Câmara vai investir um milhão de euros para ampliar o centro de acolhimento de refugiados

Tem capacidade para acolher entre 24 e 30 pessoas e está sempre lotado. A recuperação dos edifícios vizinhos vai permitir duplicar a capacidade para acolher quem, como Yousif e Taleb, está a aprender a recomeçar.

Janela, Casa, Serviços de Design de Interiores
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O centro abriu em Fevereiro de 2016 dro Daniel Rocha
Janela, fachada
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O centro abriu em Fevereiro de 2016 dro Daniel Rocha
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O centro abriu em Fevereiro de 2016 dro Daniel Rocha

No Centro de Acolhimento Temporário de Refugiados há festa. É Dia Mundial do Refugiado e a casa encheu-se – mais do que o costume – de quem encontrou em Lisboa o mais parecido com uma casa, mas também de quem todos os dias lhes estende os braços para que se sintam nela. 

Cheira a churrasco e a especiarias - os refugiados preparam diversos pratos para o almoço. A reunião serve para assinalar o dia mas também para ver o jogo de Portugal contra Marrocos (que com calafrios pelo meio havia de correr bem). Mas serve, sobretudo, para ouvirem o vereador da Educação e dos Direitos Sociais, que é responsável por criar e executar respostas de acolhimento e integração de refugiados, dizer que Lisboa quer fazer mais para se tornar “um porto de abrigo para estas pessoas”.

Para isso, e até ao final do ano, deverá começar a recuperação dos restantes edifícios deste centro, no Lumiar, para duplicar a sua capacidade. O espaço, que é da Associação de Deficientes das Forças Armadas, foi cedido à autarquia e tem actualmente capacidade para acolher 24 pessoas, ainda que lá caibam mais. 

“A ideia é investirmos um milhão de euros para podermos, reabilitando aqueles edifícios, duplicar a capacidade de acolhimento neste período temporário em que [os refugiados] aqui estão”, explica ao PÚBLICO Ricardo Robles. 

Ali convivem sírios, iraquianos, curdos e yazidis, eritreus e palestinianos. Hoje torcem por Portugal e aplaudem Cristiano Ronaldo, claro está, depois de ter marcado e empurrado a equipa para a vitória. 

E era só mesmo o “melhor do mundo” que Yousif Mohamed conhecia de Portugal. “Só o Cristiano Ronaldo”, confirma o sírio de 22 anos, enquanto nos conta a sua história. 

Nasceu na Síria, numa cidade do norte do país, já próxima da Turquia. Nunca gostou muito da escola, por isso acabou por se fazer costureiro numa fábrica. Há mais ou menos três anos, acabaria por deixar a sua casa porque não queria “ver mais pessoas a morrer”. 

Passou a fronteira para a Turquia, onde esteve apenas quatro meses porque, reconhece, “é difícil ser curdo na Turquia”. Partiu depois para a Grécia, onde esteve por um ano e sete meses num campo de refugiados onde também foi voluntário para ajudar quem, como ele, tinham deixado muito para trás. 

Chegou a Lisboa há um ano. Aprendeu rápido a língua, só com a ajuda dos portugueses que, diz, o têm apoiado muito. “As pessoas gostam de ajudar. É fixe!”, atira o jovem de olhos azuis e corrente ao peito, num português ainda tímido. 

Yousif é uma das 244 (dados de Abril) pessoas refugiadas que o município acolheu desde o início de 2016, no âmbito do Programa Municipal de Acolhimento aos Refugiados (PMAR Lx). É no reforço deste programa que se insere este investimento de um milhão de euros, refere Ricardo Robles. 

Até 2020, o município que acolher 400 pessoas. Segundo o vereador, já terão saído de Lisboa 149 pessoas, mais de metade das que chegaram. “Temos pessoas que abandonam o programa porque há uma necessidade de reagrupamento familiar e algumas já têm familiares noutros países como a Alemanha, a Holanda ou França”, explica. 

Depois de passarem cerca de ano e meio no centro de acolhimento temporário, são depois encaminhadas para casas para que possam ter mais autonomia. Neste momento, 33 pessoas ocupam 20 casas disponibilizadas pela autarquia, mas que não são municipais. A ideia é, portanto, realojar estas pessoas em habitações da câmara. No final de Maio, foi aprovada a criação de uma bolsa de casas municipais para dar resposta às necessidades de alojamento dos refugiados.

Para já, serão disponibilizadas 25 casas, porque, justifica Robles, “não se quer ter pessoas em centros de acolhimento temporário definitivamente". Por agora, Yousif aguarda só que o chamem para começar a trabalhar. Depois quer ter a sua casa e ajudar a família que ficou na Síria. Assim como Taleb Keng, de 30 anos, que também não quer ficar ali para sempre. 

Para isso, quer aprender a falar português “muito bem” e voltar a universidade para poder validar o seu diploma em engenharia agrícola. Taleb saiu de Idlib sem olhar para trás, confessa. Dali, percorreu os mesmos destinos que Yousif. Da Síria para a Turquia e dali para a Grécia. E depois Portugal, com um salto pela Bélgica, mas com paragem final em Lisboa. 

A família foi toda embora da Síria. Em Idlib, morreu-lhe uma filha pela falta de cuidados médicos. Depois, já na Turquia, deixou a mulher, os pais, os irmãos, os tios e os sobrinhos. Sabe de cor e precisamente há quanto tempo não os vê: dois anos e três meses. As saudades, essas, matam-se por uma chamada no Whatsapp

Enquanto o reencontro não acontece, Taleb espera começar a trabalhar dentro de poucas semanas para, daqui a uns meses, ter a sua casa. Em Lisboa. Voltar à Síria? “Nunca mais”. 

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