Reportagem

No Walk&Talk dos Açores a arte foi ter às pessoas e agora as pessoas vão ter à arte

O festival de artes Walk&Talk, nos Açores, ainda é percepcionado por alguns como sendo um evento de arte urbana, mas se no início a ideia era levar a arte às pessoas, agora são as pessoas que vão até à arte.

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Ensaio de "Equanimidade – Ânimo Inalterável" de Vânia Rovisco Filipa Couto
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Vânia Rovisco Filipa Couto
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"Nordic Miniature" dos Benandsebastian Filipa Couto
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Residência de design-artesanato Mariana Lopes
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"A Matriz e o Intervalo" de Carla Cabanas no Instituto Cultural de Ponta Delgada Mariana Lopes

Mas afinal onde estão os graffitis? A pergunta foi feita por uma senhora a um funcionário do museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, Açores, depois de ter percorrido as salas da instituição, motivada por um cartaz à entrada que enunciava que ali havia duas exposições do festival Walk&Talk, que começou a 14 de Julho e se prolonga até este sábado, 29. O equívoco é significativo, no sentido em que o evento se afirmou nos anos iniciais pelo conjunto de murais de arte urbana, naquela que constituiu uma forma de levar a arte à comunidade.   

À sétima edição pouco resta dessa estratégia. O circuito de arte pública continua a fazer parte da identidade do acontecimento, mas as intervenções vão muito além dos murais. Das artes visuais às artes performativas, passando pelo design, arquitectura ou música, no evento coexistem múltiplas expressões artísticas, sempre com esse foco de incentivar a criação no singular contexto cultural e geográfico dos Açores.

Este ano a curadoria do circuito de arte pública foi entregue à plataforma KWY dos arquitectos Ricardo Gomes, Gabriela Raposo e Miguel Mesquita, precisamente com o intuito de interrogar o que é isso da arte pública. No coreto de Ponta Delgada, por exemplo, está Medusa, uma instalação sonora do artista e violoncelista Ricardo Jacinto, enquanto no largo de S. João, em frente ao teatro Micaelense, está o pavilhão dos arquitectos João Quintela e Tim Simon do atelier JQTS, que conceberam uma estrutura sensorial labiríntica em madeira, coberta por rede, que desperta a curiosidade de quem passa e é impulsionado a percorrer a construção.

A praça central do Centro de Artes Contemporâneas Arquipélago, na Ribeira Grande, foi reinventado pela artista e designer japonesa – sediada em Estocolmo – Akane Moriyama, que utilizou têxteis para manipular o contexto do espaço através de sombra, cor e texturas, atribuindo um carácter íntimo à praça, num convite à reflecção sobre as características desse lugar público. É uma instalação têxtil com 70 metros de tule e aço que tentam condensar, diz-nos ela, “a luz da ilha, a pedra vulcânica e as artes da pesca, ao mesmo tempo que atribuem mais claridade ao museu.”

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A japonesa Akane Moriyama apresenta uma instalação na praça central do Centro de Artes Contemporâneas Arquipélago Sara Pinheiro

No parque Terra Nostra, nas Furnas, está uma das peças mais singulares de todo o programa. Trata-se de uma instalação-escultura do artista visual inglês Ben Clement e do dinamarquês Sebastian de la Cour, que assinam com a designação Benandsebastian. A dupla construiu uma réplica em miniatura de uma floresta do norte da Europa, porque trabalham a partir das omissões de colecções de arte, museus e outras instituições, construindo discursos que evidenciam essas ausências. No caso do parque perceberam que o tipo de flora do norte da Europa não cabia ali, tendo criado um pequeno jardim disposto numa estrutura em madeira (a peça Nordic miniature) a imitar uma vitrina, que foi colocada num recanto do luxuriante espaço, interrogando ao mesmo tempo a noção de exótico.

Como é fácil de constatar o conjunto de intervenções propostas em espaço público nada tem a ver com murais. Existe uma excepção, o espanhol SpY, que irá fazer um com a inscrição No more walls, com leituras políticas, mas também reflexão sobre a geografia da ilha e a própria arte urbana, numa altura em que existem vozes que apontam o aproveitamento político que é feito da mesma ou aquilo que pode ser o seu carácter apenas decorativo. “O SpY começou a operar na rua nos anos 1980 quando existia uma lógica politizada, reivindicativa e questionadora na arte de rua e ele acha que essa intencionalidade se perdeu”, contextualiza o fundador e director do festival Jesse James, assumindo que no início o Walk&Talk também foi responsável por murais ornamentais.

Hoje não lhes interessa isso. Até porque foram percebendo que existem muitas formas de operar no espaço público. “Acima de tudo queremos gerar condições para os artistas criarem com os seus propósitos, independentemente das formas artísticas. Nesse sentido o festival não se reinventou, acabou por transformar-se e evoluir com naturalidade.” Uma das ideias que ganhou consistência com os anos foram as residências, espaços de criação, de relação com a comunidade ou entre criadores.

Foi o que aconteceu na residência de design-artesanato, com curadoria de Miguel Flôr, durante a qual o artista gráfico australiano Leo Nguyen – a residir em Nova Iorque – se cruzou pela primeira vez com o designer americano Brian Thoreen, conhecido por criar móveis e instalações arquitectónicas, tendo resolvido encetar uma colaboração a dois, com a participação dos artesãos locais.   

