Entrevista

"Não estamos aqui para ensinar tecnologia, mas para perceber como pode ser útil no negócio”

Nem só do ensino da gestão se faz a Porto Business School. IT Management e Digital Business in Transformation são os dois programas que querem acompanhar a digitalização das empresas com o objectivo de ligar as novas tecnologias ao desenvolvimento do negócio.

A revolução digital, motor de transformação sócio-económica dos nossos dias, motivou a Porto Business School (PBS) a introduzir a inovação e a tecnologia no seu portefólio. “A inovação é dirigida pela tecnologia”, admite Ramón O’Callaghan, dean da PBS.

O salto para uma formação que integra a tecnologia é facilitado pelo ecossistema empresarial da PBS – que inclui gigantes como a Microsoft e a Samsung – e pelo contacto que mantém dentro da Universidade do Porto com instituições como a Faculdade de Engenharia, a Faculdade de Ciências e institutos de interface como o INESC TEC. “Grande parte do nosso corpo docente vem precisamente da Faculdade de Engenharia ou da Faculdade de Economia da Universidade do Porto”, diz José Faria, que  dirige a pós-graduação de IT Management com Carlos Vaz, também responsável pelo curso de curta duração Digital Business in Transformation. São programas que fogem aos tradicionais MBA e cursos para executivos e que pretendem aproximar mutuamente a gestão e a tecnologia.

A PBS é uma escola de empresas para empresas. Como é que se tenta manter a par da transformação digital das organizações?
Ramón O’Callaghan
? – Somos, sobretudo, uma escola de negócios, por isso não estamos aqui para ensinar tecnologia, mas para perceber como ela pode e deve ser usada nos negócios e o que os líderes das organizações devem fazer para criar valor através das novas tecnologias e alertar as empresas e a própria sociedade sobre as mudanças iminentes. Há dois anos começámos a introduzir mais cursos relacionados com a inovação.

José Faria – Convidamos as empresas e os profissionais a virem cá dizer o que estão a fazer, sobretudo os que desenvolvem um trabalho mais avançado [nesta área]. Temos docentes convidados das empresas que vêm dar um seminário ou que dão a própria disciplina e passam a sua experiência para colegas que a vão levar para outras empresas. Por outro lado, muitas vezes os projectos finais dos cursos leccionados são de aplicação em empresa, de forma a levar a empresa a reflectir sobre o caminho a seguir.

Qual a receptividade de cursos ligados às novas tecnologias em relação aos restantes programas?
JF
– Estes cursos [IT Management e Digital Business Transformation] estão na infância. A primeira edição do IT Management foi o ano passado, temos sinais de que as coisas estão a correr bem, mas daqui até podermos dizer que há aqui uma macrotendência… claro que nós acreditamos. Há uma preocupação em sair dos cursos tradicionais de gestão e começar a ter uma oferta formativa consistente em tecnologia que seja complementar.

CV – Praticamente em todas as pós-graduações e MBAs estamos a introduzir cadeiras de transformação digital. Nota-se também por aí que todas as restantes áreas estão a considerar que a tecnologia é fundamental. Há, inclusive, um chavão, que diz que “todos os negócios são negócios digitais”.

De que áreas são os profissionais que recorrem a este tipo de formação?
JF
– No caso do IT Management, procura ultrapassar um gap entre os profissionais de informática – que normalmente têm uma formação técnica – e os gestores que pensam o negócio. Muitas vezes, os gestores têm pouca sensibilidade para aquilo que a tecnologia lhes pode oferecer e quem conhece a tecnologia tem dificuldade em perceber o que é que o negócio pode ser. Este curso acaba por servir para profissionais de IT que sentem que precisam de adquirir uma melhor compreensão do negócio. Também temos gestores que já compreendem o negócio que não estão tão dentro da tecnologia.

CV – O Digital Business in Transformation é um programa de três dias orientado para os fenómenos da disrupção tecnológica, e procura compreendê-los. É muito heterogéneo, temos pessoas das áreas comerciais, gestão, tecnologias e até empresas a pedirem-nos formações só para elas. Trazemos a International Data Corporation (IDC), uma entidade que tem muita informação do mercado nacional e internacional e que permite perceber como estão as diferentes indústrias dentro da transformação digital, e, depois, averiguar como é que a nossa organização está mediante esse standard. Os alunos vão conseguir perceber onde estão e que acções podem tomar para que essa organização esteja mais digitalmente evoluída.

