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Nuno Ferreira Santos

Dançar Lisboa e os amigos, celebrar o presente

Há algo de infalivelmente celebratório no novo disco dos Iguanas, duo da Cafetra. Lua Cheia é pop desinibida de pontilhismo digital que nos atira para uma certa Lisboa, para uma certa geração. Seguem-se dois concertos: 1 de Junho no Espaço Alkantara, 2 de Junho no Serralves em Festa.

Chegamos a Mais que dez e já não dá para escapar da discoteca imaginária, mas tão próxima de nós, tão palpável, que é Lua Cheia, o novo disco dos Iguanas. Chegamos àquela batida house muito (vá, totalmente) início dos anos 2000, algures na adolescência, ancorada em poesia urbana anti-capitalista, bálsamo utópico para estes dias, algures na idade adulta: “Dormi mais que dez horas/ Eu não trabalho, é só anhanço/ Pijama o dia todo/ Ou canto ou danço”.

“Queremos que o people se divirta”, diz ao Ípsilon, em jeito de resumo, Leonardo Bindilatti, metade dos Iguanas juntamente com Lourenço Crespo. Não seria preciso chegar a Mais que dez, sétima canção de Lua Cheia, para perceber o que Leonardo Bindilatti quer dizer. Afinal, já tínhamos passado pela pop electrónica caleidoscópica e anfetaminada de Novela e pela fritaria digital efusiva de Manter a calma. Há algo de infalivelmente celebratório neste segundo álbum do duo da Cafetra. Uma energia jubilante que os faz emergir da pop lo-fi e hipnagógica banhada em ruído e fuligem electrónica do disco de estreia, Doce (2013).

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Neste segundo disco, os Iguanas de Leonardo Bindilatti e Lourenço Crespo atiram-nos para uma certa noite lisboeta vivida em grupo — e para uma certa resistência adolescente àquilo que se chama trabalho Nuno Ferreira Santos

“O processo foi completamente diferente”, introduz Lourenço Crespo. “Gravámos o outro disco no quarto do Leonardo, em cassete. De cada vez que nos reuníamos fazíamos uma música quase inteira, era quase tudo feito num espaço de um dia, de forma muito espontânea.” Para Lua Cheia, o nível de exigência “subiu”, as ideias foram sendo “estruturadas”. “De forma natural, quase sem falar, definimos o papel de cada um dentro de Iguanas: eu tratei mais da produção, dos beats, o Lourenço mais da parte das letras e da voz”, enquadra Leonardo Bindilatti. Muito aconteceu desde o lançamento de Doce, e tudo isso é para aqui chamado. Bindilatti foi ganhando cada vez mais domínio e primor no beatmaking (ouçamos os seus projectos enquanto Rabu Mazda) e na produção de discos, entre eles Alfarroba e Casa de Cima, das Pega Monstro, Nove Canções, de Lourenço Crespo, Orgulho de Ex-Buds, de Putas Bêbadas (onde também toca bateria), ou Isula, de Sallim, entre outros trabalhos como freelancer fora da família Cafetra. Por sua vez, Lourenço Crespo cresceu como teclista na banda de Éme e fez-se um compositor e cantor de corpo inteiro, como ficou provado no seu disco de estreia a solo, Nove Canções (2016).

“Passaram-se muitos anos, muitos discos foram feitos entretanto. Acho que o que aprendemos permitiu-nos chegar a este disco”, considera Leonardo. “No outro ainda éramos teenagers. Não é que já sejamos velhos, mas ganhámos mais noção do que queremos fazer e de como dá para fazer.” Quando lhes perguntamos o queriam fazer, Lourenço responde prontamente: “Canções. Canções boas, inteiras.” Se em Doce o som era turvo e dopado, quase no subsolo, algo pendular, em Lua Cheia há um coração pop mais desinibido, uma nitidez e um pontilhismo que trazem tudo para a frente. “Este disco não tem tanto a ver com as texturas, tem mais a ver com as letras e acho que foi isso que o uniu”, aponta Leonardo.

As vozes estão agora na linha da frente. E isso, mais uma vez, tem tudo a ver com o que aconteceu desde o primeiro álbum de Iguanas, não só a nível individual como colectivo. Lourenço Crespo encontrou a sua forma de cantar e de escrever, fulcral na construção da sua identidade, e a Cafetra começou a dar mais protagonismo à voz, àquilo que é cantado e à forma como é cantado – ouçamos Casa de Cima, das Pega Monstro, ou Domingo à Tarde, de Éme, discos editados no ano passado. “Sobre a maioria das bandas da Cafetra, o pessoal dizia: ‘curto bué, mas não percebo nada do que estão a dizer’. Nunca nos preocupámos com isso, mas como fizemos muito isso quisemos fazer outra coisa e acho que agora é o que faz sentido”, observa Leonardo Bindilatti, que em Lua Cheia faz mais segundas vozes e harmonias vocais.

