Porque não ter no Alentejo casas do cante?

O fenómeno do cante está a cativar as gerações mais novas na região de Beja. Rapazes e raparigas formam grupos corais, actuam por todo o país e até já gravam discos. As modas já se cantam no recreio das escolas.

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António Carrapato

Quando o jovem Buba Espinho decidiu avançar, com 16 anos de idade, para a formação, na cidade de Beja, de um grupo coral dedicado ao cante alentejano, ouviu de amigos e conhecidos uma expressão de espanto que cheirava a aviso: “Moços a cantar o cante!!! O mundo está virado ao contrário…”

Três anos depois, o grupo Os Bubedanas e os seus 20 elementos já percorreram o país de norte a sul em promissoras actuações de cante alentejano e acabam de gravar o seu primeiro disco, O Meu Montinho.

A experiência fez deles pioneiros da renovação de um género musical com uma poética identitária muito própria, que foi estigmatizado durante décadas pelo “preconceito” que o encarava como “um modo de intervenção associado aos velhos, ao vinho e as bebedeiras”, assinala Ana Albuquerque, coordenadora e mentora de um projecto que começou há dois anos e levou a Beja, à escola básica Mário Beirão, o ensino do cante a mais de 500 crianças, do ensino pré-primário ao quarto ano.

“Hoje canta-se pela mesma razão que se cantava antigamente. Canta-se por falta de perspectiva no futuro”, observa Paulo Colaço, professor de música que veio de Castro Verde, onde dá aulas de viola campaniça na escola secundária, para a capital do distrito, que só começou a ter aulas de cante em 2012. Em Castro Verde, o cante entrara já no programa das actividades extra-curriculares do 1º Ciclo pela mão de Pedro Mestre, tocador de viola campaniça (instrumento umbilicalmente ligado ao cante, quase desaparecido há uma década), depois de ter conduzido a primeira experiência escolar no concelho de Almodôvar já em 2006.

A nova realidade social reflecte-se nos gostos e até nas opções musicais das novas gerações. “Há miúdos que já fizeram de nós os Ronaldos do cante. Miúdos que nos vêem na televisão e querem ser como nós”, orgulha-se o jovem Espinho, hoje com 19 anos, a liderar uma experiência musical que já envolve na sua aprendizagem mais de 150 elementos da sua geração, entusiasmados com o sucesso e as audiências já alcançadas, até em zonas do país onde o cante era totalmente desconhecido.  

No Porto foram surpreendidos pela reacção das pessoas. “Nas Galerias de Paris mandaram calar todas as músicas dos bares para nos ouvir.” Já em Lisboa, cidade cosmopolita, a reacção das pessoas não teve a mesma intensidade que no norte do país, compara Buba Espinho. Mas no Feijó ouviu e sentiu “o cante com mais força e sentimento que no Alentejo”.

O jovem Espinho, filho de um dos elementos dos Adiafa, sente-se feliz pelo modo de vida que escolheu: projectar a cultura popular alentejana, através do cante. “Há quem o faça a escrever ou através de filmes. Nós cantamos e perseguimos a profissionalização”. O sonho passa por criar em Beja casas do cante, como as casas do fado em Lisboa.  

As moças e o cante

O fenómeno das novas apropriações do cante estende-se ao universo feminino. Da Cabeça Gorda, aldeia dos arredores de Beja, vem o testemunho de Ana Pereira, que avançou com mais 14 raparigas para a formação do grupo coral Moças do Cante. Se os rapazes formam grupos, porque não um só com raparigas. Moças do Cante tem dois meses e meio de vida, mas já deu para perceber que não é fácil conciliar ideias e horários. São estudantes, trabalhadoras, mães de filhos. É mais difícil ter as mulheres disponíveis, concede a jovem esteticista de profissão e com 22 anos de idade.

