Opinião

Só a própria pessoa pode ensinar a beber destilados velhos e bons

À medida que o rum arrefece vai perdendo defeitos mas também perde qualidades. O máximo prazer vem quando a temperatura e a diluição ideais se cruzam.

Bebida destilada
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Alexandre Meneghini

Cada bebida tem os seus preconceitos. Numa ânsia de chegar a novos consumidores, as marcas têm feito tudo para ultrapassar esses preconceitos, levando-nos a pensar que tanto faz como se bebe um destilado.

Há destilados que são bons de mais para misturar com tudo o que não seja água — e muito pouca. É do método de bebê-los que vou falar hoje.

Só os melhores runs envelhecidos merecem ser saboreados lentamente como um whisky de malte ou um conhaque velho.

Esta semana provei o Havana Club de 7 anos (cerca de 25 euros), o Havana Club Seleccion de Maestros (45 euros) e o rum Barbados Plantation 20th Anniversary (40 euros). Só um deles passou nos testes todos.

A maneira de prová-los aplica-se com proveito a todos os destilados. Em primeiro lugar, num copo de prova como o Glencairn, cheiro e provo tal qual sai da garrafa. Com bebidas mais velhas — sobretudo os runs — ganha-se em esperar 10 ou 15 minutos.

Se o rum me souber muito bem já não faço mais nada. Mas isso é raro. Geralmente, o sabor do álcool aquece muito a bebida e impede os sabores de se soltarem.

Acrescento então uma gota de água: só uma meia colherzinha de café. Volto a cheirar e a provar: a bebida ficou instantaneamente mais deliciosa. Mas atenção, que o benefício da água é efémero. Vale a pena usar apenas uma pequena quantidade de destilado para não estragar.

Ponho este copo de lado e vou buscar um copo ligeiramente maior em que caiba uma pedra grande de gelo. O gelo é feito da mesma água mineral que uso para diluir. Para mim as águas mais neutras são Fastio, Caramulo, Luso e Serra da Estrela. É o que uso para fazer chá e café e é o que estou habituado a beber.

Isto é importantíssimo: deve-se usar a água a que se está habituado, porque tem o sabor que não se nota. Quem está habituado a água da torneira deve usar água da torneira para fazer gelo e para diluir. A água tem de passar despercebida — não pode interferir nos sabores do destilado.

Esta maneira de beber — sem água, só com uma pedra grande de gelo — é, aliás, aconselhada pelos mestres do rum. Acontece, porém, que o rum vai-se alterando à medida que o gelo derrete.

Quando o rum pára de melhorar é altura de tirar o gelo. Se tiver piorado um bocadinho, acrescenta-se uma gota do mesmo rum, para recuperar.

Depende de cada pessoa, depende de cada rum e depende da disposição e da hora do dia. À medida que o rum arrefece, vai perdendo defeitos, mas também perde qualidades. O máximo prazer vem quando a temperatura e a diluição ideais se cruzam.

Também uso o método contrário: começo a beber com uma pedra de gelo, deito-a fora quando chega ao auge e depois vou provar a bebida tal qual saiu da garrafa.

Faço o mesmo com conhaques velhos e tequillas velhas. Entre o calor do álcool e a insensibilidade das baixas temperaturas há uma série de trocas e compromissos, de sacrifícios e experiências que precisa de ser avaliada caso por caso.

Com o Havana Club 7 anos tive uma grande desilusão. Mudou muito desde a última vez que provei. Já não consigo bebê-lo sem nada. Tem um sabor forte a tabaco que pede um charuto cubano. Sem charuto tem muito menos graça. É melhor num Old-Fashioned ou, sim, com Coca-Cola.

Em contrapartida, o Havana Club Selección de Maestros é sensacionalmente bom. Não é possível por menos de 50 euros conseguir um conhaque ou um whisky de qualidade parecida. Tem uma riqueza e uma complexidade estonteantes. É feito para se beber sozinho. Como tem 45 graus adequa-se à pedra de gelo, ganhando sabor à medida que o álcool se vai diluindo.

Não gostei do Plantation 20th Anniversary, que parece ser universalmente adorado. Contém excelente rum de Barbados mas sofre de excessiva manipulação. É doce ao ponto de ser xaroposo: é mais um licor de rum. Tem um gosto fortíssimo a coco. Não acredito que venha do carvalho. Suspeito que se tenha adicionado um licor de coco envelhecido. Mas lá está, como licor bebe-se bem. Suponho que daria uma Pina Colada inesquecível mas não tive paciência para comprovar.