Torne-se perito

O Gajo libertou-se do mundo ao som de uma campaniça

Passou um ano desde a edição de Longe do Chão, o álbum de estreia do novo projecto de João Morais, que ao fim de três décadas de punk rock encontrou na viola tradicional alentejana uma nova via para “expurgar” a criatividade.

Baixo, guitarra elétrica
Foto
paulo pimenta

A história d’O Gajo começou há menos de três anos, mas o passado musical de João Morais já conta três décadas. São uma e a mesma pessoa, em momentos e espectros sonoros distintos, mas de alguma forma interligados. Se durante 30 anos este músico se moveu num território de raiz punk rock, na segunda vida, para a qual transporta a atitude das origens, surge rebaptizado e reinventado à luz da herança de uma portugalidade desenhada ao som da campaniça, instrumento que descobriu e adaptou às suas necessidades enquanto artista.

É em Beja que se dá esse encontro com a viola tradicional alentejana, ferramenta usada para lapidar os 11 instrumentais do álbum Longe do Chão, editado há precisamente um ano, que lhe permitiu apresentar-se a novos públicos, até então vedados pelas balizas do rock mais underground. Ainda a adaptar-se a uma nova realidade, está a desfrutar do resultado de um projecto que nasceu de forma descomprometida, mantendo as expectativas à margem do processo criativo, cujo método assenta num único princípio: seguir o instinto. As portas que se foram abrindo dão-lhe margem para sonhar com o próximo estágio. Quer gravar o segundo álbum e, ainda que essa não seja uma obsessão, chegar a mais gente.

A existir no nosso subconsciente um espaço onde está guardada uma memória sonora colectiva que remete para diferentes áreas geográficas, a música d’O Gajo funcionará como catalisador que nos transporta para esse lugar. Inadvertidamente, através das composições do álbum de estreia do instrumentista, há uma associação directa a uma ideia de portugalidade sustentada pelas melodias dedilhadas a solo nas cordas da campaniça, tradicionalmente usada com acordes.

Do punk à campaniça

Muito diferente era quando em 1988 João Morais entrou pela primeira vez numa sala de ensaios em Alvalade para rasgar as primeiras malhas que viriam a dar origem aos Corrosão Caótica, banda de crossover entre o punk-hardcore e o metal, fruto de uma formação composta por dois punks e dois metaleiros de Benfica, freguesia de Lisboa onde viveu até aos 27 anos.

Conta-nos o próprio que mesmo antes de o punk se entranhar no seu modo de estar na vida, “sobretudo por uma questão de atitude”, era o metal de uns Slayer, Anthrax, Suicidal Tendencies ou Helloween que lhe corria nas veias. Foram os últimos que o levaram ao seu primeiro concerto no Dramático de Cascais, em 1988, quando abriram para os Iron Maiden.

Os Corrosão Caótica separaram-se em 1995 e dois anos depois, após breves passagens por outras bandas, João Morais formava os Carbon H, que duraram até 2002, altura em que fundou os Gazua. “O Fred (Valsassina), dos Censurados, tinha entrado para os Corrosão Caótica no último ano da banda. Ficámos de fazer alguma coisa mais tarde na linha punk portuguesa. Surgem assim das cinzas os Gazua”, recorda.

Até 2015, lança cinco álbuns com esta banda. Não acabaram, mas estão “estacionados”. É nesse ano que num concerto dos Gazua em Beja “tropeça” na viola campaniça. O guitarrista que aprendeu a tocar de forma autodidacta tinha apenas passado por uma experiência que se aproximava ao conceito de “aulas”. “Em 2003 fiz uns workshops de Verão com o Hot Club, promovidos pela Câmara de Loures, que me despertaram para outros estilos. Estava muito fechado na cena rockeira. Abriram-se as portas do blues, do jazz e de outros géneros”, conta.

Nesse concerto de Beja, Paulo Colaço, “uma das referências da viola campaniça”, tocava no mesmo palco que os Gazua. Pouco tempo antes, Paulo Morais tinha tido uma introdução à guitarra portuguesa. “Já tinha a intenção de começar um projecto diferente e a ideia era recorrer à guitarra portuguesa, mas como tem uma afinação muito especifica não a quis desconstruir”, contextualiza. Foi com Colaço que se deu o clique. “Tinha encontrado o meu instrumento.” 

Através de um amigo que tem uma escola de música tradicional em Odemira, consegue adquirir uma campaniça. “Ele estava à espera de umas três violas. Fiquei com uma. A partir daí, com a viola na mão, foi fechar-me na garagem para expurgar todas as ideias que tinha para aquilo”, recorda. Mudou a afinação da viola, e levou a cabo uma série de adaptações, nomeadamente ao nível do encordamento. “Depois de me fechar na sala a compor ninguém sabia o que dali ia sair”, conta.

O palco como teste

Meses depois, quando já tinha algum material, decidiu testá-lo ao vivo. “Fui tocar ao open mic do Popular Alvalade para meia dúzia de pessoas. Se já estava entusiasmado com o que estava a fazer, ainda vim de lá mais entusiasmado com a curiosidade das pessoas relativamente ao instrumento e ao que dali saiu.”

O passo seguinte foi seguir um caminho muito próximo ao que percorreu durante 30 anos no circuito mais underground do rock. Foi compondo e testando o material em várias casas até gravar o álbum. A Rastilho, editora com que já tinha trabalhado com os Gazua, mostrou interesse em editar o projecto, que também recebeu um apoio da GDA. “Esse apoio motivou-me porque não estava acostumado a que portas se abrissem.”

Lançado o álbum em Maio de 2017, somou só nesse ano 60 concertos em território nacional. O próximo passo passará pela internacionalização. O que faz não é fácil de encaixar numa prateleira, mas para efeitos práticos tem sido enquadrado no universo das “músicas do mundo”, o que lhe abriu as portas a tocar em vários ambientes, “do rock ao fado”. “Com Gazua, num ano dávamos cerca de 15 concertos.”

Todo o seu percurso anterior, marcado pelas “adversidades do rock”, serviu para ajudá-lo, contrariando o título do álbum, a manter os pés bem assentes no chão. “Quando vens de um background onde te habituas a não esperar nada, isso prepara-te para o futuro, no sentido em que te obriga a mexer. Foi essa atitude que me aproximou do punk e foi por isso que não abdiquei das minhas convicções. Daí dizer que este é o projecto mais punk que alguma vez tive, porque em termos de atitude é onde consegui afirmar mais as minhas convicções. Aqui estou totalmente independente em relação ao mundo lá fora. Criei um espaço onde sinto e faço o que quero de forma livre e, de repente, começo a ser validado pelas pessoas que acho que têm validade para validar.” 

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