Crítica

A escritora e o adolescente radical

Diálogos entre uma orientadora de workshop e os estudantes com os temas da ordem do dia, as clivagens sociais, a imigração, o terrorismo, e uma (boa) consciência, “intelectual” e moderadamente esquerdista.

Depois dos seus desvios pelos Estados Unidos (Foxfire) e por Cuba (Regresso a Ítaca), Laurent Cantet regressa às radiografias do mal-estar social francês que estiveram na base dos seus melhores filmes. O Workshop, com o seu ambiente escolar ou semi-escola
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Depois dos seus desvios pelos Estados Unidos (Foxfire) e por Cuba (Regresso a Ítaca), Laurent Cantet regressa às radiografias do mal-estar social francês que estiveram na base dos seus melhores filmes. O Workshop, com o seu ambiente escolar ou semi-escola
Atelier, Figura desenho, Oficina, Arte, Desenho, Studio
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Laurent Cantet, Marina Foïs, Oficina, La Ciotat
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Oficina, Festival de Cannes, Laurent Cantet, Film
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Laurent Cantet, Marina Foïs, Oficina, Warda Rammach, Florian Beaujean, Matthieu Lucci, Filme, França
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Depois dos seus desvios pelos Estados Unidos (Foxfire) e por Cuba (Regresso a Ítaca), Laurent Cantet regressa às radiografias do mal-estar social francês que estiveram na base dos seus melhores filmes. O Workshop, com o seu ambiente escolar ou semi-escolar, assente na relação entre uma professora e um grupo de alunos de diferentes origens étnicas e sociais, parece pegar num ponto próximo daquele em que o realizador tinha deixado A Turma, o seu filme de 2008 que muito objectivamente se constituía em microcosmos da juventude francesa.

Em O Workshop (escrito em parceria com Robin Campillo, o autor de 120 Batimentos por Minuto) também há “microcosmos”, mas as circunstâncias são um pouco diferentes. Estamos nas imediações da contraditória Marselha, onde a miséria dos bairros degradados coexiste com os iates de luxo (e com a entrada dos imigrantes vindos do Norte de África), e acompanhamos uma famosa escritora de livros policiais (Marina Fois) enquanto dirige um pequeno atelier de escrita colectiva com jovens da região. Como noutros filmes de Cantet,
o diálogo, as longas conversas entre a orientadora e os estudantes, têm uma preponderância fundamental, e através deles uma série de temas vem à tona – são os temas da ordem do dia, as clivagens sociais, a imigração, o terrorismo (há referências ao Bataclan, por exemplo). Mais importante do que isso, as ideias das personagens sobre esses temas vêm à tona, como se a intenção fosse menos a de uma pregação ou discussão sobre um conjunto de questões e mais a dum exame das respostas, digamos “comuns”, suscitadas por essas questões.

Assim sendo, o ponto de vista é claramente definido: é o da escritora, representante de uma (boa) consciência, “intelectual” e moderadamente esquerdista. E em função dela se desenha o pólo contrário, representado por um dos miúdos (Mathieu Lucci), com um discurso marcado por todos os estereótipos da extrema-direita e, porque não é um acaso que o âmbito do workshop seja a literatura policial, possuidor de um indisfarçado fascínio pela violência (os seus exercícios de imaginação criminal são os mais singularmente detalhados e violentos). Do ensemble emerge, portanto, esta relação de um fascínio mútuo entre a professora e aquele adolescente, e isso transforma-se, acima de tudo, na investigação dum mistério, o mistério da personalidade do miúdo, aquele que o espectador é suposto observar, como a professora, “de fora”.

É aí, no entanto, que o filme se desgarra, porque essa personagem do miúdo fica sempre algures entre uma generalização e um pequeno estereótipo, um conjunto de clichés que podem ser verdadeiros mas continuam, apesar disso, a ser clichés (a solidão de misfit, a violência dos jogos online, o culto do físico e da masculinidade). Como se o filme trocasse a observação social (ou sociológica) pela investigação psicológica e esta se revelasse, no fim de contas, bem menos interessante, bem menos “material”, do que a primeira. É isto que é progressivamente decepcionante no filme de Cantet, que no fundo trabalha na direcção contrária à de outro filme recente sobre a expansão das ideias de extrema direita em França e sobre a crescente impossibilidade de diálogo: o Esta Terra é Nossa, de Lucas Belvaux, que estava sempre a abrir para o “mosaico”, para o “padrão”, e onde a “sociedade” era como uma tapeçaria composta por inúmeros fios orientados em direcções contraditórias.