António Costa no Parque das Nações 20 anos depois

“É preciso descolonizar os Descobrimentos”

António Costa confessa que gostaria de ser ele a fazer o Museu da Descoberta. “Seria um bom projecto para a minha reforma, que está muito longe de acontecer”, ri-se.

Arquitetura, iluminação natural, casa
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Miguel Manso

Talvez fosse mais verdadeiro, porque mais próximo de conseguir fazer a síntese do pensamento de António Costa, termos usado a frase que se segue para titular este bloco da entrevista dedicado ao polémico projecto do Museu da Descoberta: “Não temos de ter uma relação complexada com os Descobrimentos.” Mas optámos pelo que encima estas perguntas porque não deixa de ser uma estreia um primeiro-ministro português dizer que “é preciso descolonizar os Descobrimentos”, afirmando-se como um político que demonstra estar consciente do pensamento crítico que foi sendo produzido nas últimas décadas sobre as experiências coloniais.

Já com as câmaras desligadas no exterior do Pavilhão do Conhecimento, onde esta entrevista foi feita no dia 11, António Costa confessou que gostaria de ser ele a fazer o Museu da Descoberta. “Seria um bom projecto para a minha reforma, que está muito longe de acontecer”, ri-se. Um museu sobre o encontro com os outros, sobre o qual chegou a ter “muitas” discussões na Câmara de Lisboa. E sobre o seu lado negativo, como a escravatura, o que é que é preciso dizer? “Também faz parte da nossa História e não pode, não tem como e não deve ser ignorada.”

Ao contrário da Expo de Sevilha, a Expo ’98 não foi directamente sobre os Descobrimentos, mas sobre os oceanos e o futuro. Também não havia nenhum pavilhão dedicado a Vasco da Gama, na altura em que se comemoravam os 500 anos da descoberta do Caminho Marítimo para a Índia. Como vê toda esta polémica à volta do futuro Museu da Descoberta?
São duas questões. A Expo não teve nenhum pavilhão dedicado ao Vasco da Gama, mas não escondeu o Vasco da Gama. Acho que teve sempre a inteligência de apresentar essa narrativa da navegação como uma narrativa de encontro. Havia aquele filme lindíssimo de animação no Pavilhão de Portugal em que a descoberta, aliás, era feita pelo outro lado, era o japonês que descobria o ocidental que lá ia pela primeira vez.

Mas acho que há aqui várias coisas. Nós não devemos ter o complexo, mas o orgulho de conseguir tratar em Portugal aquele que foi o período da História em que indiscutivelmente demos o nosso maior contributo enquanto nação para o mundo. Esse processo histórico prolonga-se ainda hoje de cada vez que a língua portuguesa é falada e utilizada, como uma grande ponte que se estende do Brasil a Timor. Descobrimos imenso da nossa língua de cada vez que ouvimos uma telenovela brasileira.

Acha que é preciso ter cuidado com os termos “descobertas” e “descobrimentos”, como defendem alguns historiadores?
Nós temos de descolonizar a expressão Descobrimentos. O que consta do programa da Câmara Municipal de Lisboa não é nenhum Museu das Descobertas. É o Museu da Descoberta.

Por que é que é preciso descolonizar a palavra “descobrimentos”?
Porque esse processo histórico não foi unilateral — descobrimo-nos uns aos outros. Isso era muito bem mostrado nesse filme do Pavilhão de Portugal.

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Acha que a sua origem goesa lhe dá uma sensibilidade acrescida em relação ao tema, no sentido em que a chegada do Gama ao Índico também pode contar outras histórias menos gloriosas?
Não sei se me dá uma sensibilidade particular, mas coloca-me seguramente como um dos maiores beneficiários dessa viagem [risos]. Porque, com grande probabilidade, se o Gama não tivesse ido à Índia o meu pai não tinha vindo estudar para Lisboa e, não tendo vindo estudar para Lisboa, não tinha encontrado a minha mãe e eu muito provavelmente não estava aqui.

