Para Manuela Marques, o real é um saco vazio

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Vencedora do Prémio BESPhoto 2011, Manuela Marques faz uma tocante investigação do real, dominada pela fotografia e inspirada pelo cinema e pela pintura

Nas fotografias de Manuela Marques (Tondela, 1959), o instantâneo esconde a encenação e vice-versa, a realidade não é mais do que um lugar de ficções e o social traz o absurdo ao quotidiano. Como em quase toda a arte fotográfica, podemos acrescentar, descobrimos na obra da vencedora do Prémio BESPhoto 2011 uma investigação sobre o real. Mas a obra desta artista portuguesa, que vive em Paris desde os anos 60, não se dilui numa paisagem comum ou em linhas gerais. Singulariza-se, inspirada pelo cinema e pela pintura, insistindo em perguntar "o que fotografar?", "o que ver?". Terá sido porventura esta tocante e vibrante teimosia a dar a Manuela Marques o prémio.

Em Portugal, o seu percurso é ainda hoje relativamente desconhecido para a maior parte do público e estranho a muitos dos seus pares. Tem exposto sobretudo em França, onde trabalha, no Brasil e, desde 2002, em Portugal, através dos Encontros da Imagem, de Braga. O afastamento do contexto nacional nem por isso a faz sentir-se "estrangeira": "É verdade que possivelmente não vi as mesmas exposições, nem visitei os mesmos museus que os artistas portugueses da minha geração", admite, "mas minhas referências são tão portuguesas como francesas, alemães ou suecas. São as do campo da arte, que não têm fronteira neste mundo globalizado em que a informação está acessível a todos".

A formação artística de Manuela Marques aconteceu na Paris dos anos 80, entre a Sorbonne e a bienal Mois de la Photo, determinante para o encontro da artista com a fotografia: "Permitiu-me rever tudo que era historicamente importante no médium e que não tinha sido objecto de exposições, e tomar consciência das experimentações plásticas que ele possibilitava". Seguiram-se mais tarde o interesse pela linguística, o cinema e estudos de literatura. E, a partir dos anos 90, a participação em várias exposições colectivas e a realização de individuais. Lentamente, emergia no seu trabalho uma investigação dedicada à presença e à semântica da imagem fotográfica através de retratos, espaços interiores, objectos, corpos.

Activar a imagem

Olhando para algumas das fotografias de BESPhoto 2011, no Museu Berardo, e para a exposição "Temporada", na Appleton Recess, em Lisboa, com o comissariado de João Silvério, é difícil não pensar no cinema. Não apenas por causa da relação campo contracampo ou da apresentação sequencial de algumas imagens, mas também pelo que o real captado pela objectiva vai revelando e pela intensidade das composições. Lançamos os nomes de Robert Bresson e David Lynch: "[O Bresson] foi muito importante para a minha educação visual", responde Manuela. "Cada plano é uma obra poética, de uma aparente simplicidade visual. E tem uma profundidade e uma força incríveis. O Lynch é para mim fundamental, pela forma como cria rupturas ou ligações entre mundos que funcionam simultaneamente ou paralelamente na mesma sequência".

Aos cineastas poderíamos juntar um fotógrafo como Jeff Wall. "Formalmente o meu trabalho é muito diferente, mas creio que temos abordagens análogas, pois ambos colocamos a questão: 'O que estamos a ver?'". A artista descobre a mesma dúvida sobre a representação do mundo nas telas de El Greco, enquanto em Edward Hopper e no renascentista alemão Lucas Cranach encontra, respectivamente, momentos que podiam ser fotográficos e modelos ou formatos de um género pictórico (vejam-se os retratos de perfil dos jovens na BESPhoto).

Para Manuela Marques, a fronteira entre o instantâneo fotográfico e a encenação é um território volúvel: "Antes de começar um trabalho, já sei o que vou fazer e como vou actuar. Busco uma certa teatralização dos gestos, em sítios que já foram identificados. Procuro que o encenado pareça espontâneo e o instantâneo pareça encenado. O meu trabalho envolve essas duas atitudes".

O ponto de partida chama-se (quase) sempre real. "É uma palavra, um saco vazio que eu procuro encher com variações e recursos estilísticos diferentes. Isso pode levar a um desconforto no olhar. As obras dentro do espaço expositivo têm de ser polifónicas. O real não é linear, têm de ser recomposto para ser inteligível. É uma recomposição o que peço a quem vê o meu trabalho".

Um processo que não se realiza apenas com a fotografia. Convoca também a instalação e o vídeo, suportes que a artista tem vindo a utilizar de forma recorrente (nomeadamente nesta década), como se pode constatar em "Close Up" (no Museu Berardo) ou na instalação "Grândola" ("em Temporada"), que convida o espectador a interagir com o som e o espaço do "white cube" e a acordar na sala (que nesse momento escurece) uma imagem projectada: um homem a assobiar a melodia da canção. "São trabalhos que se encontram na continuidade da fotografia. Utilizo apenas outros meios, o som, a interactividade, a imagem em movimento. A instalação sonora permite-me agir sobre as emoções e as sensações dos visitantes. Como acontece nas exposições de fotografia, eles devem fazer um esforço para recompor um conjunto, mas a partir dos sons e do deslocamento dos seus corpos no espaço".

A presença da melodia tem óbvias ressonâncias políticas, situação inédita na obra de Manuela Marques. Podemos, devemos falar, por isso, de uma obra engajada? "Sim podemos dizer que sim. O espectador deve ser responsável por aquilo que pode ou não produzir no espaço. O que me interessa [em "Grândola"] é o facto de o som poder ser a única coisa que vemos. Daí a importância do lugar do espectador. A atenção que dispensa à banda sonora e à deambulação na galeria pode activar ou não a imagem".