De que forma diferem as formações dirigidas a profissionais e empresas?
CV
– A formação para empresas é feita em conjunto e à medida. A base existe, mas sendo orientada para uma determinada organização, tentamos que seja perfeitamente adaptada.

ROC – A vantagem é que a organização nos traga um problema que pode ser trabalhado tendo o curso como plataforma. Às vezes trabalhamos projectos específicos que as empresas trazem, o que não seria possível num programa aberto em que toda a gente é um provável concorrente. Não se trata apenas de ensinar, mas de ajudar determinada organização a transformar-se. Num programa aberto, o participante vem, assiste às aulas, participa num conjunto de iniciativas e contacta com as empresas.

Os programas da escola vão ao encontro daquilo que as empresas procuram? De que forma?
JF
– Cada empresa vai ter de ser capaz de compreender o seu negócio, avaliar o que as novas tecnologias oferecem e fazer as suas apostas, sabendo que vai ter uma dose de risco muito elevada. Neste contexto, a PBS não vai criar as soluções, mas trabalhar com as empresas para ajudá-las a encontrar as suas próprias soluções. Podemos criar este conhecimento, partilhá-lo e criar, eventualmente, através da interacção, novo conhecimento. Mas não podemos ter uma receita [para o sucesso de uma empresa].

Procuram fomentar relações de proximidade com grandes tecnológicas e criar novas parcerias?
CV – A escola é uma conjugação entre a Universidade do Porto e 37 associados que são grandes empresas, por isso, à partida, isso está assegurado. Em relação à tecnologia, temos a Samsung ou a Microsoft, que nos está a apoiar também com a nossa transformação a nível de ferramentas. No curso de IT Management, temos docentes da IDC, da Deloitte ou da Sonae.

JF – Neste programa do IT Management, cerca de 50% do corpo docente vem da universidade e os outros 50% das empresas.

ROC – Não se tratam só de empresas tecnológicas, mas de empresas grandes utilizadoras de tecnologia e que podem ser uma inspiração para o que as restantes podem pôr em prática.

Numa entrevista, o professor Ramón defendeu que a “o futuro deve ser ambidextro na gestão, aliando o tradicional à inovação”. É para a PBS importante trabalhar tanto as hard skills como as soft skills dos formandos?
ROC
– A ideia de ser ambidextro traduz-se em ter um pé no presente e o outro no futuro e ter a capacidade de equilibrá-los. As culturas de dia-a-dia e inovação são completamente diferentes. A primeira trata de ser eficiente e optimizar [os recursos que temos]. A inovação relaciona-se com visão, experimentação, criatividade, a possibilidade de tomar riscos que ponham em causa os modelos de negócio existentes. No futuro, muita gente terá empregos que hoje não existem e é nosso dever tentar entender o que vem aí.

A PBS está classificada entre as melhores 95 escolas de negócios do mundo. De que forma o investimento na área das tecnologias contribui para este posicionamento no ranking?
ROC
– O ranking não olha a isso de forma directa. Não nos perguntam sobre os investimentos na tecnologia ou se estamos a ensinar tecnologia. No caso dos programas para executivos, tem a ver com um inquérito de satisfação com várias questões. Uma delas tem a ver com a relevância, se a pessoa está a aplicar os conhecimentos que adquiriu aqui no seu negócio. Se o que nós ensinamos não é relevante para as empresas, não recomendam a escola nem voltam.

A formação para executivos mais centrada na tecnologia pode vir a ser uma tendência no ensino superior nacional? Que impacto a dinâmica empresarial pode ter na procura e oferta nas instituições de ensino superior?
CV
– Começa-se a falar muito no reskilling, um termo que diz respeito a pessoas que, face a tão grandes mudanças, vão para determinados cursos que infelizmente não têm mercado e depois fazem a reconversão. Há uma culpa grande das instituições, dos governos e do Estado que não alertam as pessoas para o seu futuro. Há uma grande iniciativa de reskilling de pessoas que vêm de outras áreas, mas que têm também a vantagem de ir buscar essas competências, seja filosofia, artes ou design.

JF – Não é vocação das escolas de gestão ensinar tecnologia. Podemos é tentar perceber de que forma é que a tecnologia pode ser útil para o desenvolvimento de um negócio. Vai ser uma tendência absolutamente decisiva nas escolas de gestão, porque cada vez mais a tecnologia é um pilar fundamental no desenvolvimento de qualquer estratégia de negócio.

ROC – Os líderes das organizações precisam de gerir a mudança. A tecnologia é a impulsionadora da mudança. É impossível ignorá-la por definição.