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Luís Ermida tem 23 anos e estuda Ciência Política e Relações Internacionais, com especial pendor para Geopolítica

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“Rocket Man” e a jogada de uma vida

Se me dissessem, a 28 de Novembro de 2017, que o líder norte-coreano iniciaria conversas de paz com a vizinha do Sul e com a sua congénere norte-americana, procurando um acordo para colocar fim à Guerra da Coreia (ainda em vigor, apesar do Armistício de 1953), a minha resposta resumir-se-ia a um misto de sarcasmo e apreensão

Os relógios do mundo caminham vertiginosamente para a meia-noite, à medida que se observa o desenrolar de eventos de origem antropogénica potencialmente perniciosos para o planeta tal qual como o conhecemos.

No entanto, e à luz das mais recentes notícias da Coreia do Norte, rapidamente se gerou uma maré de optimismo: o que se sucederia, por via da paz e desnuclearização, seria um afastamento afirmativo e certo da tão malograda "meia-noite”, simbólica da maciça destruição do planeta às mãos do próprio ser humano.

Contudo, estes sinais de cooperação nada mais são do que uma ardilosa estratégia norte-coreana, fruto de um trabalho de fundo de uma potência que, mesmo estando isolada, compreende melhor do que ninguém que os obreiros de tantos outros regime changes começam a apertar o cerco à dinastia Kim.

A 28 de Novembro de 2017, data do famoso teste da bomba Hwasong-15, assistimos à concretização do arquétipo freudiano de um Kim Jong-Un prepotente, infantil e provocador. Tudo parecia já apontar para uma dinâmica de "corrida ao armamento" passível de ditar o pior dilema de segurança desde a Guerra Fria.

Se me dissessem então que o líder norte-coreano iniciaria conversas de paz com a vizinha do Sul e com a sua congénere norte-americana, procurando um acordo para colocar fim à Guerra da Coreia (ainda em vigor, apesar do Armistício de 1953), a minha resposta resumir-se-ia a um misto de sarcasmo e apreensão.

Sarcasmo porque, afinal de contas, o mundo em que se verificaram as últimas conversações já não existe. O clima incendiário verificado nos últimos anos entre a Coreia de Kim e o Ocidente é talvez o mais tenso desde o Armistício, e indicia uma era de maior incerteza à escala global. Uma temerosa e acelerada aproximação da tão temida meia-noite. Apreensão, uma vez que seria sinónimo de que aquele homem, ditador a quem se apelidou de louco, afinal tem um plano.

Kim Jong-Un prepara-se, à luz deste plano — tão fantástico nas suas ambições quanto dinástico nas suas origens —, ignorando as necessidades de um povo trucidado, para dar um importante passo: o de ludibriar para conquistar. Conquistar o tempo que tanto precisa para se perpetuar no poder.

Como é do conhecimento geral, o país que Kim Jong-Un herdou em 2011 é deficitário em muitos aspectos, constituindo uma utopia estalinista falhada: desde a selvagem repressão política à dependência energética, passando pela fome e pobreza extrema.

Acresce a estas fragilidades a estratégia de containment americano na região, contrabalançado por uma China em expansionismo geopolítico pela via comercial. Num cenário de "Armadilha de Tucídides", a Coreia do Norte vê-se como zona de amortecimento chinesa face à estratégia americana.

Simultaneamente, é pressionada pelo vislumbre de um Sul "abençoado" por desenvolvimento e riqueza que a todo o custo deverão ser branqueados sob pena de rebelião e fim do regime.

Neste cenário, a liderança do "imaturo" Kim Jong-Un revelou-se afirmativa e coerente: soube exactamente os recursos e opções que tinha ao seu dispor e tirou o máximo partido das circunstâncias, apostando no factor surpresa.

Não nos iludamos nem por um momento: o "outro lado", aquele por de trás da cortina de fumo negro de uma guerra que nunca chegou a terminar, sabe exactamente o que está a fazer.

Andrei Lankov, especialista em política coreana, teve a aquiescência de desconstruir, muito antes do que qualquer outro think tank ou "iluminado" em assuntos internacionais, a estratégia norte-coreana. Refere Lankov que, desde o início da dinastia Kim, se observa um padrão de acções de alcance geopolítico em tempos de crise, ao género de um "manual de emergência de Estado" que ciclicamente se repetiria sempre que estivesse em causa a sobrevivência do regime.

Se somarmos a aprovação da China ao agravamento de sanções à Coreia de Kim, a intenção de levar ao recuo das tropas americanas, uma predisposição, por parte do Presidente Moon Jae-In, para o diálogo e cooperação com vista a uma potencial reunificação e, a tudo isto adicionarmos o potencial económico de um entendimento com o Ocidente, percebemos como 28 de Novembro pode ter sido um dos dias mais felizes da vida de Kim.

Aprendeu a lição de Saddam e Khadafi e nunca se colocou em posição de vulnerabilidade, enquanto reforça o seu capital político dentro de portas. O objectivo foi alcançado e ele sabe-o: Hwasong-15 foi o "seguro de vida" perfeito para Kim e para o seu regime. Foi a jogada de uma vida que poderá começar a dar frutos.

Assim sendo, sigamos cautelosamente o desenrolar dos acontecimentos. Não nos apressemos a congratular a diplomacia americana (ou o que resta dela) por uma vitória que não foi sua. E não entremos na mesa de negociações com precipitações, com ânsias de mostrar ao mundo o nosso poder e força negociais, porque o oponente, a sua argúcia e a sua astúcia não podem ser subestimados.

A vida e estabilidade que hoje vivemos poderá estar em causa a partir de 12 de Junho. O relógio que freneticamente se aproxima da meia-noite não conta apenas para Kim ou Trump, conta para todos nós.