A OKNA fica na Rua da Igreja de Cedofeita, no Porto.
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A OKNA fica na Rua da Igreja de Cedofeita, no Porto. DR

Um português e um romeno abriram uma OKNA para a Europa de Leste

Uma OKNA — que é como quem diz uma janela — e um festival de cinema podem ser os primeiros passos para aproximar Portugal e a Europa de Leste. André e Radu partilham a vontade de quebrar barreiras entre as culturas e criaram um espaço dedicado ao multiculturalismo.

Na Rua da Igreja de Cedofeita, no Porto, há uma janela que dá para a Europa de Leste: passa despercebida a quem não a conhece, mas um olhar mais atento vai encontrar, na porta 27, um espaço que junta pessoas portuguesas e do Leste da Europa. OKNA é como se chama e foi criada por André Lameiras — português — e Radu Sticlea — romeno. Os dois são o espelho daquilo que querem que o espaço seja: partilha, cooperação, aproximação e amizade entre povos.

Basta passar pela porta para perceber que este é um local diferente: não é um café, não há um balcão nem produtos expostos. Mas há mesas espalhadas, onde pessoas trabalham. Numa segunda sala, há uma exposição de fotografia e, só depois, um escritório onde André e Radu preparam o BEAST - International Film Festival (já lá vamos) e recebem o P3.

Mas, então, o que é a OKNA? É um espaço livre, que recebe todos aqueles que procuram um local para trabalhar e nasce dessa mesma necessidade. “Quando estávamos em casa, não tínhamos um sítio para nos sentarmos a trabalhar e a opção era sempre ir para um café. O objectivo é que as pessoas possam vir aqui e estar a trabalhar à vontade. Não pedimos nada a ninguém”, explica André, co-fundador do espaço. “Okna significa janela na maior parte das línguas eslavas” e é precisamente isso que esta OKNA é: “uma janela para a Europa de Leste, mas também a janela da comunidade”.

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Além de ser um espaço de trabalho, é também (multi)cultural. Neste momento, a exposição em destaque é de um fotógrafo e realizador romeno que esteve em Portugal durante um ano — ao abrigo do programa Corpo Europeu de Solidariedade — e fotografou o Porto durante a noite e em noites de nevoeiro. Mas este não é caso único. “Antes desta, tivemos uma exposição de uma artista portuguesa que expôs sobre Tchernobil. Temos muitas combinações destas”, refere Radu.

Para Radu, ser “o único ponto de relação” entre Portugal e a Europa de Leste é “uma grande pressão, mas também um grande privilégio”. “Temos muitas pessoas que nos procuram para fazer coisas muito boas e únicas para Portugal”, conta. E este é precisamente um dos motivos que leva um português e um romeno a criar um espaço como a OKNA, aliado à paixão que partilham pelas culturas que representam e que já existia antes de se cruzarem.

Sair e voltar a Portugal

A história tem início quando André Lameiras, na altura estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Porto, se muda para a Polónia ao abrigo do programa Erasmus. Era 2008 e ainda não conhecia Radu, mas foi aí que se deu o ponto de partida. “Comecei a perceber quais as diferenças e semelhanças entre as culturas e cheguei à conclusão de que eram mais as semelhanças."

Radu entra em cena em 2014. Os dois conhecem-se no Porto, estava o jovem romeno também em Erasmus. “Apaixonou-se por Portugal” e, nos últimos 100 dias do programa, decidiu tirar uma foto por dia a um azulejo diferente e colocá-la no Facebook. Terminado o intercâmbio, partem juntos para a Roménia e é por esta altura que a janela se começa a abrir.

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Em 2015, as fotografias dos azulejos portugueses viajam até à Roménia. A iniciativa chega aos ouvidos da Embaixada de Portugal em Bucareste, que convida Radu para expor na capital romena. Simultaneamente, André promove uma série de debates sobre temas fracturantes numa universidade onde leccionou. Um ano depois, os dois regressam a Portugal e procuram trabalho, mas sem sucesso. “Decidimos, então, fazer algum trabalho nosso, mas ainda não sabíamos o quê. Começámos com a ideia de um pequeno ciclo de cinema que promovesse a Europa de Leste, por ser algo que chega facilmente às pessoas, interessante e fácil de ver, ao mesmo tempo que pode derrubar barreiras”, conta André. Do ciclo de cinema nasceu um festival.

Um festival de cinema que aproxima comunidades

O BEAST - International Film Festival aparece assim em 2017 e torna-se o principal projecto da associação criada por Radu e André — a Plus East —, que tem como função “não só mostrar o que se faz na Europa de Leste, mas também juntar a comunidade de Leste com as pessoas do Porto”, explica o português. “Perante o momento que vivemos a nível mundial, este tipo de actividade é muito importante, porque trabalha a comunidade e aproxima as pessoas. Temos também um programa pensado para crianças, que não é pensado apenas para entretenimento, mas também para educar a longo prazo. É este tipo de relação que queremos criar não só com o festival, mas também com a OKNA.”

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A edição de 2018 acontece entre os dias 26 e 30 de Setembro e, depois da Polónia, é a vez de a Ucrânia ocupar o lugar de país homenageado: o festival convida um realizador ucraniano para conhecer Portugal e apresentar uma série de filmes da sua autoria. Há ainda um festival ucraniano de cinema responsável por uma outra selecção de filmes. Do programa constam também workshops e masterclasses relacionados com a Ucrânia ou orientados por ucranianos e com uma secção de competição, onde são exibidos os filmes que concorreram e foram seleccionados.

A novidade desta segunda edição é o Visegrad Film Hub, um programa que aposta numa selecção de filmes proposta por festivais de cinema da Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria. Outro dos destaques, sublinham, é a apresentação de um filme sobre Marina Abramovic.

“Queremos que este seja um festival da comunidade, presente em todo o lado — até em casa das pessoas”, afirma André. Por isso, criaram o espaço Let’s  be  Friends, onde qualquer pessoa se pode inscrever e participar, seja através do alojamento de algum visitante estrangeiro em casa ou de um pedido para tomar um café com um realizador. 

O BEAST vai levar a Europa de Leste ao Cinema Trindade, ao Cinema Passos Manuel, à Biblioteca Municipal Almeida Garrett, à Casa das Artes e, claro, à OKNA. Ainda não há programação nem tabela de preços, mas os organizadores avançam que o passe geral do festival vai ter um custo de 50 euros, com alguns descontos anunciados durante o mês de Agosto nas páginas de Facebook e no site.

Texto editado por Ana Maria Henriques