Espólio de Orlando da Costa reunido no Museu do Neo-Realismo

Primeiro-ministro e irmão vão doar mais 850 documentos do escritor à instituição, que comemora o seu nono aniversário este mês.

MARTA VITORINO
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MARTA VITORINO

António Costa estará de visita ao Museu do Neo-Realismo (MNR) de Vila Franca de Xira esta terça-feira para aí celebrar, juntamente com o seu irmão Ricardo Costa, um acordo de entrega de mais de 850 documentos que pertenceram ao seu pai, o escritor Orlando da Costa (1929-2006), e que vão incorporar o acervo do Centro de Documentação da instituição.

A cerimónia insere-se nas comemorações do nono Aniversário do MNR, que se assume como a instituição nacional de referência para o estudo e a conservação dos materiais deste movimento artístico e literário que marcou uma boa parte do século XX. Da sua colecção, a que se juntam agora os acervos de Orlando da Costa, Mário Braga e Mário Sacramento, constam já os espólios de perto de 40 dos mais significativos autores portugueses neo-realistas – entre eles os de Alves Redol (uma parte), Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira e Joaquim Namorado.

No caso de Orlando da Costa, trata-se da segunda entrega (já foi doada uma primeira parte do espólio), que contempla 799 monografias, 35 publicações periódicas e 29 documentos. De acordo com o contrato que vai ser celebrado entre o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira e os herdeiros de Orlando da Costa (os filhos António e Ricardo), esta segunda parcela do espólio está avaliada em 30.965 euros e encontra-se em bom estado de conservação.

Os filhos de Orlando da Costa manifestaram o desejo de, com esta doação, “contribuírem para a sua preservação, conservação, investigação e divulgação no âmbito das práticas culturais” do MNR e do município de Vila Franca de Xira. No entender dos técnicos do MNR, esta segunda parcela do espólio literário de Orlando da Costa vem “enriquecer” o acervo documental do museu e “constitui uma mais-valia pelo contexto temático, epocal e autoral que as obras doadas representam no âmbito do movimento neo-realista português”.               

Orlando da Costa nasceu em Lourenço Marques (Moçambique) em 1929. De ascendência goesa, completou a licenciatura em ciências histórico-filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa e começou a publicar logo depois, em 1951. Envolveu-se na luta contra o Estado Novo, foi militante do PCP e chegou a ser detido pelo PIDE. No ano em que nasceu António Costa, 1961, publicou também o seu primeiro romance, intitulado O Signo da Ira. Todos os exemplares  desta obra foram, então, apreendidos pela PIDE, tal como já tinha acontecido aos seus três livros de poesia anteriores. Orlando da Costa foi mesmo o sétimo escritor português com mais livros proibidos pela polícia política do Salazarismo.

O parecer negativo da PIDE impediu-o também de dar aulas, como pretendia, e dedicou-se à publicidade, actividade em que conseguiu bastante sucesso. Paralelemente, continuou a escrever, desdobrando-se entre a ficção, a poesia e o teatro. Entre outros, recebeu o Prémio Ricardo Malheiros (pelo conjunto da sua obra) atribuído pela Academia de Ciências de Lisboa e o Prémio Eça de Queiroz, atribuído pela Câmara de Lisboa, pelo romance Os Netos de Norton (1994).         

O nono aniversário do Museu do Neo-Realismo está a ser comemorado ao longo do mês de Outubro, com um programa que inclui a projecção de filmes, actividades para alunos das escolas locais, espectáculos e um colóquio sobre Fernando Lopes Graça.