Torne-se perito

O padre gritou e toda a malta ajudou: São Cristóvão já está em obras

Campanha de crowdfunding permitiu financiar a substituição do telhado e arranjos exteriores. Lá dentro, a talha empoeirada e as telas negras mostram o quanto há a fazer para recuperar esta igreja do século XVII.

Fachada
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A igreja, construída no século XVII, resistiu ao terramoto de 1755 Miguel Manso

Já há andaimes em redor da Igreja de São Cristóvão, na Mouraria. Quatro anos depois de ter ganho um Orçamento Participativo e após uma inovadora campanha de crowdfunding, o pároco conseguiu finalmente mandar substituir o telhado, arranjar as paredes exteriores e as cantarias.

As intervenções que agora se iniciaram, com fim previsto para Setembro, vão custar 140 mil euros, dinheiro angariado exclusivamente através do contributo popular. “Já só me faltam 860 mil euros”, gracejou o padre Edgar Clara no altar, com Fernando Medina na primeira fila e atento à prédica.

Por isso, o sacerdote puxou da Bíblia para ler uma passagem do Evangelho segundo São Mateus: “E Jesus disse à mulher cananeia: ‘Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos’. A mulher retorquiu: ‘É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos’.” Seguiu-se a breve homilia: “Se houver por lá umas migalhinhas do turismo dos estrangeiros, desse bendito imposto, a gente aceita.”

À sua volta, a talha dourada enegrecida, as telas inelegíveis e a madeira podre atestam o volume de trabalho que ainda vem por aí. “Esta mulher era estrangeira e pediu a Jesus um milagre”, continuou o padre Edgar. Correu-lhe bem a ousadia, pois Jesus apiedou-se dela e curou a filha doente. “Já percebi que não há momentos grátis”, riu-se o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que não citou a Bíblia, mas uma frase atribuída a Winston Churchill: “Se estamos a cortar na cultura, estamos a fazer a guerra para quê?”

“Tenho um carinho muito grande por esta igreja e por todas desta zona. São locais da nossa História e da nossa cultura”, disse Fernando Medina.

Nos últimos quatro anos, com os 75 mil euros ganhos através do Orçamento Participativo, a paróquia lançou inúmeras iniciativas para convencer lisboetas e turistas a contribuírem para o restauro do velho templo, aqui erigido desde o século XVII. Foi possível, disse Edgar Clara, “mais do que duplicar” aquele montante. A venda de telhas para o novo telhado, a 20 euros cada, rendeu 50 mil euros. Os biscoitos, produzidos pela Cozinha Popular da Mouraria e a 5 euros o saco, valeram 10 mil euros. As noites de fado, co-organizadas com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, deram 5 mil euros. A isto somaram-se donativos vários e mecenato de empresas.

O diabo foi a papelada. “Mais rápido consegui fazer 170 mil euros do que obter as licenças. Mais rápido consigo ser gestor do que mestre-de-obras”, afirmou o pároco. “Todos os dias faltava um papel”, suspirou, risonho. “Já está a pagar pelos pecados que cometeu e pelos que há-de cometer, pois já está a passar o purgatório dos papéis na câmara”, brincou Fernando Medina.

Feitos os gracejos, Edgar Clara explicou os próximos passos. “O nosso objectivo é garantir que as coisas básicas do edifício estão estáveis. As paredes, o telhado, as janelas e a electricidade”, disse. Quando acabar a intervenção exterior, a paróquia quer pôr novas caixilharias, mudar o quadro eléctrico e a iluminação. A junta de Santa Maria Maior comprometeu-se a ajudar financeiramente na última fase. Mas novas lâmpadas não vão disfarçar o estado lastimável em que se encontram as telas, atribuídas ao pintor Bento Coelho da Silveira, que forram toda a igreja. O padre Edgar está já à procura de mecenas que queiram financiar o restauro dessas obras de arte, orçado em 360 mil euros.

Enquanto decorrerem os actuais trabalhos, a igreja não vai fechar ao culto e, uma vez por semana, haverá visitas guiadas para explicar cada passo da intervenção. Está ainda previsto haver jantares culturais, intervenções artísticas nos andaimes e um livro – tudo para continuar a angariar fundos. “Se todos os nossos concidadãos fossem assim, isto andava bem melhor”, disse Fernando Medina ao padre Edgar. Já cá fora, o sacerdote não deixou o autarca ir embora sem este lhe comprar mais uma telha. São mais 20 euros em caixa.

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