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"Exodus Stations" no Museu Carlos Machado Álvaro Miranda

Foi também a partir de uma conversa informal que a fotógrafa Pauliana Valente Pimentel – que está em residência na ilha a retratar jovens nos seus contextos sociais de forma intimista, num trabalho que será revelado no próximo ano na galeria Fonseca Macedo em Ponta Delgada – acabou por mostrar um vídeo a Vânia Rovisco que a deixou entusiasmada. “A Pauliana mostrou-me um vídeo de dois rapazes de Rabo de Peixe a dançar e achei que eram fantásticos e resolvi incorporá-los no meu espectáculo.”

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A dupla Benandsebastian Filipa Couto

O espectáculo inédito da coreógrafa e artista visual Vânia Rovisco, que ao longo dos anos tem trabalhado objectos artísticos que misturam dança, instalação, artes visuais, luz e paisagens sonoras, chama-se Equanimidade – Ânimo Inalterável e é apresentado esta sexta-feira no teatro Micaelense, resultante de um mês de residência na ilha.

A colaborar com ela no som está o músico e compositor alemão Jochen Arbeit, fundador dos Automat e músico dos Einstürzende Neubauten, bem como bailarinos-intérpretes locais e de Lisboa. “Mas o contingente tem vindo a aumentar porque vou descobrindo pessoas aqui na ilha que vou adicionando e no total deverão ser catorze pessoas em palco”, revela ela, adiantando que o desafio inicial proposto ao núcleo duro do projecto foi trazerem objectos que não quisessem ter em palco ou que lhes custava ver. “O trabalho desenvolveu-se a partir daí, criando possibilidades de relacionamento.”

Não haverá uma narrativa, mas sim uma estrutura, aberta à improvisação flutuante dos intérpretes, numa sucessão de quadros ligados por corpos, movimentos, luzes e som, num espectáculo que resulta das residências, mas é co-produzido pelo teatro Micaelense e pelo Centro de Artes Arquipélago, num exemplo de cooperação, como também foi a produção conjunta (entre o Walk&Talk, Arquipélago e Terra Nostra) da curta-metragem Catherine or 1786, de Francisca Manuel, também resultante de um residência, e que agora está em exibição no espaço do Arquipélago.

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Naturalis Historiae - Quando é que se viu pela Primeira vez um Crocodilo nos Açores?, de João Paulo Serafim: no Museu Carlos Machado Mariana Lopes

Entre as dezenas de propostas agora patentes no festival, a maioria decorreram de residências que tiveram lugar por estes dias ou em anos anteriores. É o caso da exposição colectiva patente na galeria W&T, com curadoria de Diana Marincu, que havia estado o ano passado na ilha, contemplando seis artistas romenos e a portuguesa Vera Mota, reunidos à volta do conceito Message in a Bottle, num jogo de probabilidades onde as mensagens que se envia e a forma como são recepcionadas são condicionadas pela consciência emocional da existência de um outro.

É também o caso de Naturalis Historiae – Quando é que se viu pela Primeira vez um Crocodilo nos Açores?, de João Paulo Serafim, que esteve ali em residência em 2015, tendo-se apropriado de objectos do Museu Carlos Machado, do núcleo de Santo André, conquistando aqueles novas funções e estatutos. No mesmo museu está ainda Exodus Stations, com curadoria de Marta Jecu, e obras de David Casini, Benoit Maire e Marco Pires, que foram convidados a interpretar criticamente fotos históricas e as informações contidas nelas. De alguma forma o mesmo dispositivo da artista Carla Cabanas, que costuma mergulhar em colecções para explorar temas relacionados com a memória e o apagamento. Em A Matriz e o Intervalo trabalhou com a história da prática fotográfica e com a especificidade do médium, a partir do arquivo de fotografias do Instituto Cultural de Ponta Delgada, onde está agora patente a sua exposição.  

De alguma forma é como se o festival completasse agora um círculo. No início existia essa percepção de que se a comunidade local não tinha curiosidade por arte contemporânea havia que levá-la para a rua. Agora pretende-se diversificar a ideia de arte pública, ao mesmo tempo que a ideia é as pessoas procurarem os espaços expositivos – e para além dos já mencionados existem outros como a galeria Fonseca Macedo, onde está uma exposição de Sandra Rocha, ou a galeria Miolo, com uma colectiva de serigrafia, design ou ilustração, com curadoria Lavandaria. “As pessoas hoje estão mais despertas”, reflecte Jesse James. “No primeiro ano quando apresentámos os murais de arte urbana as pessoas reagiram com desconfiança e nos anos seguintes a cidade apropriou-se dessas obras e integrou-as. Agora que introduzimos alterações é natural que esse processo de interrogação regresse, porque já aprenderam a relacionar-se com os murais. Agora o desafio, para eles e para nós, é relacionarmo-nos com outras formas artísticas. O facto de agora organizarmos seis exposições é também reflexo dessa participação das pessoas nas outras edições e das residências. Está tudo interligado.”

No início a arte foi até às pessoas. Agora as pessoas também vão até à arte. “Estes processos levam tempo, aliás são sempre inacabados”, reflecte Jesse James, “o que é óptimo.” O único recurso inesgotável do planeta é o saber. Quanto mais se sabe mais se quer saber. Pela arte também.

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Colectiva "Depois do Vulcão", curadoria Lavandaria, na galeria Miolo Mariana Lopes

O PÚBLICO esteve no festival a convite da organização