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Nos anéis, a forma de Jinx, o grande monstro roxo, "líder e mentor" da editora Pedro Mkk
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A Monster Jinx organiza, duas vezes por mês, as festas Purple Hazin, que acontecem nos Maus Hábitos, no Porto Pedro Mkk

Monster Jinx, o monstro roxo que destrói fronteiras musicais, faz dez anos

A editora, promotora e crew do Porto celebra, este ano, o 10.º aniversário. Com membros que se movem pelos vários espectros da música, a Monster Jinx continua a disponibilizar tudo gratuitamente, no sítio de sempre — a internet. A amizade e a música continuam a falar mais alto.

Taseh senta-se no parapeito que corre uma série de janelas, ao fundo daquele pequeno espaço. Acende um cigarro. Nas suas costas há ferro erguido que interrompe o céu quase imaculado e infinito. Se corrermos toda a paisagem com o olhar, vemos contentores, navios, camiões em ponto pequeno e, com mais esforço, a telha a alaranjar o resto do quadro. Para lá, Leça da Palmeira; do lado de cá, no terceiro andar de um prédio de escritórios a espreitar o mercado, Matosinhos. Taseh abafa o cigarro e diz que é do lado de lá. O verdadeiro nome é Diogo Figueiredo, tem 27 anos e é um dos membros da Monster Jinx, a editora, promotora e, segundo ele, crew portuense que este ano assinala a primeira década de existência. As velas foram apagadas a 30 de Junho nos Maus Hábitos, no Porto, onde, duas vezes por mês, há festas com a chancela do colectivo.

Mais próximo está SlimCutz, ou Luís Azevedo, 28 anos, um dos fundadores da máquina roxa. Ambos desfiam a história da editora, mas quem explica os primeiros passos é SlimCutz, já que Taseh entrou “uns anos mais tarde”. Recuemos dez anos. Com Stray e DarkSunn, apresenta ao mundo o Monstro Robot. Há álbum pronto, as rimas estão carregadas de sotaque, há som old school. Parece que a história se repete e que recuámos aos primeiros suspiros do hip-hop no Porto. Isto até poderia ter vingado, mas, na altura, as editoras bateram-lhes com a porta: o projecto era “artisticamente viável e comercialmente não viável”, recorda SlimCutz. O disco estava pronto, recebeu muitos “nãos”, mas era 2008. Os álbuns e as canções já tinham lugar garantido em plataformas online e mais facilidade havia em lançar-se um projecto para a esfera internáutica. “Decidimos lançar de forma independente, sozinhos, e conseguimos pôr o nosso CD inteiro no MySpace”, explica o fundador da Monster Jinx.  

Pouco depois, e sob a premissa de muitas net labels da altura — quando se lançava “música livre e grátis” — , os três assumiram o papel de olheiros, procurando gente “artisticamente parecida”. Hoje, o plantel tem mais dez nomes. São todos amigos, fazem isto “pela música” e crescem “uns com os outros”. Não há atilhos que os prendam a um só género, nem “limites criativos”, acrescenta Taseh, que, mais uma vez, chama à Monter Jinx uma crew.

O Monstro não se alimenta de dinheiro

Se a palavra faz lembrar a cultura hip-hop, não é por acaso: ambos admitem que as pedras basilares desta casa advêm do movimento do Bronx e de tudo o que resultou da disseminação do hip-hop. Contudo, basta ir ao site da editora e procurar as faixas de dois ou mais artistas para perceber que cada um fala a sua própria linguagem. Ghost Wavvves parece fazer uma releitura da memória sónica dos videojogos, adicionando-lhe gotas alucinogénicas, com aproximações ao Witch House. A proposta é diferente com Nitronious, que tanto resgata as nuances r&b do início do milénio como faz a rapidez do dubstep que rodopia nos ouvidos — naquela mesa de mistura não há fronteiras. Ou, então, falar de Maria, o produtor de música electrónica e hip-hop de Alverca do Ribatejo, Lisboa, que em Maio se estreou pela Monster Jinx com Cor e Forma.

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E.A.R.L e PretoChinês, dois dos membros da Monster Jinx Monster Jinx

Não há sequer uma idade mínima para entrar na nave roxa que espreita o Rio Leça; aliás, quando o P3 faz essa pergunta, SlimCutz parece não entender o porquê de ser necessário estipular uma coisa dessas. É que NO FUTURE, passeando pelo laivo experimental da electrónica nas suas faixas — que não ficam envergonhadas ao pé de outras de artistas internacionais mais celebrados —, entrou para a editora com 18. Tanto SlimCutz como Taseh afirmam várias vezes ao longo da conversa: o maior princípio é “fazer música pela música”. O primeiro repara ainda que “nunca houve necessidade de fazer dinheiro”, nem a maior parte dos artistas ligados à Monster Jinx vivem apenas e só da música. “Os únicos a tempo inteiro somos nós os dois”, refere ainda.

Ambos fazem disto vida, têm o estúdio emprestado por Roger Plexico, a figura misteriosa que parece saída do imaginário americano dos anos 80. Na verdade, este é o projecto da dupla que, através de sintetizadores e teclados “dos anos 70 e 80” — é tudo analógico —, constrói paisagens para onde quisermos ir. Sugestão: Valle de La Luna, um dos destinos do segundo e mais recente disco de Roger Plexico, Where The Sidewalk Ends.  

Contudo, o estúdio está sempre disponível para qualquer membro da Monster Jinx, que, na sua maioria, trabalha a partir de casa. É como se fosse uma família sem horários para o que quer que seja: cada um com a sua rotina, a fazer música pelo prazer. É que se o Monstro Robot não era “comercialmente viável”, também não quer dizer que, agora, ouçamos tudo o que sai dali no rádio do carro, a qualquer hora — e nem é esse o objectivo. “Não queremos competir, não temos estratégia e nem estamos organizados nesse sentido”, explica SlimCutz, salientando antes a importância do “espírito” e do “esforço conjunto” para as coisas acontecerem. Taseh acrescenta outro factor: “a atitude”. Hip-hop é isso, Monster Jinx também.

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Taseh, SlimCutz e J-K no estúdio do projecto Roger Plexico, onde todos os outros membros também podem trabalhar Monster Jinx

Por essa razão, entrar para o núcleo do monstro roxo nunca foi um processo típico de recrutamento. “Muitas vezes, conhecemos alguém artisticamente interessante e convivemos durante algum tempo, às vezes um ano. Temos que nos interessar pela pessoa em si”, conta SlimCutz. A importância da “convivência entre os membros” espelha-se no outro espaço da Monster Jinx, no mesmo edifício, mas no 8.º andar. Aí, há um terraço a circundar o “escritório” branco, amplo, luminoso, com uma mesa de mistura pousada sobre uma das mesas, logo a saltar à vista.

Não é uma startup com aspirações a local de trabalho cool, nem uma editora discográfica pronta para assaltar as tabelas e esgotar pavilhões gigantes. O caminho da Monster Jinx, começado há dez anos, “faz-se gradualmente” e cabe “em qualquer tipo de festival”, conectando, sem forçar, as várias estradas que a música tem. Talvez o melhor resumo do que é a editora portuense sejam as palavras de Taseh, com a Ponte Móvel de Leça atrás, pousada: “É um grupo de amigos.”