Elas querem transmitir o cante mais virado para os dias de hoje. Vestir calça de ganga e camisa. “Não temos que ter aqueles lenços na cabeça e aquelas saias. O revivalismo não motiva o grupo, disposto a inovar no estilo e nas letras das modas. Meu amor abalou para a vida militar. Ai que saudades…, não é tema para nós, assume Ana Pereira. “Daí a nossa preocupação em interpretar letras diferentes. As modas do antigo cancioneiro já estão muito cantadas. Não queremos mais do mesmo.”
 
“Não é fácil trabalhar com mulheres, mas estamos a portar-nos bem”, conforta-se Ana Pereira. Iniciaram o grupo com 10, depois apareceram mais cinco e só saiu uma. “Ninguém imagina o trabalho que dá gerir 14 pessoas, por exemplo acordar na cor dos sapatos e da camisa! O cante dá muito trabalho.”

Regressemos à escola básica Mário Beirão em Beja, onde fomos convidados a assistir a uma aula de cante para 25 crianças, 16 raparigas e nove rapazes, entre os oito e os dez anos. O professor Paulo Colaço, acompanhado de Ana Albuquerque na viola campaniça, dá o tom para a interpretação do tema Castelo de Beja. “Quem faz o ponto?”, pergunta à turma. Desta vez é o Diogo. Segue-se o “alto”, uma menina de 9 anos que tem uma voz mais aguda. Depois o coro de 25 vozes: “Subindo lá vai… Castelo de Beja”.

Segue-se a Padeirinha: “ Lá na minha aldeia toda a gente chora, porque a padeirinha se vai embora”. Agora vamos cantar Eu sou um rapaz pimpão, pede Paulo Colaço.

Mariana Sousa, 9 anos, diz que o cante é para “cantar sempre” e que na escola aprende modas que depois canta para os amigos e a família. Daniela Calixto, também com 9 anos, é peremptória: “O cante é para rapazes e raparigas”. Por isso é que não querem faltar a uma única aula. Foi lá que tomaram contacto com uma música que diziam ser “dos velhos”.  

A professora Maria dos Santos Graça encara o cante como uma “mais-valia” que se reflecte no “saber estar” das crianças. E as que revelam dificuldades de aprendizagem encontram na sua aprendizagem estímulo para melhorar noutras disciplinas, nomeadamente o português.

No recreio já se cantam as modas e o membro mais novo do grupo coral, a Mafalda, com cinco anos, grava e filma no telemóvel a sua moda preferida Vai do centro ao centro. Paulo Colaço fala da experiência com crianças das freguesias rurais. “Leccionamos 90 minutos de cante, falamos das tradições, das palavras que caíram em desuso e fazemos intercâmbio com os membros dos grupos corais, e idosos que contam histórias”. Os resultados são visíveis. Conta que no ano passado “andavam à pedrada uns com os outros durante o recreio, agora andam à volta da escola cantando modas”.
Conhecedor das raízes do cante alentejano, o professor vindo de Castro Verde explica que foram as mulheres que mantiveram vivo o gosto pelo cante: “Durante anos resistiram enquanto os grupos corais masculinos se desfaziam.”

Ana Paula Amendoeira, directora Regional da Cultura do Alentejo, não podia estar mais satisfeita com o esforço que está a ser feito por jovens para a revitalização do cante alentejano. Alentejana, também canta e sente a lírica expressa pelas modas. O cante, explicou ao PÚBLICO já em Paris, tem a virtualidade de contribuir para um reforço de identificação com o Alentejo: “Significa resistência à voragem fútil que amesquinha a essência, os valores e as raízes. Razão de sobra para agradecermos esta dádiva generosa deste Alentejo todo.” Com a inscrição do cante na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, a directora regional acredita que “haverá certamente uma outra visibilidade e uma maior exposição ao mundo desta nossa tradição”.

A mesma leitura faz João Rocha, presidente da Câmara de Beja, o autarca que enquanto presidente da Câmara de Serpa foi o mentor do processo de candidatura do cante junto da UNESCO. Inicialmente “muita gente torceu o nariz à ideia”, mas a iniciativa “já se está a reflectir no aparecimento de novos grupos”. A tarefa mais imediata advoga João Rocha “é colocar o cante nas escolas e promovê-lo por todo o país e estrangeiro”.