Crónica

Um livro urgente

No último livro, Um Muro a Meio do Caminho, Julieta Monginho volta a assumir o risco de pensar o tempo presente

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Conheci a Julieta Monginho (Lisboa, 1958) já lá vão quase dez anos. Tinha acabado de sair A Terceira Mãe, que era já o seu sexto livro e que ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.  

Fiquei logo impressionada com a capacidade narrativa. As personagens eram o eixo. A autora ia pondo cada uma delas em “cena” e, ao mesmo tempo, construindo um sentido que começava muito lá atrás, no início do século XX. Eram, como ela dizia, “personagens em movimento no confronto com a vida”.

Não deixei de ler os livros que se seguiram – Metade Maior (2012) e Os Filhos de K. (2015). Nem de reparar no quanto a Maria de Lurdes Sampaio, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem razão quando afirma que ela se reinventa em cada livro.

Na nova obra, Um Muro a Meio do Caminho, também põe as personagens, uma a uma, no confronto com a vida, mas paradas. São “vidas suspensas à porta da Europa”, como ela diz. Gosto, em particular, de Amina, que desenha sonhos, e de Omid, que prega o amor universal.

Devo dizer que nos demo tempo para nos conhecermos. Habituei-me a admirar-lhe o interesse constante pelo mundo, a grande capacidade de observação da realidade e a ainda maior capacidade de se pôr no lugar dos outros. Sei que o que a levou a fazer voluntariado em Chios, na Grécia, em Agosto de 2016, foi o lado de cidadã preocupada com os males do mundo. E que no regresso à sua vida quotidiana de magistrada do Ministério Público na jurisdição de família e crianças, em Cascais, sentiu necessidade de arrumar tudo aquilo na cabeça dela, escrevendo.

Enquanto jornalista, tive oportunidade de fazer vários trabalhos sobre requerentes de asilo e refugiados. Ao ler Um muro no meio do caminho fui encontrando verosimilhança: as chegadas das embarcações durante a noite, as desbotadas tendas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, os ajuntamentos de requerentes de asilo sem nada para fazer, entregues a uma espera que parece eterna, os pequenos focos de conflito, os ocasionais incêndios...

“Queria conhecê-los”, diz J, a única personagem não ficcionada do livro. “Pisar o chão que pisaram à chegada. Reparar nas pedras que lhes impeçam os passos, tentar afastá-las. Procurar o caminho mais curto entre o que lhes é devido e o que está à sua espera. Registar para que muitos mais reparem.”

“Registar para que muitos mais reparem” é o que faz um repórter. Julieta Monginho não é nem quer ser repórter. Não lhe chegava registar factos, interpretá-los, verificá-los, cruzá-los e arrumá-los num texto capaz de explicar a quem o lesse o que se passava ali. Queria procurar “algo de mais profundo”.

Um repórter cinge-se à verdade dos factos que consegue apurar. Uma escritora tem outra liberdade para abordar o mundo, para procurar o humano. Julieta Monginho tinha contactado com várias vidas, nuns casos com mais tempo, noutros com menos, e achava que, “para as fazer inteiras, tinha de as inventar”. E, partindo da realidade e, servindo-se da sua imaginação e o teu talento narrativo, inventou-lhes um passado, um presente e um futuro. 

Há várias questões que a narradora levanta e que eu por certo levantaria, se estivesse naquele contexto, enquanto repórter e cidadã. Um exemplo? “Não cheguei a perceber a relação daquelas mulheres com o lenço”, lê-se na página 47. “Se a maioria estava disposta a dispensá-lo e porquê. Elas não falam nisso, eu não me atrevia a perguntar. Ia reparando nas reacções. Algumas tiravam-no mal punham os pés no centro, logo a seguir a descalçarem-se. Outras mantinham-no mesmo entre mulheres. Observei umas e outras. Não consegui distingui-las pela idade, pela jovialidade, pelo luto, por terem ou não os maridos consigo na ilha.”

A condição da mulher coloca-se de um modo muito particular com uma rapariga chamada Asmahn, que está grávida e tem o marido à espera na Alemanha. Atenda-se, por exemplo, a esta passagem do livro: “Decidi não insistir com Asmahn naquele instante. Muitas pregações está ela destinada a ouvir pela vida fora, vindas de opostos mandamentos. ‘Cobrirás o cabelo na presença de estranhos, uma mulher decente só mostra o cabelo ao seu marido’; ‘não cobrirás o cabelo na vida quotidiana entre os de cá, uma mulher acolhida no Ocidente não pode apregoar a fé e a submissão’. Se por acaso alguém lhe perguntasse qual a sua íntima vontade, Asmahn não saberia responder, educada para acatar as palavras alheias como superiores à sua palavra minúscula, sílabas curtas, gaguejadas.”

A narradora não chega a pedir a nenhuma rapariga que tire o véu, apesar da vontade que várias vezes a assalta de lhes passar a mão pelos cabelos. Embora sublinhe o abismo entre perspectivas de género, nunca lhes diz como é que se devem ou não vestir.

Neste jogo narrativo, a narradora não é a autora, mas também não parece deixar de a ser. Há claramente aspectos em que se fundem. E este é um deles. Numa entrevista que deu ao semanário Sol, Julieta Monginho declarou: “Eu, como feminista, repugna-me qualquer traço cultural, aqui ou lá fora, que discrimine a mulher ou que a force a fazer alguma coisa que não quer. Mas assim como acho que ninguém deve ser forçado a usar o hijab, também acho que ninguém deve ser proibido de o usar. Estou com as mulheres iranianas muito corajosas que fazem do cabelo descoberto uma luta. E estou contra aqueles que na Europa querem proibir que as mulheres possam ir de burquíni para a água. Basta de aborrecerem as mulheres pelo que decidem vestir.”

Um Muro a Meio do Caminho não diz o que cada um deve pensar. A autora acredita numa literatura que “serve para interrogar” e é essa literatura que pratica. Este livro é uma oportunidade para alargar o olhar sobre uma realidade cada vez menos presente nos noticiários, para a decifrar. É, por isso mesmo, um livro urgente.

Tive o privilégio de apresentar este livro no Porto. Agora que é Verão, aproveito este espaço de opinião para sugestão de leitura. Não há tantos escritores quanto isso a assumir o risco de pensar o tempo presente. Menos ainda desta forma.