai a ensinou e à sua irmã a caçarem ursos e lobos.

Após uma breve carreira como proprietária de uma pequena cadeia de lojas de mobiliário, Butina mudou-se para Moscovo, onde começou uma carreira em relações públicas e fundou um grupo chamado Direito ao Porte de Armas para defender a suavização das restritivas leis russas de controlo de armas.

Em pouco tempo o seu grupo arranjou um poderoso patrono, na pessoa de um senador do partido de Putin que depois se tornou vice-director do banco central da Rússia: Alexander Torshin, membro vitalício da NRA com ligações a conservadores cristãos através de um prayer breakfast anual que ajudava a organizar em Moscovo.

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Agindo como assistente e tradutora de Torshin, Butina começou rapidamente a estabelecer as suas próprias ligações à NRA, tornando-se amiga de David Keene, antigo presidente da American Conservative Union e presidente da NRA entre 2011 e 2013. Em 2013, Butina e Torshin convidaram Keene e outros americanos entusiastas das armas para a convenção anual da sua organização em Moscovo. Lá, Butina conheceu Paul Erickson, operacional republicano baseado na Dakota do Sul e bem conhecido dos militantes republicanos desde o seu trabalho como director político nacional da candidatura de Pat Buchanan à presidência dos EUA em 1992. Segundo pessoas que tiveram acesso ao seu testemunho, Butina afirmou em Abril, perante o Comité para os Serviços de Informações do Senado, que tinha uma relação amorosa com Erickson. Este corresponde à descrição presente nos documentos judiciais de um operacional político americano que ajudou a apresentar Butina a políticos americanos influentes “com o intuito de promover os interesses da Federação Russa.” Erickson, que não foi acusado, não respondeu aos pedidos de esclarecimento.

A NRA como rampa de lançamento

A partir de 2014, e de acordo com as suas contas nas redes sociais, Butina começou a marcar presença nas convenções anuais da NRA. Tanto ela como Torshin conseguiram um nível de acesso incomum aos encontros da cúpula da NRA, afirma uma pessoa com conhecimento da organização dos eventos da NRA. Nos últimos anos, foram regularmente convidados para os jantares Golden Ring of Freedom e outros eventos VIP, normalmente reservados para quem faz doações superiores a um milhão de dólares à NRA.

Segundo pessoas conhecedoras das suas declarações, Butina afirmou ao Comité para os Serviços de Informações do Senado que nem ela nem Torshin fizeram doações à NRA além das quotas de associados, e que o tratamento especial que receberam foi apenas uma forma de agradecimento por terem recebido os líderes da NRA em Moscovo.

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A NRA foi a rampa de lançamento de Butina para o mundo da política republicana DR

A NRA, que gastou mais dinheiro no apoio a Trump do que a qualquer outro anterior candidato presidencial, nega ter aceitado doações vindas de Butina ou de Torshin. Numa carta enviada em Abril a Ron Wyden, senador democrata do Oregon, um representante da NRA afirma que, além das quotas de associado, Torshin “não fez qualquer contribuição e portanto não faz parte de nenhum programa de grandes doadores.”

A NRA foi a rampa de lançamento de Butina para o mundo da política republicana. Documentos judiciais revelam que, em Março de 2015, ela e Erickson trocaram emails sobre um projecto “diplomático” especial que visava utilizar a organização para influenciar o Partido Republicano que, na opinião de Butina, iria conquistar o controlo sobre a Casa Branca. Na convenção da NRA desse ano, que teve lugar em Nashville e onde esteve presente uma dúzia de potenciais candidatos presidenciais, Butina e Torshin privaram com os cabeças de cartaz numa sala reservada aos VIP, de acordo com o relato de uma testemunha.

Num post nas redes sociais, Butina escreveu que conheceu Walker e que ficou surpreendida por ter podido trocar algumas palavras em russo com o governador do Wisconsin, que se preparava para concorrer à presidência e liderava as sondagens. Um porta-voz de Walker disse, na terça-feira passada, que estavam milhares de pessoas nessa convenção e que “muitas delas pediram para cumprimentar e tirar uma fotografia com o governador.”

Ainda em 2015, Butina esteve presente no comício de lançamento da candidatura de Walker no Wisconsin, e num debate de candidatos em Las Vegas, onde discursaram o senador republicano da Florida, Marco Rubio, e Donald Trump.

Butina conseguiu também acesso às zonas VIP de eventos como a CPAC, o que lhe permitiu chegar à fala com líderes e altos quadros destas poderosas organizações, dizem testemunhas que a viram nesses encontros.

