Há gente a mais encarrapitada no Cromeleque dos Almendres

O “Stonehenge português”, que não dispõe de qualquer vigilância, está permanentemente "ocupado" por pessoas que fazem fogueiras junto a um denso e extenso montado e devassam um recinto megalítico que é monumento nacional.

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DANIEL ROCHA

De dia e de noite, ou madrugada dentro, 365 dias por ano, o Cromeleque dos Almendres, no concelho de Évora, passou a ser frequentado por um elevado número de visitantes, alguns dos quais não se inibem de trepar para cima dos monólitos de pedra e eventualmente meditar ou fazer ioga, procurando replicar as práticas usuais no Stonehenge inglês.

Outros há que dançam e tocam naquelas rochas antigas ou recordem lendas antigas, fazendo do Cromeleque dos Almendres um local privilegiado para a gravação de vídeos promocionais, como têm sido feitos por bandas e grupos musicais. Até a própria GNR se rendeu ao encanto do lugar para atribuir medalhas a alguns elementos da corporação.

Mas é necessário pensar na segurança do monumento e das pessoas que o frequentam, observa o arqueólogo António Carlos Silva, ao PÚBLICO, preocupado com o impacto que o mais variado tipo de aproveitamentos está a ter na estrutura do cromeleque.

“O local não tem saída. Há apenas um estradão com quatro quilómetros, muito estreito, em terra batida e esburacado.” Este condicionalismo, realça o arqueólogo, agrava o risco que envolve as constantes fogueiras, num espaço densamente arborizado e frequentado diariamente por centenas de pessoas. “O sítio é muito apelativo e é usado por dezenas de operadores turísticos, autarquias, carros, autocarros e táxis”, enumera António Carlos Silva, inconformado com a “devassa” da propriedade, pois “ninguém cobra o que quer que seja e até os operadores turísticos utilizam o cromeleque de borla”.

O exemplo mais extremo e perigoso verificou-se recentemente, a 29 de Maio, com a realização de um espectáculo no âmbito do festival cultural “Évora África”, promovido pela Casa Cadaval. “Não foram tomadas medidas de segurança ou de prevenção, nomeadamente o parecer prévio da Direcção Regional de Cultura do Alentejo (DRCA) ou a autorização dos próprios proprietários” da herdade onde o monumento está inserido, diz o arqueólogo. O Cromeleque dos Almendres encontra-se no interior de uma propriedade privada.

Mesmo assim, a entidade organizadora, com o apoio da Câmara de Évora, promoveu o “Ritual da Lua Cheia

Máscaras da Lua/Cerimónia Bwaba (Burkina Faso)” no Cromeleque dos Almendres. Os autocarros (disponibilizados pela autarquia) partiam do Palácio Cadaval às 20h30. “Experiência gratuita, não é necessário reservar”, anunciava o cartaz promocional do evento. Porém, houve um inesperado obstáculo que suscitou uma perigosa solução numa zona de mata: “Pensavam que por ser lua cheia teriam a luminosidade necessária, mas como se instalou uma neblina, tiveram de recorrer às tochas”, assinala António Carlos Silva.

Cultura critica evento

“Felizmente, tudo correu bem”, comentou ao PÚBLICO Ana Paula Amendoeira, directora da Direcção Regional de Cultura do Alentejo, tecendo criticas à Casa Cadaval por “não ter solicitado a necessária autorização” para utilizar o local que é monumento nacional. Houve um apoio institucional à iniciativa “ÁfricaÉvora”, mas a directora regional de Cultura do Alentejo desmentiu que neste apoio estivesse implícito ou explícito qualquer anuência ao evento no Cromeleque dos Almendres. “Centenas de pessoas concentradas num espaço classificado impõe acautelar a integridade do monumento” e salvaguardar a área envolvente, lembra Ana Paula Amendoeira.

Carla Rufino, filha do proprietário da Herdade dos Almendres, assumiu ao PÚBLICO o seu desagrado pelo facto de a propriedade, com cerca de 900 hectares, coberta de denso montado, ter sido “devassada” sem qualquer autorização da sua parte ou do seu pai, José Rufino, “sabendo-se que o perigo de incêndios é imenso”, admite. Explicou que a “manutenção e a gestão do espaço competem à Câmara de Évora” e que, para além do terreno onde se encontra o monumento, foi cedida uma área para a instalação de um parque de estacionamento e abertura da estrada de acesso. “Contudo, não podemos aceitar que entrem dentro da nossa propriedade, pondo em risco um bem patrimonial e ambiental que pretendemos preservar para que todos possam dele usufruir, desde que respeitando regras”, acentua.

O vereador da Cultura Eduardo Luciano reconhece que a Câmara de Évora está a seguir “atentamente” a situação do cromeleque, “que, devido ao aumento substancial do turismo, se encontra cada vez mais exposto”. E avança que está em construção na aldeia de Guadalupe “uma estrutura de apoio aos visitantes” e de interpretação do monumento megalítico. Para já, o autarca diz que se mantêm as restrições ao estacionamento junto ao monumento. Neste local têm ocorrido furtos ocasionais às viaturas estacionadas, que o tenente-coronel Paulo Pereira, das relações públicas da GNR de Évora, diz não serem em número preocupante, embora esta força militar mantenha patrulhamentos constantes junto ao Cromeleque dos Almendres.

No entanto, o arqueólogo admite que “as circunstâncias que neste momento se congregam nos Almendres são a receita certa para o desastre”: grande atractividade do espaço, facilidade de acesso a qualquer hora do dia e da noite e ausência de qualquer vigilância. “Estamos perante uma terra de ninguém e ao Deus dará”, critica António Carlos Silva, desagradado pela indefinição que persiste na gestão, manutenção e salvaguarda do monumento datado do fim do sexto milénio a.C e descoberto, em 1964, pelo investigador Henrique Leonor Pina, recentemente falecido.

De forma paulatina mas regular, o recinto megalítico dos Almendres, “outrora um exemplo de tranquilidade e equilíbrio entre a acção humana e a natureza, está a revelar-se um caso complexo de difícil relação entre as suas qualidades intrínsecas e a crescente pressão turística”, sublinha António Carlos Silva. E conclui com uma dúvida: “Inesperadamente, aqueles que se têm interessado pela salvaguarda do monumento e pela sua divulgação e valorização são ingenuamente confrontados com os resultados perversos da própria acção.” O arqueólogo que foi responsável pela gestão dos levantamentos arqueológicos em Alqueva admite a necessidade “imperiosa de precaver e instalar filtros” que minimizem os inevitáveis impactos decorrentes da “intensiva e sistemática presença humana”.

Mas, para tanto, haverá primeiro que resolver a questão de fundo: “Quem de facto gere o Cromeleque dos Almendres?”