Ferramentas de madeira descobertas em Espanha eram de neandertais

Instrumentos encontrados no País Basco têm cerca de 90.000 anos. Em Itália, há pouco tempo, também se encontraram ferramentas de madeira com cerca de 170 mil anos.

Ferramentas encontradas no sítio arqueológico de Aranbaltza, em Espanha
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Ferramentas encontradas no sítio arqueológico de Aranbaltza, em Espanha Joseba Rios-Garaizar

Não é muito frequente encontrarem-se na Europa ferramentas de madeira associadas aos neandertais. Mas, nos últimos tempos, anunciaram-se duas descobertas de instrumentos deste género. Uma no sítio arqueológico de Aranbaltza, no País Basco (Espanha), onde se descobriram duas ferramentas de madeira com cerca de 90.000 anos. Antes, em Fevereiro, cientistas italianos também revelaram que tinham encontrado quase 40 instrumentos de madeira com cerca de 171 mil anos em Poggetti Vecchi, na região da Toscânia, Itália. Devido à idade destas ferramentas e aos sítios onde foram achados, pensa-se que pertenciam a neandertais, humanos que surgiram na Europa e no Médio Oriente há cerca de 400 mil anos e desapareceram há 28 mil.

As últimas duas ferramentas, apresentadas na revista científica Plos One foram encontradas em escavações em 2015, lideradas por Joseba Rios, do Centro Nacional de Investigação sobre Evolução Humana (CENIEH), em Espanha. Essas duas peças estão bem preservadas (uma tem cerca de 15 centímetros de comprimento) e foram feitas com madeira de teixo (Taxus baccata). “O teixo é muito apreciado no trabalho em madeira porque é forte, flexível e resistente ao apodrecimento”, lê-se no artigo científico.

Para perceberem como esses instrumentos tinham sido construídos, usou-se a técnica de microtomografia. Viu-se assim que o tronco de teixo foi cortado de forma longitudinal em duas metades e que uma dessas metades foi raspada com um instrumento de pedra e tratada com fogo para que (depois de endurecer e ser raspada) ficasse pontiaguda. Devido a essa forma, pensa-se que seriam usadas para procurar comida ou fazer buracos no solo.

Já através da datação por luminescência, percebeu-se que estas duas ferramentas têm cerca de 90.000 anos e, portanto, seriam de neandertais. Nessa altura, a nossa própria espécie (humanos modernos), saída de África, ainda não tinha chegado à Europa.

“A preservação de ferramentas de madeira associadas aos neandertais é muito rara porque a madeira degrada-se muito depressa. Apenas em ambientes muito específicos, como os sedimentos cobertos de água em Aranbaltza, tem sido possível descobrir provas da tecnologia de madeira”, refere um comunicado do CENIEH. “Como se sugere de forma indirecta, este tipo de tecnologia era revelante na vida diária dos neandertais.”

Um elefante entre a madeira

Já a descoberta das ferramentas de madeira em Itália aconteceu em 2012. Nessa altura, faziam-se escavações para a construção de piscinas termais em Poggetti Vecchi e houve uma surpresa: apareceram várias ferramentas com 171 mil anos junto ao fóssil de um elefante já extinto, o Palaeoloxodon antiquus.

Ao todo, foram 39 os objectos identificados como ferramentas feitas por humanos naquele sítio, segundo Biancamaria Aranguren, arqueóloga do Ministério dos Bens e da Actividade Cultural e do Turismo (Itália) e principal autora do artigo científico publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), que acrescenta que se encontraram ainda outros vestígios de madeira no local.  

Estas ferramentas têm entre um metro e 1,20 metros e, se nos cabos eram arredondadas, nas extremidades eram afiadas. Praticamente todas foram fabricadas com buxo (Buxus sempervirens), uma planta da família das buxáceas. “Provavelmente, o buxo é a madeira mais pesada, dura e forte entre a madeira europeia”, lê-se no artigo. Também havia vestígios de madeira de outras espécies de plantas na escavação.

Para fazer estas ferramentas, seleccionavam-se ramos do buxo, removiam-se as ramificações laterais e usava-se o fogo para facilitar a remoção da casca exterior queimada. Por fim, faziam-se as extremidades e os cabos com pedras abrasivas. “Eram ferramentas polivalentes, usadas não só para colher plantas e como pilão, mas também para a caça miúda [de pequenas espécies]”, considera Biancamaria Aranguren. E frisa: “Poggetti Vecchi oferece uma das primeiras provas da pirotecnia no fabrico de ferramentas de madeira, dando-nos um novo conhecimento no comportamento e nas capacidades dos primeiros neandertais rumo à modernidade humana.”

Na altura do anúncio da descoberta em Itália, alguns cientistas duvidaram que essas ferramentas pertencessem a neandertais, como se pode ler numa notícia no site da revista Science. “Não há ossos humanos associados a estes paus e ferramentas, então como é que podemos saber que eram de neandertais?”, afirmou Shara Bailey, paleoantropóloga da Universidade de Nova Iorque (EUA) e que não esteve envolvida no estudo. Também Erich Fisher, arqueólogo da Universidade Estadual do Arizona, nos EUA, disse que era necessário saber mais sobre o contexto em que estas ferramentas foram encontradas, assim como a sua relação com o fóssil do elefante extinto.

Na Europa, além de Aranbaltza e Poggetti Vecchi, considera-se que foram descobertas ferramentas de madeira associadas aos neandertais ou pré-neandertais em mais quatro sítios, segundo um comunicado do CENIEH: Abric Romaní (Espanha), Clacton-on-Sea (Inglaterra), Schöningen e Lehringen (ambas na Alemanha). As duas novas descobertas são assim mais um elemento para o estudo do uso da madeira e da tecnologia associada aos neandertais.