Opinião

Separar as crianças dos pais na fronteira “parte-me o coração”

Em 2018, não podemos, como nação, encontrar uma resposta mais gentil, mais humana e moral para a actual crise? Eu acredito que podemos.

No domingo, um dia em que nós, como país, nos dedicamos a honrar os pais e os laços familiares,  estava entre os milhões de americanos que viram as imagens de crianças que foram separadas dos seus pais.

Nas seis semanas entre 19 de Abril e 31 de Maio, o Departamento de Segurança Interna enviou quase 2000 crianças para centros de detenção de massa e de acolhimento familiar. Mais de 100 dessas crianças tinham menos de quatro anos. A razão destas separações é a política de tolerância zero para os seus pais, que são acusados de atravessar ilegalmente a nossa fronteira.

Eu vivo num estado fronteiriço [o Texas]. E aprecio a necessidade de reforçar e proteger as nossas fronteiras internacionais, mas esta política de tolerância zero é cruel. É imoral. E parte o meu coração.

O nosso governo não deveria estar no negócio de armazenar crianças em armazéns convertidos nem a fazer planos para as pôr em cidades de tendas no deserto perto de El Paso. Essas imagens lembram assustadoramente os campos de internamento americano-nipónicos da II Guerra Mundial, agora considerados como um dos episódios mais vergonhosos da História dos EUA. Sabemos também que este tratamento inflige trauma; os japoneses internados tiveram duas vezes mais probabilidades de sofrer doenças cardiovasculares ou de morrer prematuramente em comparação com aqueles que não foram internados.

Os americanos orgulham-se de serem uma nação moral, de serem uma nação que envia alívio humanitário para locais devastados por desastres naturais, fome ou guerra. Orgulhamo-nos por acreditarmos que as pessoas devem ser avaliadas pelo conteúdo do seu carácter, não pela cor da sua pele. Orgulhamo-nos pela aceitação.

Se somos verdadeiramente esse país, então é a nossa obrigação reunir aquelas crianças detidas com os seus pais – e parar de separar pais e filhos.

Pessoas de todos os lados concordam que o nosso sistema de imigração não funciona, mas a injustiça da tolerância zero não é a resposta. Eu saí de Washington há quase uma década, mas sei que há pessoas boas em todos os níveis de governo que podem fazer o melhor para corrigir isto.

Recentemente, Colleen Kraft, que dirige a Academia Americana de Pediatria, visitou um abrigo gerido pelo Gabinete de Realojamento de Refugiados dos EUA. Ela relata que apesar de haver camas, brinquedos, lápis de cera, um recreio e troca de fraldas, as pessoas que trabalhavam no abrigo estavam instruídas a não pegar ou tocar nas crianças para as confortar. Imagine não poder pegar numa criança que ainda está de fraldas.

Há 29 anos, a minha sogra, Barbara Bush, visitou a Grandma’s House, uma casa para crianças com HIV em Washington. Na época, no auge da crise do HIV, a doença era uma sentença de morte e a maioria dos bebés nascidos com a doença era consideradas “intocáveis”. Durante a sua visita, Barbara – que era primeira-dama na altura – pegou num bebé agonizante e moribundo chamado Donovan e aconchegou-o no seu ombro para o acalmar. A minha sogra nunca viu o seu abraço àquela frágil criança como um acto corajoso. Viu-o apenas como a coisa certa a fazer num mundo que pode ser arbitrário, indelicado e até cruel. Ela, que sabia o que era perder um filho - após a morte da sua filha de três anos -, acreditava que todas as crianças são merecedoras da bondade humana, compaixão e amor.

Em 2018, não podemos como nação encontrar uma resposta mais gentil, mais humana e moral para a actual crise? Eu acredito que podemos.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post