Análise

O cisne negro

Donald Trump representa um acontecimento extremo, imprevisível, que desfaz os esquemas estabelecidos e põe em causa a própria noção de Ocidente.

1. Donald Trump é um “cisne negro”. Cisne negro (Black Swan, 2007, e Dom Quixote, 2011) é o título de um livro do epistemólogo e matemático libanês Nassim Taleb sobre os riscos e a incerteza. O cisne negro é um acontecimento extremo, imprevisível e que desfaz os esquemas estabelecidos. A metáfora de Taleb inspira-se na avis rara do escritor latino Juvenal, numa época em que todos os cisnes eram brancos. A descoberta de um cisne negro na Austrália, no século XVII, desintegrou aquela convicção milenar. O cisne negro é um acontecimento “aberrante” e que muda tudo. Pode ser um cataclismo ou uma invenção. Taleb dá como exemplos a Internet, a I Guerra Mundial, a queda da URSS ou o 11 de Setembro. 

Podemos argumentar que não é Trump quem muda o mundo e que foi uma imprevista mudança do mundo que o fez chegar à Casa Branca. O certo é que só depois dele podemos procurar causas ou explicações. A Europa estava preparada para gerir crises na “normalidade”, mas a chegada do cisne negro mudou o quadro.

2. Trump despreza os aliados, mostra deferência perante os inimigos e aprecia os “homens fortes”. Na cimeira da NATO confirmou o seu papel de demolidor da “velha ordem” nascida da II Guerra Mundial e do seu sistema de alianças. A sua “América forte” implica a renúncia à própria liderança americana na “ordem mundial”. Não representa o que o establishment político-militar americano pensa: é o que o Presidente faz. 

Como olhar Trump? O primeiro risco é segui-lo na anedota e no teatro com que distrai os seus críticos. Edward Luce, chefe da delegação do Financial Times em Washington e autor de um livro sobre Trump (The Retreat of Western Liberalism, 2017), faz um aviso: “Quanto mais Donald Trump denigre a NATO maior é o escândalo que provoca na Europa. A moral faz-nos sentir bem. Mas também pode provocar cegueira intelectual.” Os democratas americanos preferiram a “justa indignação à clareza analítica”. Acreditaram, por exemplo, que as mulheres jamais votariam Trump. Enganaram-se. “Os Estados Unidos nunca retirarão as tropas da Europa, dizem em Bruxelas. Mas Trump pode fazer exactamente isso. Qual das margens do Atlântico teria mais a perder?” 

“Ele inventa os seus próprios factos” e, instintivamente, sabe visar os pontos vulneráveis do interlocutor, insiste Luce. Sabotar as alianças diminui a força da América. “Mas o maior perdedor é a Europa. A sua sobrevivência depende da garantia americana.” A Rússia não só ameaça a sua fronteira oriental como interfere activamente na tentativa de desagregação da UE a partir do Leste, dos populismos nacionalistas e, inclusive, das tentações autoritárias. 

Conclusão: “A América liberal encarou Trump literalmente mas não seriamente. A Europa não deveria repetir este erro.” Acabou o mundo pós-1945. Merkel reconheceu, em tom pessimista, que a Europa tem de tomar o destino nas suas mãos. É mais fácil fazer diagnósticos do que indicar a terapia. Mas com Trump, e provavelmente mesmo depois de Trump, mudou a aliança.

3. A Europa está dilacerada por surtos populistas e pela reemergência de nacionalismos. A noção política de Ocidente está a dissipar-se. Depois da crise económica de 2008, a questão migratória mudou as dinâmicas políticas na Europa. A ascensão ao poder dos populistas italianos é um potente acelerador. 

Mas como entram aqui Trump e os Estados Unidos? Trump apoiou o "Brexit" e denuncia o "Brexit soft" de Theresa May. Apreciaria um enfraquecimento da UE que lhe permitisse negociar bilateralmente com os europeus. A simples existência de Trump é um incitamento aos populismos eurocépticos. Beppe Grillo, Matteo Salvini, Viktor Orbán ou Marine Le Pen exultaram com a sua vitória em 2016. Tinham razão.

“Trump não pensa no fim do Ocidente”, afirma o politólogo búlgaro Ivan Krastev. “Quer redefini-lo: o Ocidente, para o chefe da Casa Branca e para [o seu ideólogo] Steve Bannon, não é bem uma aliança política, é antes de mais uma entidade cultural fundada sobre a cristandade. O que coloca a Turquia de fora, mesmo se da NATO, mas inclui a Rússia.”

“O Ocidente é um conceito, não uma localização”, escreve Bill Emmott, antigo director da Economist. Foi “a ideia política com maior sucesso no mundo”. É este Ocidente — que, para lá da geografia, pode incluir o Japão — aquilo que hoje está em causa. Trump abandonou a liderança da ordem mundial que os EUA inventaram e criou um vazio. “Alguns temem a China enquanto potência ascendente”, escreve Luce. “Mas é o caos, e não a China, quem mais provavelmente ocupará o lugar da América.”

4. Acabou também o mundo pós-1989, o breve tempo em que o modelo da democracia liberal se expandia. Hoje, este modelo é desafiado por modelos autoritários, como os de Xi Jinping e Putin. Pelo mundo fora, cresce a lista dos autocratas. E o apetite por “homens fortes”, que garantam “segurança”, não é já estranho à Europa. É o modelo de Budapeste.

“A Rússia assombra a imaginação ocidental”, observa Krastev. “O que causa ansiedade no Ocidente liberal não é que a Rússia governe o mundo, mas que o mundo seja governado da maneira que a Rússia o é hoje. O que perturba é que o Ocidente possa começar a parecer-se com a Rússia de Putin, o que não estávamos prontos a reconhecer.” O ideólogo russo Alexander Dugin, que costuma estar um passo à frente de Putin, não esconde os desígnios: “A Itália é o início da grande revolução populista que mudará o mundo. (...) Os populismos destruirão esta União Europeia.” 

Nunca nada está garantido. Por isso é inevitável olhar de frente os efeitos do cisne negro. São factos. Os novos desafios dizem que acabou o tempo em que a Europa pensava muito em economia e pouco em segurança. Mudar este paradigma é, aliás, a chave para estabelecer novas relações com os Estados Unidos. Numa perspectiva histórica, dir-se-á um dia que cisne negro acabou por ser um bem?