As bandeiras de Jessie J e Katy Perry na despedida

As cores de Portugal e as cores do arco-íris dominaram a paisagem entre o público e no palco na derradeira noite da edição 2018 do festival. Era impossível escapar à música e ao futebol. Em 2020, haverá nova edição.

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Portugal
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Ivete Sangalo, Concerto, Rock in Rio Lisboa
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Ao longo da tarde de sábado, no Rock in Rio podia-se ver pessoas a tirarem selfies, um número de dança da versão musical da Broadway de O Rei Leão, um Homem-Aranha, uma Marilyn Monroe e um Eduardo Mãos de Tesoura a verem o jogo Uruguai-Portugal, bem como filas para todo o lado, fosse para andar na roda gigante ou para ter brindes da marca de chinelos Havaianas.

No palco Music Valley, Carlão acabava a actuação, que trouxe Slow J ao palco, com Dialectos de ternura, dos finados Da Weasel, e um cheiro a Pony, clássico dos anos 90 do cantor de r&b Ginuwine. Pouco tempo depois, no palco EDP Rock Street, para pouca gente, havia Ivete Sangalo, com poeira, Daniela Mercury e tudo o resto. No Palco Mundo, ao mesmo tempo, com resquícios auditivos que chegavam àquela zona, Paulo Flores apresentava Poema do semba – “De Angola, para quem não conhece o semba” – e punha as poucas pessoas que estavam a vê-lo, a ele e à sua banda pan-africana – com o inesgotável animal de palco guineense Manecas Costa na guitarra –, a dançar (e admoestava aqueles que não dançavam, pedindo para tirarem o pé do chão).

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A passar um pouco atrás do núcleo duro do público, um grupo de pessoas cantava Mariquinha, anda comigo para a Angola, um tema de Bonga, compatriota de Flores, também dado ao samba e que tinha actuado no mesmo palco uma semana antes. Nessa plateia escassa, membros de Batuk, o trio sul-africano e moçambicano que actuou antes, viam atentamente, impressionados e felizes, o concerto, algo referenciado pelo próprio Flores no fim.

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Imediatamente a seguir, o jogo que levou à alteração dos horários do dia – e à eliminação de Portugal do Mundial 2018 –, ao qual era difícil escapar. Ainda havia filas para as atracções, continuavam abertos sítios de parkour, escalada e pelo menos um pequeno palco com música, mas o futebol estava em todo o lado. De palco em palco, praticamente todos os ecrãs do recinto eram dedicados à bola. E, mesmo que se estivesse longe do alcance do que os comentadores proferiam na televisão, ouvia-se sempre a reacção do público a cada golo ou equívoco.

No intervalo, Revenge of the ‘90s no Palco Mundo, com mais Rei Leão, Follow the Leader, bolas de futebol no público, saudade dos anos 90 e celebração dos 25 anos da SIC. O apresentador chama à cena “caras da SIC” e pede ao “DJ SIC” para passar tanto o tema do genérico de Big Show SIC, com Macaco Adriano e tudo, e o hino da SIC.

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A derrota de Portugal foi referenciada pelas duas cantoras que depois actuaram no Palco Mundo. A britânica Jessie J entrou (e, no fim, saiu) embrulhada na bandeira portuguesa, com um coração no fundo do palco. Sem perder tempo, enquanto canta Do it  like a Dude, desce logo até ao corredor que há no meio do público e apresenta a banda logo ao início, com um pouco de solos e tudo. Há Play, do recente R.O.S.E., lançado no final de Maio, que "sampla" o clássico disco-sound Got to be real, de Cheryl Lynn, e faz dançar – não que soe mal no geral, mas a potente banda dela não volta a soar tão bem o resto da noite. Mas a toada geral é de baladas de aceitação e ultrapassagem de depressão, com direito a discursos emocionados da intérprete, que refere que a passagem pelo Rock in Rio Lisboa em 2015 foi uma das suas actuações favoritas. “Vou tentar estabelecer contacto com os olhos com toda a gente aqui”, afirma Jessie, depois de notar que há mais pessoas no público do que aquelas de que estava à espera.

Cabeças de cartaz brancos, coros negros

A meio de Nobody’s perfect, introduzida com “sei que acabaram de perder um jogo de futebol muito importante”, alguém no público sugere que a cantora é perfeita. Ela rapidamente nega: “A Jessie J não é perfeita”. Nessa canção, as vocalistas do coro brilham – tanto na sexta-feira, com The Killers, e nesta noite, com Jessie J e a intérprete que se lhe seguiu (Katy Perry), os coros do palco principal foram feitos por mulheres negras, além de haver bastantes músicos negros em palco. Mas não houve cabeças-de-cartaz negros.

Antes de Easy on me, Jessie fala sobre os problemas de coração de que sofre, e da família. O guitarrista brasileiro dela, Mateus Asato, ensina-a a dizer “eu te amo” em português, antes de Stand up, que passa para Who  you are, com uma introdução sobre como as pessoas lhe agradecem por essa canção lhes ter salvado a vida. Porém, ela reitera que foi só a banda sonora – elas é que se salvaram a elas próprias.

