Cardeal norte-americano acusado de abuso sexual foi suspenso

O episódio tem "mais de 45 anos" e a vítima tinha 16 anos à data dos acontecimentos. Theodore McCarrick, 87 anos, diz que não se lembra do episódio e que se acha inocente, mas obedece à suspensão decretada pelo Vaticano.

Theodore Edgar McCarrick, Estados Unidos, Arquidiocese Católica Romana de Washington, Cardeal
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O cardeal Theodore McCarrick REUTERS/Max Rossi/Files

O cardeal norte-americano Theodore McCarrick, 87 anos, foi suspenso de exercer o ministério, nesta quarta-feira, devido a uma acusação de abuso sexual a um menor. O episódio terá acontecido há “mais de 45 anos” e foi considerado “credível e substanciado” por uma agência independente. Anteriormente, o mesmo cardeal foi acusado de má conduta sexual contra três adultos.

Theodore McCarrick, antigo arcebispo de Nova Iorque e Washignton, oficialmente reformado, está, desde esta quarta-feira, impedido pelo Vaticano de exercer o ministério. O cardeal ainda viajava pelo mundo enquanto negociador e defensor dos Direitos Humanos. No centro da decisão da Santa Sé estará a acusação de abuso sexual a um adolescente, com 16 anos à data dos acontecimentos.

Foi o cardeal Timothy Dolan, da diocese de Nova Iorque, que recebeu estas acusações com “mais de 45 anos”, revistas de “maneira cuidadosa” à luz da Carta sobre a Protecção de Crianças e Jovens, adoptada em 2002 pelos bispos norte-americanos após o escândalo de pedofilia que envolveu a diocese de Boston. Uma “agência independente” foi encarregada de levar a cabo um “inquérito exaustivo” com resultados transmitidos a uma comissão que julgou as acusações “credíveis e substanciadas”, sublinhou Dolan.

A vítima, agora com 60 anos, só revelou o sucedido por estar protegido pelo Programa Independente de Reconciliação e Compensação. Criado em 2016, este programa está encarregado de rever casos de alegado abuso por membros do clero e compensar as vítimas, contou o advogado de defesa, Patrick Noaker, ao Washignton Post. O caso tornou-se conhecido na quarta-feira, no mesmo dia em que o Vaticano suspendeu o cardeal.

McCarrick afirma, em comunicado, que só tomou conhecimento do caso há “alguns meses” e que “não tem memória nenhuma do abuso”. Ainda assim, aceita a decisão do Vaticano: “Em obediência, aceito a decisão da Santa Sé e não irei exercer nenhum ministério público”. Mas “mantém a sua inocência”, lê-se no documento. Diz-se chocado pelas acusações e entristecido por terem sido julgadas “credíveis e substanciadas”: “Mesmo não tendo antecedentes de abusos, e crendo na minha inocência, estou desolado pelo sofrimento duradouro da pessoa que fez as acusações e pelo escândalo que causaram”.

A arquidiocese de Washington publicou um comunicado onde se confirma estas informações. Acrescentou ainda que McCarrick estava interdito de exercer ministério enquanto esperava por uma “decisão definitiva”. Nem a diocese de Washington nem a de Nova Iorque deram detalhes sobre a queixa que originou esta suspensão.

É pouco provável que McCarrick seja condenado porque a lei do estado de Nova Iorque não permite que as crianças vítimas de abusos sexuais apresentem queixas depois de fazerem 23 anos de idade, explica o Washington Post.

A acusação foi recebida com choque na comunidade de Washignton. É que McCarrick foi um dos impulsionadores das políticas de resposta a crises de abuso sexual na diocese.

Já em Newark, Nova Jérsia, a resposta foi diferente. Joseph Tobi, também ele cardeal, lembrou outros três casos de má conduta sexual com adultos que envolveram McCarrick. Duas dessas acusações resultaram em acordos extra-judiciais, contou o cardeal, sem dar mais detalhes. “A crise de abusos na nossa Igreja é devastadora. Não podemos desfazer o que foi feito, mas devemos continuar a agir com vigilância”, comentou, citado pelo Le Monde.