Celeste Ng e o tempo em que a utopia era possível

Pequenos Fogos em Todo o Lado fala de raça e privilégio num subúrbio quase perfeito. Eram os anos 90 e a época do preconceito parecia estar a chegar ao fim. Foi antes da explosão da Internet e do 11 de Setembro. O livro está a ser adaptado à televisão.

Celeste Ng, Little Fires Everywhere, Tudo que eu nunca te disse
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Kevin Day Photography

Uma cidade nos subúrbio de Cleveland, Ohio, é o cenário do segundo romance de Celeste Ng (o apelido lê-se ing), a filha de imigrantes chineses nascida nos EUA em 1980 que viu o seu nome nos principais suplementos literários americanos e o livro no escaparates e montras das principais livrarias americanas. Pequenos Fogos em Todo o Lado foi uma das sensações de 2017, está traduzido em 30 línguas e põe em confronto duas famílias ficcionais muito diferentes, os Richardsons e os Warren, num lugar bem real: Shaker Heights. “Em Shaker Heighs havia um plano para tudo. Quando a cidade fora criada em 1912 — uma das primeiras comunidades planeadas da nação —, as escolas tinham sido localizadas de forma que todas as crianças pudessem ir a pé para as aulas sem atravessar nenhuma rua principal; as ruas secundárias iam dar a grandes avenidas, com paragens estrategicamente colocadas ao longo da via-férrea para transportar quem trabalhasse no centro de Cleveland. Aliás, o lema da cidade era (...) ‘A maior parte das comunidades limita-se a acontecer; as melhores são planeadas’: a filosofia era a e que tudo podia — e devia — ser planeado e de que, ao fazê-lo, se evitava o inapropriado, o desagradável e o desastroso.” Celeste Ng cresceu nesse lugar.

“Não é uma cidade culturalmente muito interessante, fica no meio do país, mas é um lugar muito bom para se crescer; tem escolas públicas muito boas, e foi por isso que os meus pais decidiram mudar-se para lá. E é conhecida por ser muito bonita, muito arborizada, rica, politicamente muito progressista e racialmente muito diversificada. Quando lá vivi, nos anos 90, a população era quase cinquenta por cento branca e cinquenta por cento negra, o que era muito invulgar”, diz ao Ípsilon a escritora que faz parte de um grupo racial minoritário, tradicionalmente designado de “outros”, onde se incluem os asiáticos. “Quando andava no liceu falava-se muito abertamente sobre raça e preconceito, exclusão, falava-se do perigo do estereótipo, e eu achava que essa discussão acontecia no resto do país, que em todo o lado se falava disso abertamente. Até que cheguei à universidade”, conta, com uma gargalhada a remeter para uma ingenuidade perdida e estabelecendo o paralelo com o momento do romance, os anos 90 num país que acreditava ter resolvido parte dos seus problemas e que o único rimo era o progresso não apenas económico mas também de costumes. “Era uma cidade onde se acreditava que todos os problemas seriam resolvidos. Quis olhar para esse idealismo.”

O romance arranca com uma tragédia e um mistério por resolver. A casa onde vivem os Richardsons arde e a família, constituída por um casal e quatro filhos adolescentes, vê comprometido um futuro planeado. O fogo acontece quando outra família, composta por uma mulher e uma filha pré-adolescente, sai da cidade, que passa a ser mais um lugar num percurso feito de permanências fugazes. É a família Warren a viver em permanente itinerância. O acontecimento é o mote para Celeste Ng ir à génese não apenas da comunidade, mas também à causa do incêndio transformador. Ou seja, é um romance que começa pelo fim de uma utopia. No caso de Shaker Heights, ela foi fundada por um grupo conhecido pelos shakers que se organizaram à volta de um ideal de harmonia. Eles foram embora daquele lugar, mas lugar manteve-os no seu nome, génese de uma sociedade ideal. “Eles queriam ser uma utopia, acreditavam na possibilidade de uma sociedade perfeita. Ou seja, a cidade foi fundada na ideia de que se pode planear a perfeição”, continua Celeste Ng, que justifica desta forma a razão de situar a acção nos anos 90. “Eu conhecia aquele tempo, andava no liceu como os filhos das duas famílias. Mas também sabia que aquelas personagens iriam estar a guardar segredos umas às outras e por isso teria de ser uma era antes do boom da Internet, pré-Facebook, pré-telemóveis, em que era possível esconder coisas do passado. Por outro lado, a memória que tenho desses anos é a de que nos Estados Unidos achávamos que estava quase tudo resolvido, que a economia estava bem, a gasolina era barata, uma coisa chamada Internet parecia ser tremenda; tínhamos um presidente liberal, as mulheres estavam a chegar ao poder, estávamos a resolver problemas raciais. Ou seja, tudo estava a ficar melhor. E era o tempo pré-11 de Setembro. Havia um sentimento de complacência. Claro que olhando para trás sabemos que não era verdade.”

E há o paralelo entre achar que tudo está resolvido e a família pretensamente ideal do livro, os Richardsons, que também acha que tem tudo sob controlo. “Mas pouco depois vem o escândalo Monica Lewinsky que mostra que o presidente não era quem pensávamos que era, e aconteceu o 11 de Setembro e rebentou a bolha de pensarmos que sabíamos tudo.” Na ficção há isso e o incêndio que desencadeia rupturas e o fim de uma perfeição que não existia. “O romance começou com os Richardson. Sabia que queria escrever sobre Shaker Heights e tentei imaginar uma família que encarnasse essa comunidade, uma espécie de ‘e se Shaker Heights fosse uma família?’ E depois pensei em quem poderia ter contacto com eles e virasse aquele mundo de pernas para o ar. Teria de ser uma família com outras percurso, uma família que deixa os Richardson confusos e intrigados. Depois foi deixar que entrassem em conflito.”

E tudo parece acontecer com a cadência e o formato próximo de uma série de televisão. O mistério vai-se adensando, com as personagens a revelaram fragilidades pessoais, uma intimidade em que o leitor vai penetrando até se sentir cúmplice, parte da trama que Celeste mostra de modo eficaz. “Não tinha pesando nessa estrutura de série de televisão, mas faz sentido. Pensei antes que quando começo a ler um livro gosto de me sentir implicada no que está a acontecer, sentir que alguma coisa está a acontecer e essa coisa irá representar grande mudança nas personagens. Como autora, quero que esse percurso também seja interessante para mim e quero levar o leitor comigo nessa descoberta.”

À eficácia narrativa junta-se a pertinência política. Escreve sobre raça e privilégio no passado e o que ecoa é o presente em que o livro é publicado. “São os temas a que volto sempre na minha escrita porque são coisas em que penso muito na minha vida. Ser uma americana não branca, ser uma mulher e ser mãe faz-me pensar bastante no modo como o mundo está moldado, faz-me pensar em como será o futuro do meu filho que tem sete anos e é bi-racial. E lidar com raça, em especial na actual atmosfera política, afecta todos os aspectos da minha vida. Nunca me sento com a ideia de que vou escrever um livro sobre mães e sobre raça, mas é o mundo em que vivo e por isso também é o mundo em que vivem as minhas personagens e os assuntos com que lidam vêm desse mundo. Neste momento penso que não é possível ser escritor sem se ser político. Sou mulher, não branca, sou mãe, sou filha de imigrantes; toda a minha existência é política.”