Oitocentos anos de música em Marvão e uma viagem ao século XVIII em Oeiras

Um festival em ascensão no Alto Alentejo e um novo programa musical e cultural em torno do Marquês de Pombal iniciam-se hoje em Marvão e Oeiras.

Festival Internacional De Música De Marvão, Alemanha, Orquestra
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Orquestra de Câmara de Colónia,,Orquestra de Câmara de Colónia, dr
George Frideric Handel, Música, Ópera
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O contratenor Lawrence Zazzo dr

O Festival Internacional de Música de Marvão (FIMM) tem esta sexta-feira, às 19h30, a sua abertura oficial com um concerto pela Orquestra Estatal de Atenas, que se apresenta pela primeira vez em Portugal. No sugestivo cenário do Castelo de Marvão, esta formação grega irá tocar em colaboração com os responsáveis pela direcção artística do festival (o maestro Christoph Poppen e a soprano Juliane Banse) e com a violinista Veronika Eberle um programa inteiramente dedicado a Dvorák (Concerto para Violino; Canção da Lua, da ópera Rusalka; e Sinfonia n.º 8).

Esta 5.ª edição, que decorre até 29 de Julho, inclui 40 concertos em várias localidades, e um programa que se estende desde o século XII até à actualidade. Assim, a Idade Média e a época contemporânea combinam-se num concerto que volta a reunir os quatro antigos elementos do prestigiado Hilliard Ensemble (1974-2014) e que fará alternar obras de Pérotin, representante da polifonia medieval da catedral de Notre-Dame, e de Arvo Pärt (dia 28). 

Ainda no âmbito da música vocal religiosa, a polifonia portuguesa dos séculos XVI e XVII preenche o concerto do Officium Ensemble, dirigido por Pedro Teixeira, no dia 28 através de obras de D. Pedro de Cristo (nascido há 400 anos), Fr. Manuel Cardoso, Filipe de Magalhães, Estevão de Brito e Duarte Lobo (com destaque para a Missa Pro Defunctis, a oito vozes, deste último). O Requiem, de Mozart, será interpretado pelo Coro Gulbenkian e pela Orquestra de Câmara de Colónia, formação que acompanha também num outro concerto o fagotista Rui Lopes e o contrabaixista Edicson Ruiz. Destaca-se ainda a presença da Orquestra da Extremadura (Espanha), com a flautista Adriana Ferreira.

O piano marca presença nos recitais a solo de Joseph Moog (dia 21) e Vasco Dantas (dia 27), ambos com obras de Vianna da Motta, entre outras, assinalando assim os 150 anos do nascimento do compositor, e em programas de música de câmara como o do Trio Pangea, que propõe igualmente Vianna da Motta em conjunto com Alexandre Delgado e Schumann (dia 21). Uma peça para piano encomendada a Amílcar Vasques Dias (n. 1945) e intitulada Marwan, como evocação do suposto fundador mouro de Marvão (Ibn Marwan), será estreada por Raul da Costa no dia 23 no âmbito de um concerto no qual participam uma vez mais o violinista Christoph Poppen e a sua mulher, a soprano Juliane Banse. Com uma carreira internacional de primeiro nível, este casal de intérpretes apaixonou-se por Marvão numa visita a Portugal, tendo então decidido criar um festival naquele local. Com sucesso crescente, o projecto pretende expandir-se ainda mais, nomeadamente através de Academia Internacional de Música, Artes e Ciências, iniciativa candidata ao Orçamento Participativo.

António Victorino d'Almeida e a cantora austríaca Erika Pluhar, o fadista Rodrigo Costa Félix, conferências, actividades pedagógicas e um piquenique musical constituem outras propostas de um festival que, no ano passado, conseguiu levar 6000 visitantes a Marvão, uma vila onde vivem apenas cerca de 100 pessoas.

Fim-de-semana musical setecentista em Oeiras

Desde esta sexta-feira até domingo, o Palácio do Marquês de Pombal e os seus jardins, em Oeiras, vão ser palco da 1.ª edição do Festival Oeiras 1700, dedicado à figura de Sebastião de Carvalho e Melo, que foi também conde de Oeiras. Promovido pela autarquia, este programa cultural irá ter como foco a arte dos sons, mas dará espaço também a domínios como a arquitectura, a história, o património, a poesia e a gastronomia. Mais do que a relação directa de Carvalho e Melo com a música (pouco estudada), explora-se a música do seu tempo em Portugal e a música dos países onde exerceu funções diplomáticas, nomeadamente a Inglaterra (Londres) e a Áustria (Corte Imperial dos Habsburgo, Viena).  Em paralelo com os 20 concertos programados, será promovido o incentivo à criação de uma rede pombalina, haverá recriações históricas, dança barroca, conferências (por José Subtil, Rui Vieira Nery e José Meco), declamação de poesia setecentista, degustação gastronómica e vínica, oficinas de técnicas antigas de desenho e azulejaria e vários ateliers educativos.

O concerto de abertura (esta sexta-feira às 21h) dará a ouvir o Concerto para Cravo em Lá Maior, de Carlos Seixas, com Flávia Castro como solista; peças orquestrais de Johann Joseph Fux e a Música para os Reais Fogos-de-Artifício, de Handel, pela Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, dirigida por Nikolay Lalov. Participa também a Academia de Dança Antiga de Lisboa, com direcção do mestre de dança Vicente Trindade. No sábado (dia 21), o Atelier de Ópera da Metropolitana apresenta A Flauta Mágica, de Mozart, com direcção cénica e vocal de Jorge Vaz de Carvalho e direcção musical de Pedro Amaral, e o Coro de Câmara de Lisboa (CCL), dirigido por Teresita Gutierrez Marques, em conjunto com vários instrumentistas e cantores solistas (Ana Paula Russo, Susana Gaspar, Ana Ferro, João Rodrigues, Jorge Martins, Rui Baeta), interpreta obras de dois grandes vultos da música sacra portuguesa setecentista: Carlos Seixas e Marcos Portugal.

Os instrumentos de teclado dominam a programação, remetendo tanto para as sonoridades da época (cravo, clavicórdio, órgão) como para interpretações em piano moderno, como a do recital de encerramento por Luísa Tender (obras de Haydn, Beethoven e Bomtempo). Mas antes disso será possível escutar Sonatas de Domenico Scarlatti, Carlos Seixas, Francisco Xavier Baptista e Pedro António Avondano por João Paulo Janeiro, Cândida Matos, Mafalda Nejmeddine e José Carlos Araújo, bem como música de Fux por Dorota Cybulska (cravo) e dois recitais de órgão na Igreja Matriz de Oeiras por António Esteireiro e Sérgio Silva.

Na área do canto destaca-se a participação do contratenor Lawrence Zazzo, com árias de Handel, da soprano Susana Gaspar e da meio-soprano Cátia Moreso que cantarão, respectivamente, árias de Gluck e de Mozart, acompanhadas pelo pianista Nuno Vieira de Almeida. No campo da música de câmara haverá Sonatas para flauta e baixo contínuo de Handel pelo Ensemble Carlos Seixas; Mozart pelo Quarteto op. 28; e Haydn pelos flautistas David Silva e Flávia Valente e pela violoncelista Beatriz Raimundo. Destaca-se ainda o recital temático “A harpa no serão de Maria Antonieta (1755-1793), arquiduquesa da Áustria e rainha consorte de França e Navarra” por Salomé Matos.