Fundadora da Theranos arrisca 20 anos de cadeia

A justiça norte-americana concluiu que o supostamente revolucionário dispositivo de testes sanguíneos comercializado pela Theranos não era nem mais rápido nem mais seguro do que outros, tal como era publicitado, e que a fundadora sabia disso, defraudando médicos, doentes e investidores.

John Carreyrou
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REUTERS/Mike Blake

Elizabeth Holmes, fundadora da empresa de análises clínicas Theranos, e Ramesh Balwani, director de operações da mesma empresa, foram formalmente acusados na sexta-feira de defraudar investidores, pacientes e médicos. O Departamento de Justiça concluiu que Holmes e Balwani terão falsificado informação para convencer potenciais investidores e clientes da sua empresa que a tecnologia de análise de sangue oferecida pela Theranos era inovadora e revolucionária — algo que se revelou falso.

Também na sexta-feira, Holmes foi oficialmente afastada da presidência executiva da empresa que fundou, segundo um comunicado publicado pela Theranos pouco antes de a acusação ser revelada. David Taylor é apontado como sucessor.

Ao todo, são 11 as acusações que recaem sobre Holmes e Balwani: nove de fraude e duas de associação criminosa. Se forem declarados culpados, arriscam penas de prisão de até 20 anos.

As provas recolhidas pela justiça federal indicam que os dois difundiram informação falsa através de campanhas de marketing, entrevistas concedidas à imprensa e de prospectos e relatórios financeiros fraudulentos, sabendo de antemão que o produto que vendiam não funcionava tão bem como fora previsto e anunciado. A empresa alegava que o dispositivo Edison podia diagnosticar um conjunto de 30 doenças, incluindo patologias oncológicas, com apenas umas gotas de sangue e não com uma colheita completa, com resultados em tempo recorde. Afirmava ainda que o dispositivo permitia medir os níveis de colesterol. O teste foi vendido a consumidores através das farmácias Wallgreen, principal parceiro, e clínicas médicas nos estados norte-americanos do Arizona e da Califórnia.

“Holmes e Balwani sabiam que as análises da Theranos tinham problemas de precisão e fiabilidade, que apenas podiam realizar um número limitado de testes, que eram mais lentas do que alguns serviços concorrentes e não conseguiam competir com máquinas de análise convencionais, maiores e de alta produtividade, ou processar testes de sangue a um grande número de pacientes”, lê-se no documento da acusação.

Aos investidores, a Theranos foi apresentada como uma empresa “forte e estável” que geraria “mais de 100 milhões” em receitas em 2014” e “mil milhões em receitas em 2015” quando, na verdade, a dupla sabia que “Theranos geraria apenas receitas modestas, na ordem das poucas centenas de dólares, em 2014 e 2015”, lê-se no processo.

Defraudando os investidores, a empresa conseguiu angariar milhões de dólares. Um dos lesados terá investido quase 100 milhões de dólares, numa única tranche, em Outubro de 2014, numa companhia financeiramente inviável.

As autoridades federais encontraram provas de que “muitas centenas de pacientes pagavam, ou faziam as suas seguradoras médicas pagar” por exames de sangue que eram publicitados como seguros e precisos. Mais grave ainda, os investigadores concluiram que o sistema Edison apresentava falhas gravas em “algumas análises ao sangue, incluindo ao cálcio, cloreto, potássio, bicarboneto, HIV, Hba1C, hCG e sódio”, indicando falsos resultados.

“Esta fraude enganou médicos e pacientes acerca da fiabilidade destes testes médicos, o que coloca vidas em perigo”, disse o agente especial do FBI John F. Bennett, responsável pelo caso, citado pelo Washington Post.

A ascensão e queda da Theranos

Holmes conseguiu angariar milhões de dólares com uma promessa: a de uma abordagem disruptiva à Medicina e às análises clínicas, que se queriam rápidas e baratas. Aos 30 e poucos anos, era uma das mais jovens e mediáticas milionárias do sector tecnológico norte-americano.

Essas promessas começaram a levantar dúvidas. Primeiro, foi uma investigação do Wall Street Journal, de 2016, que começou a levantar o véu sobre a empresa. Ouvidos pelo diário norte-americano, vários antigos funcionários da empresa relatavam que os testes apresentados tinham sido falsificados: eram utilizados dispositivos comercializados por competidores (e não o suposto Edison). A empresa acabou por ser proibida de conduzir análises clínicas pela autoridade do medicamento e da segurança alimentar norte-americana (a FDA).

Mas antes de se começar a questionar se a tecnologia vendida era mesmo verdadeira, Holmes, agora com 34 anos, era apontada como a “próxima Steve Jobs” de Silicon Valley. Em 2014, a revista Forbes avaliava a sua fortuna pessoal em 4,5 milhões de dólares e colocava-a entre as 400 pessoas mais ricas dos EUA. Tudo por causa da empresa que fundara anos antes, em 2003, com apenas 19 anos. 

Em 2016, já após a reportagem, a fortuna de Holmes caía para zero na lista da Forbes. Ao início, a empresa tentou defender-se das acusações, mas acabou por dar-se como vencida e encerrou os seus laboratórios. No mesmo ano, Holmes foi proibida de gerir centros de análises e enfrentou um processo da cadeia de farmácias Walgreens, que pediu uma indemnização no valor de 140 milhões de dólares.

Em Março, Elizabeth Holmes foi formalmente acusada de defraudar investidores em 700 milhões de dólares pela Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla inglesa) determinou o seu afastamento da direcção da empresa durante dez anos e o pagamento de uma multa de 500 mil dólares. Holmes aceitou formalmente a acusação, obrigando-se ao cumprimento da pena, mas sem declarar culpa ou inocência.

Sobre a nova acusação, que parte do Departamento de Justiça e acarreta a possibilidade de uma condenação a 20 anos de cadeia, a fundadora declara-se inocente, mas não teceu mais comentários. Já o advogado de Balwani, Jeffrey Coopersmith, escreveu um comunicado onde afirma que o seu cliente não defraudou investidores nem consumidores: “Tudo o que Balwani fez foi colocar a alma e coração, e milhões de dólares do seu dinheiro, numa alteração do paradigma dos cuidados de saúde, dando às pessoas acesso a um teste sanguíneo barato e efectivo, para poderem encarregar-se da própria saúde e monitorizar sinais de doença".

"Balwani aguarda julgamento porque não defraudou ninguém, e será uma honra defendê-lo", acrescenta.