A intérprete sai do palco para deixar Luke James (cantor de r&b norte-americano que ela descreve como o melhor amigo dela) interpretar um tema a solo – mais tarde fazem um dueto –, e ela volta com nova roupa para Mamma knows best, em honra de todos os pais no público. Bang Bang, a canção que partilha com Nicki Minaj e Ariana Grande, ouve-se a seguir. Não quer, garante, ir-se embora, mas quer ver Katy Perry com o público. “Fui a Jessie J, sou a Jessie J a maior parte do tempo”, declara antes de se despedir com Price tag.

"Vou dar-vos tudo"

Faltam oito minutos para as 23h00, hora marcada para Katy Perry, e o sistema de som vai tocando The Smiths, Bobby Brown, Michael Jackson, Prince e Mr. C The Slide Man. Há um olho gigante em palco, dividido por três ecrãs. O concerto teima em não começar, mas o olho lá acaba por ficar vermelho. Sob um manto de fumo e com palavras a apelar à liberdade, surge no palco Katy Perry, de cabelo curto e descolorado – “se estão a perguntar-se quando é que a Katy Perry vai actuar, eu sou a Katy Perry com uma porra de um penteado”, assegura ela lá mais para a frente –, vestido dourado e óculos de sol. No fundo, imagens do universo.

Witness, que saiu há um ano, é o mote para o espectáculo, o último da digressão europeia, diz a cantora perto do fim. “Obrigado por terem passado o dia inteiro à nossa espera. Vou dar-vos tudo. Estão prontos para lançar os dados?”, pergunta antes de cantar Roulette.

A toada, tanto visual quanto musical, é toda dos anos 80 – não é à toa que Perry tem o seu quê de Max Headroom, o apresentador de televisão futurista dessa década, algo para que as imagens no ecrã acabam por remeter –, com synth-pop e new wave. Em cima do palco, uma produção impressionante, com dados que têm dançarinas dentro – ao longo da noite, mudarão de roupa diversas vezes, tal como a cabeça-de-cartaz, com coreografias intricadas. No público, disparam-se confetti com naipes de cartas, a remeter para os jogos da sorte.

Dark horse mantém os anos 80, com o seu quê de Moments in love, de The Art of Noise. Segue-se Chained to the rhythm, que remete para Slave to the rhythm, de Grace Jones. O microfone, dourado como o vestido, não se ouve, mas a máquina está tão bem oleada que Perry continua a cantar. As pessoas começam a assobiar e a gritar. Lá volta o som. Há figuras gigantes com cabeças de televisão em cima do palco.

Teenage dream traz mais uma mudança de roupa, para um fato quadriculado, que depois Katy tira para revelar um top com um ecrã LED em que se lê “hot” e “cold”. Antes de Hot n cold, para a qual pega numa guitarra Flying V cor-de-rosa – há flamingos a condizer no palco e nos ecrãs, porém, a bisneta de um açoriano pergunta ao público como se dizem tais palavras em português, mas fica a achar que é “quiente” e não “quente”...

Para California gurls, Perry traz Left Shark, o dançarino que a acompanhou no espectáculo de intervalo do Super Bowl em 2015. Literalmente, era a pessoa vestida de tubarão que estava à esquerda da cantora e se tornou uma sensação na Internet. Todo o espectáculo parece pensado para proporcionar momentos passíveis de se tornarem virais, uma fonte de memes e GIFs animados.

“Vamos tocar basicamente todas as canções que vocês vieram aqui para ver”, promete. “A começar do início”, ou seja, do seu primeiro grande êxito, I kissed a girl. O discurso que a antecede é dedicado ao mês Pride, já que é o último dia de Junho. Outra bandeira em palco a embrulhar uma intérprete: desta feita, a bandeira do arco-íris e do orgulho LGBT. “A próxima canção vai para toda a gente que estava curiosa em 2008, tal como eu”. Na música, já há mais house dos anos 90 e um pouco de anos 2000, com um solo de guitarra hard rock no fim.

Há uma homenagem a Janet Jackson, com um bocado de What have you done for me lately?, uma clara influência para todo o som. Wide awake, uma balada, põe uma guitarra branca nos braços da cantora. Part of me é dedicada a “todas as pessoas revolucionárias” e a “todas as pessoas poderosas” e àquelas a quem roubaram o poder. Antes e durante, imagens do videojogo Pacman, com direito a música e tudo, passam no ecrã – na canção juntam-se a outro jogo, Tetris. Em Swish swish, há uma animação tipo videojogo antigo da cara de Nicki Minaj – Jessie J não foi a única colaboradora da rapper a passar pelo Rock in Rio.

Antes do encore, Roar é precedida por um rugido de leão e começa com um pouco de It’s a hard  knock  life, a canção do musical Annie como samplada em Hard  knock  life (Ghetto  anthem) de Jay-Z. Há bolas com olhos a passar por cima do público.

No fim, foguetes e fogo-de-artifício. Acaba o Rock in Rio Lisboa, a próxima edição é em 2020.