Eduardo Lourenço filmado a passear na sua própria cabeça

O Labirinto da Saudade, de Miguel Gonçalves Mendes, foi exibido nesta quarta-feira à noite na RTP1, chegou às salas esta quinta-feira e pode continuar a ser visto no RTP Play, assinalando os 95 anos de Eduardo Lourenço.

Miguel Gonçalves Mendes, O Labirinto da Saudade, José e Pilar
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Um grupo de amigos de Eduardo Lourenço, que incluiu Ramalho Eanes, José Carlos Vasconcelos, Pilar del Río e o general Luís Sequeira, decidiu promover a realização de um filme que celebrasse a vida e a obra do ensaísta, mas que funcionasse também como instrumento de divulgação do seu pensamento. O resultado é O Labirinto da Saudade, um filme de Miguel Gonçalves Mendes que a RTP1 exibe esta quarta-feira à noite, pelas 21h00, assinalado o 95.º aniversário de Eduardo Lourenço, e que chega no dia seguinte a várias salas do país.

Realizador de Autografia (2004), sobre Mário Cesariny, e de José e Pilar (2011), dedicado a Saramago e Pilar del Río, Miguel Gonçalves Mendes está habituado a trabalhar sem pressas. “Demorei três anos a fazer o filme do Cesariny, e com o Saramago foram quatro”, diz o cineasta. “Isto foi uma experiência completamente nova: teve de ser tudo filmado em 13 dias.” Uma das consequências de lidar com prazos apertados foi ter de alterar o seu método habitual de trabalho, que geralmente dispensa uma excessiva planificação prévia: “Aqui tive mesmo de escrever um argumento, porque tinha os dias contados.”

O filme abre com a voz off de Lourenço a explicar que nasceu a 23 de Maio de 1923, mas que só foi registado no dia 29. “De modo que estive seis dias fora do tempo, e assim fiquei sempre…”, conclui. E é de algum modo neste “fora do tempo” que vai decorrer a acção: Eduardo Lourenço parece dormitar na sua própria festa de aniversário, enquanto alguém interpreta Bach ao ar livre, e “acorda” num lugar onírico – filmado no palácio e na mata do Bussaco –, onde se vai cruzando, e dialogando, com figuras da cultura lusófona, de Lídia Jorge (que lhe passa, do outro mundo, uma chamada telefónica de Agostinho da Silva) a Gonçalo M. Tavares ou José Carlos de Vasconcelos, do psiquiatra Tiago Reis Marques ao astrofísico José Afonso, de Ricardo Araújo Pereira ao humorista brasileiro Gregorio Duvivier – que quer saber por que motivo o autor não incluiu a perda do Brasil entre os grandes traumas da História portuguesa inventariados n’O Labirinto da Saudade –, de José Ligna Nanafe, um especialista em história da escravatura que o confronta com os horrores da colonização portuguesa, a Álvaro Siza, candidato ao Óscar de melhor actor secundário pelo seu papel de barman-arquitecto interessado nas perplexidades da condição humana.

E falta ainda referir a provocadora sereia iberista a que Pilar del Río dá corpo, a cuja sedução este Ulisses mental português só resiste mercê de um estóico patriotismo. Ou os breves cameos de Ramalho Eanes e Jorge Sampaio. E, claro, a presença-ausência do fantasma que mais intensa e persistentemente assombrou a vida e a obra do protagonista deste filme: Fernando Pessoa. 

A opção de pôr Eduardo Lourenço – também ele deveras convincente na difícil tarefa de fazer de si próprio – a vaguear por salões e escadarias labirínticas enquanto vai pensando por sua conta a partir das interpelações de terceiros, comentando e aclarando as ideias que propôs há 40 anos n’O Labirinto da Saudade, mas também reflectindo sobre o Portugal de anos mais recentes ou a actual vaga populista que varre a Europa, não foi apenas um expediente astuto para a missão mais ou menos impossível de adaptar ao cinema um livro de ensaios. O próprio modo de pensar de Eduardo Lourenço – errante, dialógico, poético, paradoxal, enigmático – encontra aqui um eficaz equivalente visual.  

Mas este é também um filme sobre o devir do país que Lourenço sonda na sua Psicanálise mítica do destino português, subtítulo e ensaio inicial de O Labirinto da Saudade. E um dos problemas de Miguel Gonçalves Mendes era o de tornar inteligível, sobretudo para audiências estrangeiras, a sequência de momentos-chave da história portuguesa, muito distantes entre si, aos quais o ensaísta atribui uma dimensão traumática: a independência, a dominação filipina, o Ultimato inglês de 1890. E depois o salazarismo, a guerra colonial, o 25 de Abril, e todo o período que o livro de 1978 já não podia abarcar, do cavaquismo ao presente – uma dificuldade que o cineasta resolveu recorrendo a imagens do filme de animação Fado Lusitano (1995), de Abi Feijó, que criou ainda várias sequências novas, incluindo um divertido Cavaco Silva a fazer-se às auto-estradas em modo Velocidade Furiosa ou uma animação final ao estilo Monty Python Flying Circus, com Lourenço no labirinto da sua própria cabeça. 

E como o próprio homenageado assinala num belo texto integrado nos materiais de divulgação d’O Labirinto da Saudade, trata-se também de “uma espécie de requiem”, de uma despedida. “Somos seres nascidos para a morte, e, embora eu espere que o Eduardo Lourenço fique por cá muitos anos, não podemos ignorar que tem 95 anos”, diz o cineasta. Mas “a nossa própria morte é-nos tão hostil que nós nem em sonhos morremos”, argumenta o próprio Lourenço no final do filme, já ao balcão do Bar da Eternidade. E logo acrescenta: “Agora, a morte verdadeira é a do outro, a do outro que existiu para nós, que foi tudo para nós, que foi o absoluto para nós, e essa é que é a morte real.” E o espectador sente-se imediatamente transportado para uma das mais pungentes cenas iniciais, quando um Lourenço “a arrastar os pezinhos” (expressão dele) por um longo corredor fora e a queixar-se de que nunca se lembra onde põe as coisas, as chaves de casa, os papéis, se aproxima de uma fotografia emoldurada, que se adivinha ser do seu casamento com Annie Salomon, que perdeu em 2013, e pergunta: “Annie, onde estás?”