Opinião

Uma Itália à moda de Putin e Trump?

O “contrato de governo” firmado entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga anuncia o governo italiano “mais à direita e mais nacionalista” desde 1945. E também eurocéptico. Nas negociações, Matteo Salvini e a Liga impuseram os traços fundamentais do programa que, na segunda-feira, vai ser apresentado ao Presidente Sergio Mattarella. É uma aliança muito instável.

A Itália prepara-se para inaugurar o Governo mais à direita e mais nacionalista, securitário, xenófobo e identitário desde 1945, resume Francesco Cancellato, director do diário digital Linkiesta. O “contrato de governo” entre o Movimento 5 Estrelas (M5S) e a Liga aponta uma expulsão maciça de imigrantes. E tem implícita uma “desconstrução da UE, para a refazer”, tal como uma viragem na política externa: insinua-se, sem o assumir, uma aliança privilegiada com os EUA e a Rússia, para “salvar a Itália da Alemanha”. Pôs em causa a permanência no euro — fazendo a seguir uma retirada não muito convincente. “Italexit is back”, adverte o Politico Europe, citando um economista italiano.

O M5S impôs a sua proposta do “rendimento de cidadania”, enquanto a Liga impôs um modelo fiscal (flat tax) que, à imagem do de Trump, favorece as classes altas. O programa económico é tido como insustentável.

Matteo Salvini, líder da Liga, com um posicionamento político análogo ao de Marine Le Pen em França, quer assumir o controlo de todos as aparelhos de segurança do Estado. Tem em mente uma política extremamente securitária, não só em termos policiais e judiciais, mas alargada ao “direito de legítima defesa” e ao uso de armas privadas.

Que faz o “hiperdemocrático” Movimento 5 Estrelas, de Luigi di Maio? Responde no La Stampa o politólogo Giovanni Orsina com um simples título: “M5S, cai a máscara moderada.” Da antipolítica, nasceu “uma perfeita máquina eleitoral” e um “perfeito mecanismo de poder”.

O psicodrama não acabou. Na segunda-feira, Salvini e Di Maio serão recebidos pelo Presidente Sergio Mattarella (na foto), a quem cabe nomear o primeiro-ministro e ser garante da Constituição. Que fará? Há duas semanas lançou um aviso sobre os riscos do soberanismo. Mas sabe que maioria dos eleitores é favorável ao Governo dos “dois vencedores”.

Como se chegou aqui

Devemos evitar juízos apocalípticos sobre a Itália, que abusa da retórica e gosta de se descrever como “à beira do abismo”. Mas é também um laboratório político que muitas vezes faz antever as tendências europeias. A viragem política não é um mero epifenómeno. Foram os italianos que a ditaram, conscientemente.

Escutemos um homem do Governo, o subsecretário de Estado Antonello Giacomelli: “O filão eurocéptico, crítico ou mesmo hostil em relação à Europa, atravessa a sociedade italiana (mas só a italiana?), desde há muito e de modo crescente. O tema da Europa, de certo modo relacionado com o dos imigrantes, foi o que provavelmente decidiu o resultado eleitoral. Que essa era a linha dos populistas e soberanistas, era visível para todos.”

De onde vem a viragem? Após as eleições de 2013 e o sucesso do M5S, com 25% dos votos, o Partido Democrático (PD), de Matteo Renzi, e a Força Itália (FI), de Silvio Berlusconi, tentaram reconstruir o bipolarismo tradicional: centro--esquerda contra centro-direita. Por isso colaboraram durante dois anos. Mas a eleição de Mattarella provocou a ruptura entre o PD e Berlusconi, o que levará à derrota de Renzi no referendo constitucional de Dezembro de 2016.

O objectivo de Renzi era “esvaziar” o Cinco Estrelas. O de Berlusconi manter a hegemonia do centro-direita, com a Liga como aliado menor. Com 40% dos votos nas eleições europeias de 2014, o PD parecia ter ganho a aposta. Mas, após o referendo, começa a declinar e acabará, inclusive, por perder para o M5S o estatuto de primeiro partido. E Berlusconi, mesmo inelegível, torna-se no árbitro da política italiana: não podia haver coligações sem o seu acordo.

Reemerge entretanto o fenómeno Liga. Salvini é eleito líder em fins de 2013. Adopta uma linha “lepenista” e “sai do Norte” para fazer um partido nacional. Cresce nas eleições regionais, atraindo parte do eleitorado de Berlusconi. Depois, há um factor decisivo: é Salvini quem melhor explora a crise da imigração. O eleitorado da FI é particularmente sensível ao tema da imigração e por isso premiou Salvini.

Hoje, a FI está reduzida a 10% do eleitorado. E Salvini sai reforçado da negociação com o M5S. É visto nas sondagens como “coerente” e, desde 4 de Maço, a Liga passou de 17% dos votos para 25,4% das intenções de voto. Ao contrário, Di Maio é penalizado: negociou com a Liga, falhou, quis dialogar com o PD, para voltar a cair nos braços de Salvini. A leitura do “contrato de governo” indica que este terá sido o grande ganhador do processo. Di Maio fez demasiadas concessões, o que incomodará parte do M5S.

Incompatibilidades

O cimento da colaboração entre o M5S e a Liga é simples: o acesso ao poder. Se o eurocepticismo os une – tal como a simpatia que Beppe Grillo e Salvini partilham em relação a Vladimir Putin — muita coisa os separa. Quando se definiam como “anti-sistema”, não o faziam no mesmo registo nem com os mesmos temas.

“A Liga é um partido de direita que encontrou o melhor habitat numa coligação [com a FI] em que a transformação nacionalista do partido que garantiu o aumento dos votos”, escreve no Formiche net o analista Benedetto Ippolito. “O M5S, ao contrário, é um partido-movimento, virtual e sem tradição.” E não é nacionalista. Um domina no Norte, o outro ganhou o Sul. Reflectem a divisão geográfica e cultural da Itália, o que é complicado.

O quadro partidário mudou e o interesse dos “dois vencedores” é transformar a sua passagem por um Governo comum numa futura disputa bipolar — mas entre eles, eliminando os “velhos partidos” e atrasando a reemergência do “centro” político. Mas será um quadro instável. Estão, de facto, em competição duas direitas. A direita “pós-moderna” ou “pós-ideológica” de Di Maio e a “direita lepenista” de Salvini dificilmente constituirão um espaço maioritário.

Há um problema adicional no que diz respeito à M5S. Di Maio é o “chefe político”, mas não é o líder. Este papel cabe a Daniele Casaleggio, o “proprietário” da plataforma digital Rousseau, que detém o controlo absoluto do movimento. A passagem de movimento a partido vai impor mudanças. Também o modelo “hiperdemocrático” não parece adequado ao exercício do poder. Este modelo foi, aliás, desmentido no processo de negociação. Os adeptos limitam-se a “ratificar” um acordo negociado nos bastidores e quase em segredo. E só conheceram o “contrato” por uma fuga de informação na imprensa.

O futuro da coligação pode ser menos radioso do que hoje mostra. Importa, enfim, não esquecer que o sistema político e a burocracia estatal têm uma extraordinária capacidade de inércia. Renzi poderia contar o que lhe aconteceu quando quis fazer reformas aceleradas. Tudo isto aconselha algum cepticismo.