Pega Monstro: Manter o power, rockar a sério

Pega Monstro era um óptimo álbum. Alfarroba é mais. Rock cru e directo, sensibilidade pop apurada e um universo lírico desarmante. Irresistível. O novo álbum das Pega Monstro é apresentado sábado no Ateneu da Madredeus, em Lisboa.

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Maria tem guitarra, Júlia tem bateria, dão concertos e fazem discos Sara Rafael

No final de 2014, Maria Reis, vocalista e guitarrista das Pega Monstro, publicou na webzine musical Bodyspace a sua lista de melhores do ano. Incluiu discos, como Último de Siso, de Éme, ou Pom Pom, de Ariel Pink. Destacou as “novas songs de Panda Bear” e guloseimas como bolo de alfarroba, de figo e de amêndoa. Quase no fim, referiu as gravações que chegariam em 2015, as do novo álbum da sua banda: “Tá quase!”. Despedia-se com um desejo: “2015 VAI ROCKAR BUÉ!!!” – em maiúsculas e com três pontos de exclamação, porque o desejo não era tanto desejo quanto afirmação de uma convicção.

É o que concluímos, igualmente convictos, quando Alfarroba, o segundo álbum das Pega Monstro, formadas em 2010 pelas irmãs Maria e Júlia Reis (baterista), nos chegou aos ouvidos.Os riffs põem as canções em movimento, a bateria responde afirmativamente, umbilicalmente, ao mote dado, e as vozes unem-se para abrir um espaço de luz, muito pop, entre todo aquele ruído bom. Três anos depois do homónimo álbum de estreia, que as revelou e que dividiu as águas (o entusiasmo gerado teve equivalência na crítica indignada), o novo disco não deixará lugar a dúvidas. Alfarroba rocka a sério.

O novo álbum será apresentado este sábado no Ateneu da Madredeus, em Lisboa (bilhetes a 5€). A festa começa pela tarde, às 18h, com churrasco e música ambiente a cargo de Rabu Mazda & Van Ayres. Às 22h, começam os concertos. Primeiro João Dória e, depois, as Pega Monstro e o novo Alfarroba. Dia 24, o disco sairá para a rua. Não só por cá. A edição é da londrina Upset the Rhythm, casa de Deerhoof, John Maus, Xiu Xiu, No Age ou Munch Munch, e irá permitir às Pega Monstro partir em digressão europeia nos próximos meses. Não há segredo nenhum envolvido. Afonso Simões, baterista de Gala Drop, membro da Filho Único, que agencia as Pega Monstro, enviou uma versão de Alfarroba, ainda por misturar, ao fundador da editora, Chris Tipton. Este gostou e não demorou a juntá-las ao seu catálogo.

Pega Monstro, a estreia, era um grande disco. Alfarroba, produzido por Leonardo Bindilatti (Putas Bêbadas, Iguanas), é mais. A palavra já começou a espalhar-se. Em Maio, Panda Bear estreou o primeiro single, Braço de ferro, enquanto editor convidado do site Gorilla vs Bear. A Internet, como é de rigor, prestou atenção à recomendação do membro dos Animal Collective e a música das Pega Monstro começou a viajar no microcosmos dos blogues e sites atentos à música independente. Agora, há ingleses a contar que saem das canções com vontade de cantar aquelas palavras esquisitas que desconhecem, o que muito agrada às Pega Monstro – “foi das coisas que mais gostei de ler, porque mostra que ultrapassa a barreira da língua”, confessa Júlia.

Estamos com Maria e Júlia Reis num dos corredores dos estúdios onde ensaiam, no Bairro Alto, em Lisboa. Quando se juntam aqui, não têm plano de trabalho definido. Elas sabem que, quando Júlia se senta à bateria e quando Maria pega na guitarra, o que dali sairá será o som das Pega Monstro. É tudo o que precisam de saber.

Já trocámos o estúdio por uma esplanada, culpa de um baterista muito empenhado no seu longo ensaio nas profundezas. Passamos por Alfarroba, título que é “uma espécie de homenagem” aos Verões passados em Lagos, no Algarve. “É acolhedor e é família. É conforto interior”, diz Maria –“e a alfarroba em si é um fruto bué engraçado”, complementa Júlia. Falamos da comunidade próxima em que se movem e que têm como imprescindível – “a forma de trabalhar, a energia e o querer arriscar do pessoal do jazz, como o [baterista Gabriel] Ferrandini ou o [saxofonista Pedro] Sousa”; os inspiradores sons dos DJs di Gueto, entre os quais se destaca, por exemplo o afro-tecno-kuduro-beat da editora Príncipe onde encontramos DJ Marfox ou Nigga Fox: “sempre a abrir, sem vergonha”. Falamos de como perceberam, não sem espanto, que o facto de serem duas raparigas numa banda rock ainda podia causar alguma confusão nalgumas cabeças. “Só quando começámos a tocar é que sentimos que podia ser um problema”, diz Maria. “Porque não há nenhum impedimento. Ninguém nos disse ‘não podem tocar’ e nunca tínhamos pensado nisso." Para elas a questão central não é dizer “nós também podemos fazer”, é “fazer mesmo”. Têm seguido à risca essa ideia.

