A vida a solo de Theresa Wayman

Abrindo as portas para a sua intimidade, a guitarrista e vocalista das Warpaint assina enquanto TT um álbum corajoso à margem da banda. LoveLaws é um objecto solitário – e não apenas no sentido mais imediato.

Theresa Wayman, Warpaint, LoveLaws
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delaram pourabdi

Na mais recente edição do IndieLisboa, a secção IndieMusic acolheu um curioso filme debruçado sobre a banda grunge feminina L7. Pretend We’re Dead, título inspirado na sua canção mais popular, esboçava um retrato da vida na estrada que era tudo menos esplendoroso. Mais do que a música do quarteto, o pretexto de seguir a par e passo a carreira das L7 propunha um olhar duro (a roçar o amargo) daquilo que significa o sucesso numa banda de dimensão média (na melhor das hipóteses). E aquilo que se descobria era o confronto com uma realidade quase deprimente: no pico da sua carreira, cada uma das quatro músicas conseguira auferir a pobre quantia de 500 dólares mensais. Numa fatigante sequência de digressões, que incluíam tanto os grandes festivais quanto os mais esconsos pardieiros, e gravação de novos álbuns, o desfecho revelava-se especialmente acre com Suzy Gardner a questionar-se, aos 40 anos, se teria valido a pena tamanho esforço e ter abdicado de qualquer investimento na sua vida pessoal.

À primeira vista, a história da L7 e das Warpaint será apenas coincidente no facto de ambas dizerem respeito a quartetos de rock compostos por mulheres. Aquilo que havia de energia bruta numas é substituído por uma construção muito mais subtil, exploratória e melódica noutras. Mas o primeiro álbum a solo de Theresa Wayman, vocalista e guitarrista das Warpaint (funções que partilha com Emily Kokal), incide de forma muito aberta sobre a sua intimidade e é impossível não ouvir um eco das palavras de Gardner. É um desabafo em dez canções, uma dorida reflexão das consequências da vida de estrada no reduto afectivo – enquanto mulher: mãe e amante.

“A vida na estrada”, admite Theresa Wayman (que assina TT a solo) ao Ípsilon, “é o traço comum entre todos os temas do álbum. Foi essa a minha experiência durante os últimos sete anos: não ter uma vida estável.” Significa isto que, na mesma altura em que começou a investir na aprendizagem de programas e métodos de gravação que lhe permitissem ir documentado e explorando as suas ideias de forma autónoma, a edição do primeiro álbum das Warpaint, The Fool, obteve um tal reconhecimento que os convites para actuações choveram dos quatro cantos do mundo (com destaque para festivais como Reading e Coachella), a palavra “casa” passou a ter um sentido mais difuso e a pacatez dos primeiros anos do grupo – formado em Los Angeles em 2007 – apagou-se de um dia para o outro.

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Love leaks e I’ve been fine, duas grandes canções de LoveLaws, não mascaram a frustração romântica que é uma das pagas pela medida de sucesso das Warpaint, enquanto banda do universo pop/rock com carimbo indie – ainda que, aqui e ali, como aconteceu recentemente ao tocarem na primeira parte de Harry Styles (ex-One Direction) no Japão, o mainstream possa estar à espreita. Em Love leaks, Wayman canta o fosso que se abre e torna impossível a sobrevivência de uma relação amorosa e repete, uma e outra vez no refrão, “I just got too, I just got too empty”.

“Por vezes, quando andamos em digressão, conhecemos alguém depois de estarmos muito tempo sem um parceiro, sentimos uma ligação, mas se não vivemos no mesmo sítio podemos ter alguns encontros que, por muito que achemos que estamos a construir algo juntos, rapidamente chega o dia da partida e tudo desaba”, descreve. São palavras que aprofundam aquilo que canta, de forma pouco velada, em I’ve been fine: “Why can’t you be next to me?” Se essas possibilidades românticas na estrada se esfumam com os compromissos de cada novo concerto, no regresso a casa Theresa dá prioridade ao tempo com o filho. LoveLaws bate também nesse ponto: como é que se vive um amor incondicional obrigado a uma proximidade física intermitente?

“Decidi escrever sobre tudo isto porque me sentia muito frustrada com a situação”, confessa. “As canções ajudaram-me muito a compreender e a lidar com esta partilha sempre ameaçada pela partida.” Encurralada entre a vida pessoal e a profissional – “quero algo mais estável, mas há uma parte da minha personalidade que gosta muito da adrenalina da estrada e preciso perceber como equilibrar as duas coisas”, diz –, posiciona-se também, num álbum de uma exposição de enorme coragem, contra a projecção de perfeição para o exterior que invade existências alinhadas com as redes sociais. “Hoje em dia parece-me importante que sejamos mais reais, abertos e vulneráveis, porque me parece que as pessoas estão sempre a tentar passar a ideia de que está tudo bem.” E não, não está.

A sombra do trip-hop

Heads Up (2016), terceiro álbum das Warpaint, arrancava com Whiteout, tema que, na origem, estava destinado ao disco a solo de Theresa Wayman. E estava-o apenas porque o principal indicador de que dada composição será mais talhada para a vida artística solitária da música se prende com a forma como assume a criação de uma forma mais total. Se determinada ideia a encontra lançada e se desenvolve logo para além de voz e guitarra, fechando também a secção rítmica, Theresa não costuma passá-la pelo crivo das restantes Warpaint, uma vez que “não deixa espaço para mais ninguém”. White out foi uma excepção, mas revelou-lhe também o quanto o seu universo individual e o colectivo do grupo se confundem cada vez mais – algo que, garante, se tem acentuado ao longo dos anos.

Essa confusão adensou-se, precisamente, com Heads Up, altura em que a sonoridade da banda passou a incorporar mais elementos electrónicos. LoveLaws, na verdade, coloca Theresa Wayman numa rota com destino ao passado, quando o trip-hop e a pop com tendências dançáveis a atingiam com particular intensidade. Cresceu, por isso, a imaginar artistas como Björk a seguirem para estúdio com todas as possibilidades em aberto, controlando cada segundo de música ao mesmo tempo que descobriam as canções conforme as iam registando. Foi também esse o seu impulso para criar a solo. “Há muito que queria fazer algo com o espírito de discos como Post ou Debut, da Björk, Dummy [dos Portishead] ou algo dos Outkast”, oferece como coordenadas.

Sem que se metamorfoseie por completo em artista trip-hop, não há como negar essa sombra em LoveLaws. Ao longo dos dez temas, TT não apressa as suas canções, deixa-as desenrolar-se com todo o vagar do mundo e serve-se da ajuda dos produtores Money Mark e Dan Carey (dois temas cada um) para vincar essa personalidade distinta – ainda que pudéssemos esbarrar em I’ve been fine ou Too sweet num álbum das Warpaint. Mas onde realmente encontramos Theresa Wayman é na honestidade de um disco que nunca se esconde. E respeita a convicção de quanto mais pessoal fosse este álbum, mais a música a poderia representar sem reservas.