Crónica

Palavras, expressões e algumas irritações: invisível

“Que não se vê.” Pensamentos, sentimentos, dores e alegrias nem sempre têm tradução visível. Como é que se pode “revelar” a indignação que se sente ao saber de crianças mantidas em gaiolas? Se o seu choro permite “mostrar” uma parte do que estão a sentir, outra “escapará à vista” por muito tempo. Todo o tempo.

Do latim invisibile. “Que não se vê” ou “que não se pode ver” são duas das descrições que o dicionário nos oferece para a palavra “invisível”. Vivemos rodeados de coisas que “não são evidentes, que escapam à observação e à atenção das pessoas”.

Pensamentos, sentimentos, dores e alegrias nem sempre têm tradução visível. Como é que se pode “revelar” a indignação que se sente ao saber de crianças mantidas em gaiolas e medicadas contra a sua vontade e sem o consentimento dos pais? Se o seu choro permite “mostrar” uma parte do que estão a sentir, outra “escapará à vista” por muito tempo. Todo o tempo.

A “invisibilidade” de algo pode decorrer de uma intenção — “que se esconde ou não aparece” —, mas também da sua “pequenez”, “posição”, “distância” ou “natureza”. E queremos falar de “trabalho invisível”. Aquele que, sendo “imperceptível”, faz com que tudo funcione. Só se dá por ele quando falha.

Por isso foi mais que justo o protesto dos trabalhadores (sobretudo trabalhadoras) da limpeza na sexta-feira em Lisboa. “Foram para a rua exigir melhores condições. Greve foi preparada durante anos pelo sindicato. Duas empresas já foram obrigadas pelo tribunal a pagar 500 mil euros por incumprimento de contrato colectivo”, noticiou-se.

No Brasil, “invisível”, enquanto substantivo, significa “grampinho finíssimo ou linha de rede também muito fina, para prender os cabelos”.

Dentro dos trabalhos invisíveis, há os que são imateriais. Funcionam como catalisadores de outros e dos outros — pela motivação, crítica, aceitação. Não nos deixam cair.

Lucília Santos, adjunta da direcção do PÚBLICO, cumpria-os muito bem. E com alegria.

A rubrica Palavras, expressões e algumas irritações encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO