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Fazer tatuagens com um sistema imunitário enfraquecido? É melhor não

Estudo revela que pessoas com sistemas imunitários enfraquecidos não devem fazer tatuagens. Uma mulher desenvolveu uma doença crónica após ter sido submetida a um transplante de pulmões e feito uma tatuagem.

Fazer tatuagens com um sistema imunitário enfraquecido pode não ser uma boa combinação, avisam médicos do Reino Unido num artigo científico publicado no BMJ Case Reports

O alerta surge na sequência de uma mulher que decidiu fazer uma tatuagem após ter recebido um transplante de pulmões e desenvolvido uma doença crónica que lhe provocava dores na anca esquerda, joelho e coxa.

Não há provas que evidenciem uma causalidade directa, mas os médicos acreditam que a probabilidade de a doença ter sido causada pela tatuagem é grande: “Apesar de reconhecermos que não há provas suficientes para concluir esse efeito de causalidade, o momento em que a doença despertou e a localização dos sintomas correlaciona-se com a aplicação da tatuagem e não há outros factores identificáveis que possam ter causado a patologia”, escrevem os médicos do Hospital Universitário Queen Elizabeth, em Glasgow, na Escócia. 

A mulher foi submetida a um transplante de pulmões em 2009 e, depois da intervenção cirúrgica, teve de tomar imunossupressores para evitar que o corpo rejeitasse os novos órgãos. Pessoas que tomam este tipo de medicamentos ou que têm fracos sistemas imunitários — onde se enquadram as pessoas com diabetes, por exemplo — devem ter precauções acrescidas quando pretendem ser tatuadas.

No caso desta mulher, que já tinha sido tatuada antes do transplante, os sintomas surgiram logo após a tatuagem ter sido feita. A mulher começou por sentir uma ligeira irritação na pele, o que não é incomum, segundo os mesmos médicos. Mas, nove anos depois, desenvolveu dor no joelho e coxa esquerdos e teve necessidade de começar a ser medicada para as mitigar.

Apesar de, com a medicação, as dores terem atenuado, não desapareceram. Dez meses mais tarde, as dores persistiam e a mulher foi encaminhada para uma clínica de reumatologia, onde realizou vários testes. Todos foram negativos.

Foi uma biópsia ao músculo na coxa que revelou uma miopatia inflamatória (inflamação crónica no músculo), normalmente acompanhada de fraqueza muscular e, em muitos casos, com uma causa desconhecida, sendo que pode aparecer espontaneamente. Neste caso, os médicos acreditam que esteja relacionada com o processo da tatuagem, cujos efeitos poderão ter-se conjugado com o sistema imunitário já comprometido.

A mulher foi submetida a fisioterapia para fortalecer os músculos da coxa e, um ano depois do início dos sintomas, começou a melhorar. A dor, contudo, só cessou totalmente três anos depois.

Não sendo certo que tenha sido a tatuagem a provocar os sintomas, os médicos sublinham que o tipo de tinta utilizada pode causar uma reacção, variável entre ligeira irritação na pele a infecções generalizadas.

Em 2017, um estudo concluiu que as partículas de tinta usada nas tatuagens viajam pelo corpo, chegando até aos gânglios linfáticos — glândulas que pertencem ao sistema imunitário e são responsáveis por “recolher” vírus, bactérias e outros organismos que podem provocar doenças —, o que pode comprometer o sistema imunitário.

Perante as evidências, os médicos sugerem que a regulamentação da indústria das tatuagens seja melhorada, de modo a evitar reacções adversas. William Wilson, um dos co-autores do estudo, disse ao The Guardian que, “nestes casos, as pessoas [com riscos de infecção mais altos] devem pensar cuidadosamente e falar com um médico antes de serem tatuadas”, realçando ainda a necessidade de procurar um tatuador profissional e qualificado, que utilize materiais esterilizados.