Torne-se perito

Matosinhos está a recuperar a paisagem do Vale do Leça

O convite foi lançado em Fevereiro e a população não hesitou em envolver-se na iniciativa que visa contribuir para o restauro ecológico da bacia hidrográfica do rio Leça.

Parque Natural de São Brás
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No novo Viveiro do Leça foram já cultivadas cerca de 4400 plantas. DR

O município de Matosinhos está a dar os primeiros passos na recuperação do valor paisagístico do vale do rio Leça. No final da semana passada foram lançadas à terra duas mil sementes, até ao final do ano a autarquia prevê a plantação de 15 mil árvores e arbustos.

O novo Centro de Recuperação Paisagística do Vale do Leça nasceu da colaboração entre o projecto FUTURO e a Câmara Municipal de Matosinhos, com o objectivo de transformar o Parque Ecológico Monte de São Brás no epicentro da recuperação paisagística do vale do rio que serpenteia 17 quilómetros do concelho.

O projecto abrange quatro componentes, sendo elas o Viveiro do Leça, a capacitação, os campos demonstrativos de reabilitação da paisagem e o arboreto do Leça. Os trabalhos arrancaram em Dezembro do ano passado, após a instalação do novo viveiro. Até ao momento foram já cultivadas cerca de 4400 plantas, entre 18 espécies ribeirinhas, que incluem a zêlha, o bordo, o amieiro, o medronheiro, o lodão, o pilriteiro, a urze branca, o sanguinho-de-água, o freixo, o loureiro, a murta, o azereiro, a gilbardeira, o salgueiro negro, o salgueiro branco, o sabugueiro, a aveleira e o carvalho-alvarinho. A meta é plantar, até ao final do ano, 15 mil árvores e arbustos nativos.

O município conta com o apoio de 26 voluntários de oito concelhos. O convite foi lançado em Fevereiro e a população não hesitou em envolver-se na iniciativa que visa contribuir para o restauro ecológico da bacia hidrográfica do rio Leça. Acompanhados pelos técnicos municipais e pela equipa do projecto FUTURO, os voluntários têm colaborado na propagação de plantas, ao mesmo tempo que adquirem conhecimentos sobre a produção de espécies nativas e os métodos de recuperação da paisagem. Na sessão de quinta-feira, a quarta desde que o projecto foi implementado, foram lançadas à terra cerca de duas mil sementes.

Já a partir de Novembro, as árvores e arbustos produzidos no novo viveiro serão disseminados ao longo do vale do rio Leça. Servirão ainda proprietários privados, mediante um regulamento que a coordenadora do projecto estima estar pronto no início do mesmo mês, de forma a perpetuar as espécies e a aumentar a sua área de produção.

A iniciativa tem ainda um importante papel na formação e partilha de conhecimentos, tanto para técnicos e operacionais como para os residentes. O arboreto do Leça pretende aproveitar alguns exemplares de sobreiros e carvalhos que existem no Parque Ecológico Monte de São Brás, para além da plantação de 40 árvores, para criar um percurso que dê a conhecer a floresta nativa que o município procura recuperar.

Quanto aos campos demonstrativos de reabilitação da paisagem, a intenção é instalar, já a partir de Outubro, quatro campos experimentais com boas práticas de reabilitação da paisagem, através da utilização de técnicas de cultivo e produção altamente inovadoras. Cada campo terá uma área de meio hectare e tem como principal objectivo mostrar à população de que maneira poderá aproveitar a paisagem daquele espaço, tirando partido do cultivo de espécies nativas, conta a coordenadora do projecto, Margarida Bento Pinto.

Com os olhos nos incêndios

Para além de apresentar à população alternativas às culturas dominantes daquela região, estas soluções podem ainda desempenhar um papel fulcral no combate aos incêndios. “O sobreiro ou o medronheiro, por exemplo, são espécies muito resilientes. São espécies que são mais resistentes ao fogo, que evitam a sua propagação e que, por outro lado, quando ardem, têm uma grande capacidade de recuperação. Portanto, estamos a criar as paisagens inteligentes do futuro”, explica a coordenadora do projecto FUTURO, Marta Pinto.

“O objectivo é mostrar aos proprietários privados que há outras alternativas que não só são mais inteligentes do ponto de vista de gestão de território, mas também podem resultar em benefícios económicos concretos”, acrescenta Marta Pinto, também bióloga na Universidade Católica, entidade que dá apoio técnico ao projecto.

Alguns exemplos: associar sobreiros aos cogumelos faz com que o sobreiro cresça de forma mais rápida, mas também com que produza mais bolotas e cortiça. Aliando os dois, ao final de três anos um proprietário consegue produzir 20 quilos de cogumelos. Ao final de dez anos, consegue produzir 600 quilos. “Há claramente um valor que está associado às nossas espécies nativas e que nós estamos a deixar passar ao nosso lado”, comenta a coordenadora do projecto FUTURO.

O caso do medronheiro não é diferente. Se há uns anos o conhecíamos apenas pela aguardente, começam agora a estudar-se outras alternativas. O medronho é rico em vitamina C, antioxidantes e possui uma relação muito equilibrada entre ómega-3 e ómega-6, podendo ser, por exemplo, aproveitado para compotas.

Também as potencialidades do sabugueiro têm vindo a ser subaproveitadas no país. “Portugal foi escolhido pelos holandeses e pelos alemães para ser um fornecedor de bagas de sabugueiro, são exportadas anualmente 1500 toneladas de bagas que vão para os países nórdicos e nós cá não vemos absolutamente nada disto”, nota Marta Pinto. Atendendo ao valor de mercado actual, estima-se que em dez anos os quatro campos tenham uma rentabilidade anual de 15 mil euros.

O vereador da Educação e Ambiente da Câmara de Matosinhos, António Correia Pinto, assegurou que o executivo se vai reunir nesta semana para decidir quais os terrenos que serão mobilizados para a iniciativa e afirmou que a intervenção no vale do Leça será feita em articulação com os municípios da Maia, Valongo e Santo Tirso.

António Correia Pinto garantiu ainda que a partir do próximo ano serão organizados roteiros educativos para as crianças do 1º ciclo do concelho, com diferentes áreas temáticas, que culminarão no Parque Ecológico Monte de São Brás. Para o autarca, “não há ninguém melhor do que as crianças para fazer chegar esta mensagem às casas” do município.

Texto editado por Ana Fernandes

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