No In Spiritum, o património do centro histórico do Porto ganha música

A quarta edição do festival começa este sábado. Até quarta-feira, Jordi Savall, Jed Barahal ou o Grupo Vocal Olisipo actuarão em espaços como o Café Astória, a Casa do Infante ou o Salão Árabe do Palácio da Bolsa

O catalão Jordi Savall, com a sua ponte entre Ocidente e Oriente, é um dos destaques do festival
Foto
O catalão Jordi Savall, com a sua ponte entre Ocidente e Oriente, é um dos destaques do festival Enric Vives-Rubio

Unir o património do centro histórico do Porto, Património da Humanidade, à música e à História que ele reflecte. É esse o objectivo do In Spiritum – Festival de Música do Porto, cuja quarta edição, com direcção artística do maestro Cesário Costa, decorre entre este sábado e a próxima quarta-feira. O Café Astória, a Casa do Infante ou o Salão Árabe do Palácio da Bolsa acolherão Jordi Savall e o seu Hespèrion XXI, Jed Barahal ou o Grupo Vocal Olisipo — serão eles os intérpretes do diálogo entre os espaços e a música e o tempo que eles evocam.

A abertura acontece no Astória, um dos cafés históricos da cidade, fundado em 1932. Será ali que os alunos da curso de Música Antiga da Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (ESMAE) interpretarão, com direcção musical de Pedro Sousa Silva, a Cantata do Café de Bach, encomendada ao mestre do barroco pelo proprietário do Café Zimmerman, inaugurado em 1715 em Leipzig, centro boémio e artístico pioneiro na vivência daqueles espaços de convívio e de lazer, de profícuo debate de ideias e tertúlia. O Café Zimmerman teve como agrupamento residente o Collegium Musicum, que chegou a ser dirigido por Johann Sebastian Bach. Noutro século, noutro país, outro café com História, o Astoria, será cenário para ouvir, às 17h30 deste sábado, a composição que Bach dedicou à bebida omnipresente no nosso quotidiano.

No mesmo dia, mas à noite (21h30), recuaremos no tempo. Na Casa do Infante, erigida em 1325 e assim baptizada por ali ter nascido, 69 anos depois, o Infante D. Henrique, o Grupo Vocal Olisipo, fundado em 1988 e dirigido por Armando Possante, irá transportar-nos para o século que viu nascer o edifício, através da Missa de Notre Dame, de Guillaume de Machaut, composta entre 1360 e 1365.

O festival encerrará na terça e na quarta-feira com duas actuações de Jed Barahal, violoncelista americano radicado em Portugal há três décadas, naquilo que será simultaneamente uma homenagem a Guilhermina Suggia (Barahal tocará num violoncelo Montagnana que pertenceu à virtuosa música portuguesa) e um regresso a Bach (no primeiro concerto serão interpretadas as suas 1ª, 3ª e 5ª suites para violoncelo; no segundo, as nº2, 4 e 6). Ambas terão lugar às 21h30 no Salão Nobre da Câmara Municipal do Porto.

Antes, na segunda-feira, o In Spiritum contará com a presença do consagrado Jordi Savall. Às 21h30, no Salão Árabe da Bolsa, o maestro catalão, grande investigador de música antiga, apresentará com o Hespèrion XXI, que fundou com Montserrat Figueras em 1974, um concerto que será ponte e diálogo entre Ocidente e Oriente. A apresentação tem por título Um Diálogo das Almas, e com Savall estarão dois músicos sírios, Waed Boudassoun e Moslem Rahal, e o grego Dimitris Psonis.

Tal como na abertura, para domingo estão programados dois concertos. Às 12h, o Quarteto de Cordas da ESMAE apresenta Lucien Lambert e a música francesa na viragem do século XIX. Às 17h30, os Solistas da Orquestra Bontempo viajarão à Belle Époque, interpretando um repertório composto pelas músicas de salão que, nas primeiras décadas do século XX, animavam o mesmo Ateneu Comercial do Porto que acolhe o concerto.