Crítica

Os dinossauros que vieram para ficar

Reino Caído não inventa nada e deixa a porta aberta para mais uma sequela, mas faz uma rima curiosa com o Ready Player One do pai Spielberg.

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Tiranossauro, Cinema
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Podíamos continuar a bater no ceguinho que, como diz o bordão popular, já não adianta nada. Os grandes estúdios já não querem filmes, querem “propriedade intelectual” que se possa desmultiplicar em sequelas e “sagas” e “universos”. Um “reino caído”, se quisermos – e é curioso como, depois do “acto de contrição” do Ready Player One que Spielberg assinou há poucos meses, esta quarta declinação do Parque Jurássico original, de novo supervisionada e produzida pelo veterano, prolonga, por interposto filme, esse “mea culpa”. A questão central de Mundo Jurássico: Reino Caído vai direitinha à ética e à moralidade da clonagem – ressuscitámos os dinossuros sem ter noção do desequilíbrio que isso criaria no nosso mundo, deixámo-los isolados e longe do mundo na Isla Nublar, e agora que o vulcão ameaça destruir a ilha, o que fazer com os bichos que sobreviveram e que se multiplicaram? Salvamo-los (porque são seres vivos) ou deixamo-los morrer (porque andámos a brincar aos deuses e nunca os devíamos ter ressuscitado)?

Tudo isto pode também ser lido como Hollywood a olhar para si própria e a perguntar qual é, ou qual vai ser, o novo mundo que criou ao apostar tudo no espectáculo. Agora que abrimos a caixa de Pandora (da manipulação genética ou da “propriedade intelectual”), que novo mundo vai surgir? Reino Caído prefere, numa manobra com tanto de pragmático como de metanarrativo, levantar as perguntas, mas chutar as respostas lá para a frente, para a sequela que o final inevitavelmente deixa em aberto. Até lá, resta-nos desfrutar de uma série B bem feita se bem que impessoal, pelo meio da enésima revisitação (consciente, mas ainda assim previsível) da fórmula do Parque Jurássico original. Os melhores momentos do filme são, curiosamente, aqueles onde o espanhol J. A. Bayona (O Orfanato, 2006; O Impossível, 2012), afilhado de Guillermo del Toro, reencontra algo do melodrama gótico – a cena do indoraptor percorrendo a mansão Lockwood é uma aplicação exemplar do classicismo spielberguiano, e subentende um outro filme, menos sujeito às lógicas do “produto de linha de montagem”. É pena que Bayona não dê muito que fazer ao par Bryce Dallas Howard/Chris Pratt (mas a sua presença é ainda assim bem-vinda), e que desperdice sem mais nem menos o grande twist da narrativa. Como diria o pai: vê-se bem, mas não é nada de especial.