Sente-se a viver entre duas culturas?
A narrativa que eu acho que é importante para nós e para quem nos visita é, em primeiro lugar, o conjunto de descobertas científicas acumulado que permitiu as navegações. Essa dimensão permitiu que não fosse uma aventura, mas um projecto devidamente organizado e pensado com base no conhecimento. Depois, aquilo que se descobriu na própria viagem: o que se descobriu quando chegámos lá e o que descobriram os que nós encontrámos lá. A humanidade [acumulou] conhecimentos de flora, de fauna, de geografia, da astronomia, dos povos, das línguas, como nunca tinha acontecido até então.

Quando digo que quero descolonizar é porque acho que não faz sentido hoje fazer um museu que seja a versão do século XXI da Exposição do Mundo Português. Mas acho que não temos de ter uma relação complexada, quer com aquilo que de positivo trouxeram, quer com os momentos horríveis que houve, como a escravatura, como os massacres, como todo o período da Guerra Colonial.

Talvez eu tenha uma visão atípica, mas choca-me tanto alguma visão complexada sobre esse processo de colonização como a resistência ao Acordo Ortográfico. Como se fôssemos proprietários exclusivos de uma língua que hoje felizmente é partilhada por 280 milhões de pessoas.

Acha que essa reflexão sobre a escravatura, que no fundo é o subtexto que está nas preocupações de alguns historiadores, faz parte do mesmo museu?
Eu por acaso tive o cuidado de ler o programa do [presidente da Câmara de Lisboa] Fernando Medina e ele até tem expressamente na ideia do dito museu uma referência à escravatura. Acho que há um enorme equívoco nesse debate.

Mas esse debate está por aí, com algumas variantes...
Sim, está por aí. Muitos estrangeiros que vem cá perguntam: “Sobre as vossas navegações o que é que podemos ver?”. “Bom, está ali o Padrão dos Descobrimentos”... É pouco. É como ir aos EUA e não haver um museu do espaço. É estranho.

Por isso, é preciso criar um Museu dos Descobrimentos?
Se fosse eu a baptizar, diria “da Descoberta”.

O singular aponta para outras coisas?
A descoberta contém tudo. Quer aquilo que nós descobrimos, quer aquilo que os outros descobriram em nós. Mas não fazia sentido para um país que teve sempre uma visão universalista da sua própria História ter uma leitura passadista, anacrónica, como se fosse uma Exposição do Mundo Português no século XXI. É muito engraçado ouvir os brasileiros…

… os brasileiros estão a discutir o Museu da Escravatura no Rio de Janeiro...
A escravatura foi um momento da construção do Brasil, é impossível ser ignorada. Como também faz parte da nossa História e não pode, não tem como e não deve ser ignorada. É também relativamente estranha a forma como olhamos para o fenómeno das guerras coloniais. Temos de ter uma visão descomplexada da nossa História como os outros tendem a ter.

Como é que as pessoas definem hoje a sua identidade: fazem-no mais através das cidades em que vivem ou dos países a que pertencem? É um lisboeta do Príncipe Real [onde passou a infância e adolescência]? Há pouco estava a tentar perguntar se se sentia a viver entre duas culturas...
Depende dos países. Acho que em Portugal ainda nos definimos mais pelo país do que pelas cidades. As migrações internas são todas muito recentes.

Mas estava a falar de si, do António Costa...
Se me pergunta se me sinto mais lisboeta, sim... Vivi aqui toda a vida, fui oito anos presidente da câmara. Mas isso não faz com que não me sinta português quando estou em Viana do Castelo, nas festas da Senhora da Agonia...

Mas sentiu-se alguma vez a viver entre duas culturas, a do seu pai, mais ligada a Goa, e a da sua mãe, mais portuguesa?
O meu pai vem de uma família brâmane católica, que é outra originalidade goesa. Gostava de fumar bidis, gostava da comida indiana, mas era verdadeiramente ocidental. Muito dessas famílias católicas, desse extracto social, não se sentiam indianas na sua existência. Isso faz parte da diversidade da própria Índia.