O Walk & Talk vai continuar a esticar os limites dos Açores

De 29 de Junho a 14 de Julho, a ilha de São Miguel voltará a experienciar o festival interdisciplinar, que à oitava edição abre cada vez mais o arquipélago à criação contemporânea.

Galeria Fonseca Macedo
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O Narcisismo das Pequenas Diferenças, de Pauliana Valente Pimentel, resultou de uma residência no Walk & Talk de 2017 PAULIANA VALENTE PIMENTEL

Tendemos a ver uma ilha como algo fechado, fixo, intocado. É ainda a percepção que muitos têm dos Açores, e em particular de São Miguel, onde de 29 de Junho a 14 de Julho decorrerá a oitava edição do festival interdisciplinar Walk & Talk. Este ano, através do circuito de arte pública, o festival vai tentar complexificar essa ideia. “Convidámos a curadora inglesa Dani Admiss, que é alguém que olha para a ilha como ponto de intersecção, espaço de acolhimento e de recepção, de chegada e partida, como uma rede.”

Quem o diz é Jesse James, o principal responsável pelo festival, ao lado de Sofia Carolina Botelho e Luís Brum. “Aquilo que ela vai criar deixa de ser um circuito de arte pública no sentido mais clássico – com arte visual, murais ou arquitectura – para se tornar numa exposição expandida do território. E vai trazer artistas totalmente fora do contexto português, que pertencem a outras redes, o que é refrescante.”

O mote do circuito de arte pública deste ano é Assembling an Island, acabando por respirar muito da filosofia da Internet, do digital e das redes sociais. Constituirá um desafio a forma como vai adquirir fisicalidade, estendendo-se de Ponta Delgada a Vila Franca, passando pelo Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande, ou pela Lagoa das Sete Cidades, e integrando artistas como Camposaz, Rourke + Luiza Prado ou Navine Khan Dossos. “Vamos continuar a esticar os limites da ilha e isso deixa-nos entusiasmados”, exclama Jesse James, antecipando ao PÚBLICO uma edição que pretende ser especial.

“A edição do ano passado foi dura, porque perdemos aquela que era a nossa casa desde sempre, no centro de Ponta Delgada”, recorda, “de tal forma que nos obrigamos a repensar a direcção artística e a nossa missão para as próximas edições”. Nesse contexto, a direcção do Walk & Talk voltou a questões essenciais, como a de perceber a quem se estava a dirigir. “Num primeiro nível, estamos a trabalhar para quem vive nos Açores, para as pessoas poderem participar ou usufruir das coisas que propomos. Mas também nos interessa um publico mais atento, ligado ao meio artístico, e mais exigente. A ideia é tentar encontrar esse equilíbrio.”

Para já, vai ser construído um pavilhão temporário, em frente ao Teatro Micaelense, no coração de Ponta Delgada, que servirá de sede do evento a partir desta oitava edição: “Convidámos o atelier de arquitectura Mezzo, com o qual já colaborámos no passado, e serão eles a conceber um espaço com madeira.” O espaço servirá de ponto de encontro, com palco, auditório, bar e cantina, numa relação de contiguidade com o Teatro Micaelense que Jesse James valoriza. “Se no início existia desconfiança dos organismos açorianos, hoje sente-se uma vontade de partilha de riscos, o que é saudável. O Micaelense é um grande parceiro. E ali irão acontecer residências artísticas, ensaios e uma parte da programação ao longo das duas semanas de festival.”

PÚBLICO -
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O espectáculo Equanimidade de Vânia Rovisco, resultante de uma residência artística. Apresentado na edição de 2017 do Walk & Talk Filipa Couto

Paralelamente ao circuito de arte pública, que esteve na génese do festival há oito anos, haverá também um programa de exposições, com destaque para a colectiva Untitled (How Does it Feel), com curadoria de João Mourão e Luís Silva, e obras, entre outros, de André Romão, Anna Franceschini ou Joana Escoval.

“Por trás da exposição está essa ideia de voltarmos à capacidade de sedução que uma obra de arte pode conter, o que é pertinente num contexto como os Açores.” A exposição vai ocupar o quarto andar – até agora abandonado – do Sol Mar Avenida Center, uma torre com 24 anos cuja construção foi deliberada pela população, mas que entretanto caiu no esquecimento. “Interessa-nos dar a conhecer espaços com pouca visibilidade, mas acima de tudo queremos desenvolver uma boa exposição e torná-la generosa, pensando nas estratégias que podem ser implementadas para garantir que o máximo de pessoas possa ter uma boa experiência”, argumenta Jesse James.

Das artes à festa

As imagens fotográficas de Manuela Marques, na galeria Fonseca Macedo, a colectiva Ilha, com coordenação de Alejandra Jana Montecinos, ou El Ovido, da guatemalteca Maya Saravia, resultante de uma residência artística iniciada em 2017, também integrarão o programa de exposições. Mas o festival iniciar-se-á com artes performativas, a 29 de Junho: o espectáculo de abertura, Cortado por Todos os Lados, Aberto por Todos os Cantos, do brasileiro Gustavo Círiaco, que se estreou esta terça-feira no Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa, no âmbito do Alkantara Festival, resultou de uma residência no Walk & Talk. “Nesta edição vamos estrear uma série de coisas resultantes de residências artísticas dos últimos anos, o que é motivador”, reconhece Jesse James, realçando, ainda no campo das artes performativas, Burn Time, de André Uerba, resultado de uma co-produção com a Tanzfabrik Berlin, Nova Criação, de Teresa Silva e Filipe Pereira, co-produção com o festival Materiais Diversos, Antes, de Pedro Penim, e um trabalho de Lígia Soares que o Walk & Talk encomendou e que ali terá a sua primeira apresentação.

Uma residência de design e artesanato, com coordenação de Miguel Flor, ou a exibição na vila de Rabo de Peixe dos screenings resultantes da exposição O Narcisismo das Pequenas Diferenças, de Pauliana Valente Pimentel, que esteve em residência no Walk & Talk há um ano, são outros dos destaques. “E haverá também muita festa!”, garante Jesse James, respondendo a quem acha o festival demasiado sério. “Este é um festival de artes, que tem densidade, e que exige disponibilidade para nos conectarmos com alguns conteúdos, mas também pretende ser uma coisa divertida, da ordem da sociabilização, do prazer.” Aliar essas duas dimensões, misturando pesquisa, experiência e sentido lúdico, é por norma o que define as escolhas musicais, e este ano não será diferente, com nomes como as Thug Unicorn ou o muito celebrado Conan Osiris a fazerem parte do menu. 

À oitava edição, o Walk & Talk terá o seu maior orçamento de sempre: pela primeira vez, o festival foi contemplado com um apoio da DGArtes. “É uma espécie de reconhecimento e permite uma diferença substancial no orçamento, que este ano cresce à volta de 60 mil euros, subindo a um total de 170 mil euros”, diz Jesse James.

Esse novo fluxo financeiro poderia ter sido encarado como uma hipótese de o festival crescer em dimensão, mas não foi essa a filosofia adoptada. “Podíamos ampliá-lo ou manter a escala, dando outras condições de trabalho aos artistas, melhorando o acolhimento e pagando ordenados decentes à equipa; optámos pela segunda hipótese. Ainda não é o nível que desejamos, mas é um passo”, advoga Jesse James, vincando que o festival vai investir cada vez no formato de residência artística, que tendencialmente se estenderá por dois anos, entre a investigação e a apresentação, sempre com a meta de pensar a relação com a comunidade local, o conceito de espaço público e de geografia e, este ano, em particular, de ilha.