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“A Maria interessa-se por armas, portanto é óbvio que os seus círculos sociais estão ligados a isso” DR

“Olá, sou russa.” Foi assim que Maria Butina se apresentou a um participante veterano da CPAC, a quem rapidamente começou a fazer perguntas num inglês com sotaque, mas gramaticamente perfeito: “O que faz? Quem apoia para Presidente?” O seu experimentado interlocutor, que pediu anonimato devido às investigações em curso, lembra-se que ela era “amigável, curiosa e sedutora.”

Segundo recordam outras pessoas que a conheceram, a russa levantava frequentemente a questão dos direitos das armas antes de pedir para trocar cartões-de-visita e pedidos de amizade nas redes sociais.

“Ela era uma lufada de ar fresco”, diz Saul Anuzis, antigo presidente do Partido Republicano do Michigan e que se cruzou com Butina numa mão-cheia de eventos conservadores em 2016. “Ela geria um grupo pró-armas na Rússia. Com o grau de repressão de Putin, fazia logo pensar que era uma coisa radical, revolucionária.”

Num email que enviou para o The Washington Post em 2017, Butina afirma que o seu grupo não era “muito popular” junto das autoridades russas, e que nunca recebeu financiamento por parte do seu Governo. “Nenhum funcionário do governo alguma vez me pediu para ‘estreitar laços’ com qualquer cidadão americano”, escreveu então.

Igor Shmelyov, presidente do grupo fundado por Butina, afirmou que a sua detenção foi “um grande choque”.

“A Maria interessa-se por armas, portanto é óbvio que os seus círculos sociais estão ligados a isso”, disse, acrescentando que as suas interacções com apoiantes da NRA e da Second Amendment Foundation se deveram a esses interesses pessoais: “Dizer que essas relações significam que ela estava a fazer lobby a favor de interesses russos é bastante ridículo.”

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“Estou pronta para novas ordens”

Mas, de acordo com o FBI, Butina falava frequentemente com um “alto quadro do Governo russo” sobre os seus esforços para fortalecer os laços entre a Rússia e os Estados Unidos. A descrição encaixa em Torshin, um dos 17 altos funcionários do Governo russo penalizados pelo Governo americano em Abril pelo seu envolvimento nas “actividades malignas” da Rússia.

 “Maria Butina está actualmente nos Estados Unidos. Pelo que me diz, D. Trump (membro da NRA) é verdadeiramente a favor da cooperação com a Rússia”, tweetou Torshin, em russo, em Fevereiro de 2016.

No mês seguinte, e segundo os documentos judiciais, Butina escreveu por email a um dos seus contactos americanos que Torshin tinha recebido aprovação por parte da administração russa para prosseguirem os seus esforços para a construção de um “canal de comunicação” nos Estados Unidos. Os mesmos documentos afirmam que, na noite da vitória de Trump, Butina enviou uma mensagem a Torshin: “Vou dormir. São três da manhã aqui. Estou pronta para novas ordens.”

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As autoridades americanas alegam que as actividades de Butina nos EUA mostram a amplitude e a sofisticação das operações de influência da Rússia naquele país DR

Erickson fez lobby por um lugar na equipa de transição de Trump e queixou-se, depois das eleições, de um problema com a sua credencial de segurança, dizem fontes próximas da situação. Mas mesmo sem credenciais oficiais, fez pressão junto dos dadores e dos funcionários da campanha de Trump para que posições-chave fossem entregues a pessoas que considerava especialmente qualificadas. Uma testemunha lembra-se de Erickson fazer lobby para que K.T. McFarland fosse nomeada para assessora de Michael Flynn, o primeiro conselheiro de segurança nacional de Trump.

À medida que o escrutínio sobre as acções russas durante a campanha presidencial ia crescendo, também as actividades de Butina enquanto estudante de pós-graduação na American University começaram a dar nas vistas. O alarme soou num grupo de direitos civis de Washington em Junho de 2017, quando Butina pediu para entrevistar o líder do grupo sobre as suas vulnerabilidades a ciberataques, supostamente para um trabalho académico.

“Foi uma situação incrivelmente suspeita”, diz Jon Steinman, co-fundador da CyberHill, empresa de cibersegurança que trabalhava com o grupo. Steinman relata que entrou imediatamente em contacto com o FBI e que foi exaustivamente questionado sobre o episódio em Janeiro.

Driscoll, o advogado de Butina, afirma que o pedido de entrevista não tem nada de surpreendente, uma vez que a jovem russa estava matriculada num curso de cibersegurança. Um porta-voz da American University confirmou que Butina concluiu um mestrado em Maio, mas não teceu mais comentários.

Com o curso na mão, Maria Butina preparava-se para deixar Washington este fim-de-semana, rumo ao Dakota do Sul. Até que o FBI interveio.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

Tradução de António Domingos