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No fundo, quiseram “um som que não tivesse nada a ver com o outro disco”, resume Leonardo. “O Lua Cheia é muito mais digital. É um som mais recente, mais de agora.” As produções recentes de pop e de trap serviram de referência, contextualizadas à maneira deles com a ajuda de Sonic Boom (ex-Spacemen 3), responsável pela masterização. “Conhecemos o Sonic Boom através da Filho Único [a promotora que agencia Iguanas] e ficámos amigos dele. Às tantas ele perguntou-nos se tínhamos alguma coisa para masterizar e achámos que seria um gajo fixe para nos ajudar a chegar ao som que queríamos”, conta Leonardo. “Um som que te fica mesmo colado ao ouvido.”

Noite e dia

Agora que conseguimos ouvir com clareza o que cantam os Iguanas, fica a sensação de que as letras de Lua Cheia são uma espécie de lado b das de Nove Canções, o álbum em nome próprio de Lourenço Crespo. Também aqui ele canta a Lisboa do seu tempo, da sua geração e do seu círculo de amigos, os amores e os desamores, a inquietação e as neuras do quotidiano (e isto já está a passar também para o cinema, através de uma nova geração de realizadores portugueses como Duarte Coimbra, Pedro Cabeleira ou Afonso Mota, próximos da Cafetra e seus cúmplices). “As temáticas são parecidas, sim. De certa forma é uma continuação do meu disco, mas se lá era tudo mais direccionado para mim, neste é para ideias que partilho”, diz o cantor e compositor. “É mais interactivo, às vezes quase que sou um narrador ou assumo várias personagens.”

A amizade, continua Lourenço, é talvez “a cena mais forte” de Lua Cheia. E há de facto todo um conjunto de imagens, sublimadas pelo vigor extático, palpitante e muitas vezes acelerado das canções, que nos atiram para uma certa noite lisboeta vivida em grupo, dentro e fora de casa de amigos. “Acho que isso está meio estabelecido na nossa música. Há esse imaginário de vida à noite, de festa”, afirma Leonardo Bindilatti. “Talvez seja fácil para quem está neste meio identificar-se com o que ouve. É disso que eu gosto nas letras do Lourenço.” Impossível não ir por aí quando vemos o videoclip de Afonso Mota para o single Namorado, electrónica ametista onde se detectam manobras filtradas de footwork entre cascatas de sintetizadores-diamante, ou quando ouvimos Queridos, canção de melancolia noctívaga desenhada a partir de um sample de Wait, música de Lou Reed.

Segue-se Jóia de moço, com uma linha de teclado memorável, nostalgia pós-ressaca vertida em prosa de rua (“Tanto medo/ Ser o mais fraco/ Uma memória na net/ Bêbado do Bairro Alto/ Ser da cena / Falar mais alto/ Fingir não quero namorada nem fumei tou ensonado”). Num disco com tanta audácia rítmica e atributos dançáveis, há espaço para momentos mais contemplativos como Fogo no ar, balada r&b digitalizada (Bindilatti usou aqui samples de videojogos antigos da Nintendo), e Vento forte, trap reduzido ao esqueleto e dulcificado, para ouvir enquanto se vagueia pela cidade ao anoitecer. Funciona quase como o day after da canção anterior, Não faças mal, celebração comunal anti-trabalho (“Quem é o maluquinho que gosta de trabalhar?/ Eu não sou, eu não sou/ Quem é o maluquinho que gosta é de ir dançar?/ Esse eu sou, esse eu sou”), com toda a ternura, a despreocupação e o hedonismo que gostávamos de transportar para a vida adulta.

“Tanto a Não faças mal como a Mais que dez têm essa cena do trabalho… Quando escrevo nunca estou a pensar numa intenção ou numa mensagem. No fim vais a ver e descobres o que andas a pensar, o que te preocupa, qual é a neura de agora”, diz Lourenço Crespo. E tanto ele como Leonardo Bindilatti não se vêem a fazer outra coisa. “Mais do que contrariar o trabalho nos moldes mais capitalistas, é a questão de não nos vermos a trabalhar noutra cena sem ser a música”, assinala Leonardo. Tudo isso está ligado à cidade, aos amigos; a este disco. “Eu trabalho com quem quero e com quem gosto de trabalhar. A Cafetra é a única razão para continuarmos a fazer isto”, afirma Lourenço. “Ter amigos que te motivam e que têm mais ou menos os mesmos objectivos é algo muito forte e que pouca gente tem.”

Eles sabem-no, nós também. Mais uma razão para celebrá-los, para dançar com eles – o encontro está marcado para dia 1 de Junho no Espaço Alkantara, em Lisboa, no âmbito do Alkantara Festival, e para o dia seguinte no Serralves em Festa, no Porto.