Macron refreia alargamento aos Balcãs, Tusk mantém as esperanças

A frente unida que os líderes europeus mostraram em Sófia para responder a Trump desfez-se na discussão sobre a adesão dos países dos Balcãs. "Não podemos ser laxistas ou hipócritas", disse Macron, que aconselhou rigor e prudência.

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Angela Merkel com o primeiro-ministro da Bulgária e os presidentes do Kosovo e da Sérvia Vassil Donev/REUTERS
Sašo Mijalkov, Barysaw
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Emmanuel Macron com o primeiro-ministro búlgaro, Boyjo Borissov SZILARD KOSZTICSAK/EPA

A mensagem de unidade e determinação manifestada pelos líderes europeus em Sófia na resposta colectiva às decisões do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu mostras de fragilidade no tema que levou os 28 chefes de Estado e de Governo à capital búlgara: a perspectiva de um novo alargamento da União Europeia, para integrar os seis países dos Balcãs Ocidentais que há muito aguardam a oportunidade aderir ao bloco.

O sinal mais evidente das fissuras foi a recusa do presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, em participar na cimeira. Por causa da Catalunha, Madrid é intransigente na recusa em promover as ambições independentistas de outras regiões europeias, como o Kosovo, que declarou unilateralmente a independência no início de 2008.

Ainda assim, a diplomacia europeia logrou que a Espanha subscrevesse a declaração conjunta da cimeira UE-Balcãs Ocidentais, na qual os 28 reafirmam o seu compromisso político com os candidatos à adesão: Sérvia e Montenegro, que já estão a negociar formalmente os termos para a entrada; Macedónia e Albânia, que esperam receber luz verde para o arranque formal dessas conversações já no próximo conselho Europeu de Junho, e ainda Bósnia-Herzegovina e Kosovo, muito mais atrasados.

Como se pode ler na declaração final, o compromisso europeu manifesta-se, para já, na cooperação e investimento para “aumentar significativamente a conectividade em todas as suas dimensões: transportes, energia, dimensões digital, económica e humana”. Mas o alargamento, apesar de ser mencionado como uma “perspectiva europeia” e uma “opção estratégica firme” para Bruxelas, ficou de fora do texto.

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“É preciso sermos realistas. Não se convida um amigo para casa, sem a arrumar primeiro. E há muito trabalho de casa a fazer na União Europeia”, justificou o primeiro-ministro, António Costa, no final da reunião.

Costa com França

Costa partilha da opinião do Presidente de França, Emmanuel Macron, que logo à entrada para a cimeira demonstrou que a unanimidade da véspera, durante o jantar de trabalho dos líderes, não se ia repetir ao almoço. “Sou a favor de abrigar os Balcãs na Europa, e de lhes oferecer um diálogo estratégico reforçado e a perspectiva de que se estarão a aproximar se avançarem com as reformas que lhes pedimos. Mas não podemos ser laxistas ou hipócritas, temos de de olhar para qualquer novo alargamento com muita prudência e rigor”, declarou.

Como Macron, o primeiro-ministro entende que a prioridade dos actuais Estados-membros deve ser terminar a construção do novo edifício europeu, em particular do seu projecto para a união económica e monetária, antes de considerar a entrada de novos países. “Temos em aberto um grande debate sobre o futuro da Europa. Em Junho teremos um teste muito importante sobre a capacidade de tomar decisões para consolidar o que foi, até agora, o projecto mais ambicioso que lançámos, a União Económica e Monetária”, assinalou António Costa. Lembrou que a UE terá ainda de ultrapassar outras divisões, como as que se revelaram com a discussão do próximo quadro financeiro plurianual para 2021/27.

Com as declarações dos líderes a esvaziarem o balão de oxigénio que os parceiros dos Balcãs procuravam, até para sustentarem face às respectivas opiniões públicas as reformas que lhes são exigidas, e a frente unida europeia a desfazer-se para revelar as dificuldades em avançar politicamente nos temas mais sensíveis da agenda, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, tentou recuperar o optimismo. Confortou os aliados regionais aconselhando-os a encarar a cimeira como “um sucesso” e uma “prova de que a integração com os Balcãs é uma prioridade de topo”.

“Que fique absolutamente claro e não restem quaisquer duvidas de que a agenda da conectividade não é uma alternativa nem um substituto para o alargamento. É uma forma de aproveitar o tempo de forma produtiva. Mas não vejo outro futuro para os Balcãs que não seja a União Europeia. Não há plano B”, sublinhou Tusk. Fez ainda questão de recordar aos 28 que esta viragem para os Balcãs não acontece por acaso, mas pela pressão colocada pelas manobras da Rússia para estender a sua influência nessa região de fronteira.

O amigo imprevisível

A discussão em Sófia acabou por ser desviada do eixo central/oriental do continente para a margem atlântica, com os líderes europeus a oferecer uma mensagem de unidade em resposta às recentes decisões do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Todos concordaram que põem seriamente em risco os interesses económicos e diplomáticos do bloco e ameaçam a estabilidade do Médio Oriente.

Donald Tusk tinha colocado na agenda do jantar de trabalho que antecedeu a cimeira a discussão das medidas que estão a ser estudadas em Bruxelas e outras capitais para mitigar os danos causados pelo abandono do acordo nuclear com o Irão pelos EUA, ou o projecto da Administração Trump de aplicar novas taxas alfandegárias para travar as exportações de produtos de aço e alumínio da Europa.

“Esperamos que a nossa unidade tenha ficado clara, tanto para os nossos adversários como para os nossos aliados”, declarou Tusk, que não disse em qual das categorias colocava os EUA. Depois de na véspera ter criticado os caprichos de Trump, o presidente do Conselho falou na sua imprevisibilidade. “Não temos um problema com a imprevisibilidade do Irão, porque nunca tivemos ilusões com o Irão. Mas é um problema quando o nosso melhor amigo é imprevisível. Tínhamos as mais altas expectativas em relação a Washington”, observou.

Pelo seu lado, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, referiu-se aos próximos passos nas negociações comerciais. “Assim que a Europa obtiver uma isenção ilimitada e permanente das taxas alfandegárias, estará disponível para encetar conversas com o nosso parceiro sobre a liberalização do comércio. Mas recusamo-nos a negociar [com os EUA] com a espada de Dâmocles sobre a nossa cabeça”, frisou.