Em Roma, come romano

A comida é um elemento essencial em viagens. É uma forma de conhecer a vida local. E nos últimos anos nasceram diversas empresas que vendem experiências gastronómicas com pessoas anónimas.

Mercado de pulgas, fornecedor
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Londres é uma das 115 cidades em que se pode visitar um mercado antes de comer em casa de anfitriões da Traveling Spoon DR

É dos que sonham em visitar Goa, mas aprender a cozinhar pratos locais? Imagina-se a estar em Bali a degustar pepes ikan (atum em folhas de bananeira), depois de aprender como se faz? Quer aprender a preparar okonomiyaki no Japão? Apetece-lhe desvendar os segredos do bife à borgonhesa (boeuf bourguignon) em Paris? Ou de uma pasta toscana em Florença?

Um dos “mantras” do turista moderno resume-se em duas palavras: comer local. A ideia em si nada tem de moderno — Santo Ambrósio aconselhava “em Roma, sê romano”, há mais de 1600 anos. Mas a facilidade com que se viaja hoje nem sempre se traduz numa experiência autêntica em termos de alimentação. Foi exactamente essa dificuldade que levou Stephanie Lawrence e Aashi Vel a criar a Traveling Spoon, uma das muitas empresas recentes que vendem experiências culinárias em viagem através da Internet.

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O mercado asiático é o mais forte em termos de oferta e procura na Traveling Spoon DR

Tal como outros concorrentes (EatWith, MealSharing, WithLocals ou mesmo a Airbnb Experiences), a proposta da Traveling Spoon é aproximar o viajante das tradições nos locais que visita.

A empresa nasceu em 2013 a partir de um descontentamento pessoal que ambas as fundadoras sentiram. Enquanto na China, Steph não encontrou quem lhe ensinasse a cozinhar dumplings (bolinhos de massa); ao passo que no México, Aashi viu-se grega para encontrar comida mexicana nos roteiros habitualmente recomendados aos turistas. “Estava na China com a família, a viagem foi ok, mas não se comeu assim tão bem”, recorda Stephanie. Isto foi em 2007 — estrelas como o Airbnb ainda nem sequer existiam.

Formada em Desenvolvimento Internacional e Gestão (trabalhou com micro-crédito em mercados emergentes), Steph decidiu que tinha de regressar à China. E por lá abancou seis meses. Aprendeu mandarim, para conseguir chegar às cozinhas caseiras. Mas não foi fácil. Surgiu aí o ponto de partida para este negócio, ou como diz Stephanie, a ideia que foi transformada na missão da Traveling Spoon: “Dar sentido às viagens, através de uma experiência imersiva nas tradições gastronómicas.”

No essencial, a Traveling Spoon é uma plataforma de cozinheiros (ou anfitriões) — actualmente são cerca de 1000, espalhados por 115 cidades em 45 países. Podem ser profissionais ou amadores — mais de 80% são mulheres, contrariando assim a paisagem mediática da gastronomia, que parece povoada sobretudo por homens.

Para um turista, trata-se de poder reservar um anfitrião para comer em casa dele (1h-2h), ter uma aula de culinária (3h-4h) ou ir acompanhado às compras ao mercado local (1h-2h). Há anfitriões que vendem todas estas experiências, há quem venda apenas uma ou duas delas. O viajante, por seu lado, escolhe qual ou quais pretende ter. O preço (fixado por cada anfitrião, que pagará entre 15% e 32% de comissão à plataforma) pode ir dos 15 dólares aos 200 (18,80€ aos 170,60€), dependendo do local ou tipo de experiência. Uma coisa é garantida: o turista não é enfiado num grupo de desconhecidos.

A empresa começou recentemente a explorar o mercado português. “Portugal é um país muito popular e bastante requisitado”, justifica Stephanie. Na Europa, destinos como França (Paris), Itália (Florença) ou Grécia (ilhas) são campeões de vendas, Islândia e Geórgia exercem muita atracção, mas ainda longe da popularidade do mercado asiático, onde tudo começou e onde Japão e Bali são as jóias da coroa em termos de procura e oferta.

Comer na casa de um desconhecido é uma aventura com alguma dose de risco. Até porque qualquer pessoa pode pedir para ser um anfitrião. Mas neste mercado todos apostam na curadoria, isto é, na selecção. No caso da Traveling Spoon — que neste momento só tem duas anfitriãs em Portugal (uma em Lisboa e outra em Evoramonte) — é preciso passar por entrevistas, visitas, testes à comida, comprovar conhecimentos de línguas e garantir um histórico de críticas positivas. Igualmente relevante: a personalidade. “Queremos pessoas dedicadas. A qualidade da comida é importante, precisamos de perceber se moram num bairro seguro, mas a personalidade é um dos critérios fundamentais”, anota Stephanie.