Sánchez põe fim ao controlo financeiro sobre a Generalitat para recuperar o diálogo

Novo Governo espanhol aposta em “gesto de normalização” e quer reunir-se com Quim Torra o mais rapidamente possível. Estão para já descartadas concessões aos independentistas.

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Novo Governo de Espanha pousou para a a fotografia oficial Reuters/SUSANA VERA
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Pedro Sánchez estreou-se a presidir ao Conselho de Ministros Reuters/SUSANA VERA

Se dúvidas existissem sobre a arrumação da questão catalã dentro do programa do novo Governo de Espanha, elas ficaram totalmente dissipadas esta sexta-feira. Pedro Sánchez levou o tema ao primeiro Conselho de Ministros a que presidiu e atribuiu-lhe estatuto de prioritário. O socialista quer restaurar a normalidade na comunicação com o govern da Catalunha e sentar-se com o seu presidente, Quim Torra. Para já, ordenou o levantamento dos controlos financeiros sobre a Generalitat a partir de segunda-feira.

“Ordenámos que se dêem instruções aos bancos para que o governo da Catalunha possa dar resposta aos seus pagamentos e aos seus gastos, sem a necessidade da supervisão do Banco de Espanha”, anunciou a porta-voz do Governo, Isabel Celaá, numa conferência de imprensa realizada após o Conselho de Ministros. “Levantamos a supervisão como gesto de normalização política”, acrescentou.

Ainda que interligado com a aplicação do Artigo 155 da Constituição espanhola sobre a Catalunha – ordenada por Mariano Rajoy em Outubro do ano passado e concluída com a tomada de posse do novo executivo –, o controlo exercido sobre as despesas do governo autonómico resulta de uma medida distinta: em meados de Setembro, o Governo do Partido Popular decidiu implementar a fiscalização para impedir que Carles Puigdemont e a sua equipa utilizassem dinheiros públicos para a organização do referendo independentista, que teve lugar a 1 de Outubro.

Quem não ficou satisfeito com a decisão de Sánchez em abrir mão do controlo financeiro sobre o govern foram os dirigentes do Cidadãos. A líder do partido na Catalunha, Inés Arrimadas, lamenta que o presidente do Governo esteja a “ceder às exigências dos separatistas” e Albert Rivera (o líder nacional do partido) acusa-o de “estar a pagar uma das hipotecas do pacto” que fez com estes para derrubar Rajoy.

“Será sua a responsabilidade pelo [dinheiro] que Torra destinar ao processo contra a nossa democracia”, escreveu na mensagem que dirigiu a Sánchez no Twitter.

Com aquele gesto, Sánchez pretende mostrar aos soberanistas catalães que está disposto a romper com o modus operandi do seu antecessor e a virar a página numa relação traumática para todos os envolvidos. Durante a sua tomada de posse como ministra da Política Territorial e da Função Pública, Meritxell Batet citou o presidente do Governo espanhol para explicar que a partir de agora Madrid vai “escutar, dialogar e conciliar”, porque acredita que a “recuperação da palavra com a Catalunha é imprescindível” para Espanha. 

E, para colocar em prática estas intenções, Sánchez ligou a Torra para lhe propor uma reunião bilateral, escreve o La Vanguardia.

A porta-voz do Governo alerta, no entanto, que o novo posicionamento de Madrid não implica uma mudança em Sánchez no que à defesa da integridade territorial espanhola diz respeito. Celaá esclarece que o líder socialista vai ao encontro de Torra “com a Constituição numa mão e com o diálogo na outra” e garante que o direito à autodeterminação da Catalunha está “absolutamente excluído” das conversas com o presidente da Generalitat.

Puigdemont cauteloso

Com Torra aparentemente disponível para dialogar com Madrid – discutiu essa possibilidade com o socialista Miguel Iceta, numa reunião em Barcelona, esta sexta-feira –, o antigo presidente do governo catalão, auto-exilado na Alemanha, mostra-se, ainda assim, cauteloso com Sánchez.

Em entrevista à rádio RAC1, antes de anunciado o levantamento do controlo financeiro, Carles Puigdemont até referiu que o discurso do socialista é agora “muito diferente do que tinha sido até aqui”, admitiu que um encontro entre Sánchez e Torra é “uma boa notícia”, mas disse que ainda está à espera de políticas concretas.

“O que importa não são as expectativas, mas as políticas. Até ao momento ainda não se conhecem quaisquer políticas, que continuam a ser as de Rajoy, no que à Catalunha diz respeito”, rematou Puigdemont.