PÚBLICO -
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Elas sabem que, quando Júlia se senta à bateria e quando Maria pega na guitarra, o que dali sairá será o som das Pega Monstro. É tudo o que precisam de saber. DR

Esta língua neste tempo
Nos três anos entre a edição de Pega Monstro e de Alfarroba, vimos Maria Reis com os Iguanas ou com os Kridinhux, da trupe da Cafetra, ou a integrar a banda de palco dos Gala Drop. Júlia, por sua vez, entre o fim do curso de Biologia Celular e Molecular e o trabalho que continua a desenvolver nessa área, integrou a banda que Éme, outro colega Cafetra, reuniu para gravar o óptimo Último Siso. Quando, em Julho de 2014, “tudo concentrado em três ou quatro dias”, entraram nos estúdios Golden Pony, em Lisboa, para gravar Alfarroba, sentiam-se a “duvidar menos” da sua intuição.

O foco tornou-se mais preciso e as canções abrem-se sonicamente, sem perderem a sua urgência e uma vitalidade rock capaz de pôr um homem circunspecto a fazer alegres figuras tristes no local de trabalho, dançando descoordenado à secretária, ou de condenar ao repeat qualquer crente no poder de uma canção ligada à distorção e com refrão no sítio certo. E depois há aquilo que se canta. “Acho que as pessoas deviam ter menos vergonha de cantar com a voz que têm”, defende Maria. Ela escreve com essa voz.

Tudo resumido e indo directo ao assunto: é irresistível esta sensibilidade pop conjugada tão harmoniosamente com rock cru e directo, tão capaz de despachar uma canção em três minutos (a trepidante Branca não chega aos dois), como de deixar, como acontece em Amêndoa amarga, que ela se desenvolva com método até ultrapassar os seis minutos. A hipérbole é uma figura de estilo em que as Pega Monstro não têm grande interesse (Maria tem guitarra, Júlia tem bateria, dão concertos e fazem discos), mas não resistimos a usá-la. A culpa é daquele início, o de Braço de ferro. A guitarra que se lança sobre nós com peso mas graciosidade e a bateria a dançar com fervor sobre o compasso; as vozes que viajam num éter shoegaze, mas que são claramente adeptas da acção directa (o coração está dorido, mas não há papas na língua: “não quero saber de ti”).

A culpa é daquele início, retomemos, e de tudo o que se lhe segue. São canções, senhoras e senhores. E têm a intensidade sónica e o ataque desafectado que nos ofereceram os anos 1990, mas têm também bem-vindas fugas a esse guião, como a valsa afadistada de Fado d’água fria e a sua Maria da Avenida, como essa belíssima canção de dor e queda intitulada Fiz esta canção, que é desarmante por tão transparente na desilusão que a atravessa, que é balada para piano eléctrico, envolto em neblina sonora, onde é exibido o coração de cantautor, com esta língua neste tempo, que bate no corpo das Pega Monstro.

De Pega Monstro para Alfarroba, a intenção foi a mesma. “Continuámos a gravar as duas ao mesmo tempo. Isso permanece”, conta Júlia Reis. “Mas gravar um disco novo é sempre experimentar coisas novas” – como arriscar “uma cena megalómana” e utilizar nas gravações fita de cassete, como na estreia produzida por B Fachada, a outra fita, a imortal, relíquia pré-digital, e também o digital ele mesmo. “Mantém o power, mas a panorâmica está mais distribuída”, explica Maria. Há realmente algo de diferente. O som é menos ríspido, sem perder intensidade, e as letras deixam de ser vinhetas sobre o mundo em volta (o da Cafetra, a editora/colectivo em que se inserem, o do dia-a-dia nas ruas e nas casas que atravessam), debruçando-se sobre o universo íntimo (as relações, sempre elas, causa de toda a nossa felicidade e de toda a nossa angústia). Há uma razão simples para a mudança. Passaram três anos e Maria, 21 anos, e Júlia, 23, estão “um bocadinho mais old”.

Alfarroba é disco de banda inspirada, com marca autoral e identidade plenamente definida. É um álbum empolgante, tão juvenil e tão adulto quanto o rock’n’roll deve ser. “Mas há mais coisas a fazer”, dirá Maria Reis. Como por exemplo? “Ainda tenho de comprar um amp fixe”. Sim, há sempre coisas a fazer.