Toquinho: “Cada show, para mim, é um começo de carreira”

Histórico parceiro de Vinicius, Toquinho está de volta para tocar em Lisboa e no Seixal. Com ele, um jovem pianista que Madonna levou à gala do MET em Nova Iorque, no início de Maio: João Ventura.

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É uma data extra e uma oportunidade única para quem perdeu os anteriores concertos: um mês depois de ter actuado em Lisboa, Porto e Coimbra, o cantor e compositor brasileiro Toquinho está de volta para mais dois concertos: esta quarta-feira, no Auditório do Seixal, às 21h30; e quinta, na sala do Tivoli BBVA para um derradeiro concerto em Lisboa, à mesma hora.

Nascido em São Paulo, em 6 de Julho de 1946, Toquinho tornou-se mundialmente conhecido devido à sua estreita parceria de onze anos com Vinicius de Moraes, com o qual compôs e cantou muitas canções que são um legado universal. Mas o seu primeiro sucesso foi anterior, a canção Que maravilha, composta em 1970 com Jorge Benjor, e que teve um enorme êxito.

Em palco, diz Toquinho ao PÚBLICO, resume uma carreira de meio século. “Não posso fazer 50 anos de música num show, por isso é a síntese da síntese de certas pilastras importantes da minha vida. Não só canções minhas, mas canções que me influenciaram, compositores que me deram esta estrutura, ligações que eu tive no elo da minha geração com a anterior. Eu conto várias histórias, para localizar as pessoas na época em que as coisas foram feitas.”

A dupla com Vinicius avulta, aqui, como algo marcante. “Comecei a trabalhar com ele aos 22, 23 anos de idade e trabalhei até aos 34. Tive o privilégio de passar esses dez anos importantes da minha juventude com esse homem fantástico, com quem tive uma relação de extrema amizade, de extrema confiança. Como ele dizia, se uma parceria tiver mais de 140 músicas, é como um casamento. Sem sexo, mas com tudo o resto. A música foi uma mera consequência do nosso relacionamento amigável com a vida. E essa é a síntese do nosso trabalho.”

Mas além de Vinicius e de Benjor (pouco dado a parcerias), Toquinho teve outros parceiros musicais ao longo dos anos. “A minha parceria com Chico Buarque, que vem desde a adolescência, me preparou muito para esse encontro com o Vinicius de Moraes. Fiz também parcerias com Tom Jobim, num show que esteve um ano em cartaz no Brasil, com Francis Hime, com [Gianfrancesco] Guarnieri, que é um dramaturgo fantástico, com Carlinhos Vergueiro, com Belchior… Sempre gostei de trabalhar com outros compositores. Agora estou trabalhando muito do Paulo César Pinheiro, um poeta e compositor de mão-cheia, já temos catorze canções novas para serem gravadas num novo disco, quem sabe se este ano ainda.”

Os números que rodeiam estes concertos (50 anos de carreira, 71 de vida) dizem-lhe pouco: “Trabalho muito no Brasil, não paro de trabalhar. Para mim, a comemoração é muito relativa, porque eu estou comemorando a minha vida todos os dias, essa é a verdade. Trabalho e comemoro, trabalho e comemoro. E cada show, para mim, é um começo de carreira.”

Nascido Antonio Pecci Filho, Toquinho (apelido que lhe foi dado pela mãe) tem ascendência italiana, embora remota. “Tenho quatro avós italianos, que vieram no final dos anos 1800, mas os meus pais já são brasileiros. A minha ligação com a Itália é mera circunstância. O Chico Buarque é que me levou para Itália, há cinquenta anos, e aí comecei uma ligação com a Itália em parcerias com Lucio Dalla, Ornella Vanoni, Sergio Endrigo, Ennio Morricone, grandes nomes que passaram pelo meu violão. E eu coloquei o meu violão na vida deles.”

Um piano para Madonna

Com Toquinho, em palco, volta a estar o jovem pianista brasileiro João Ventura (que também é cantor e compositor, com discos gravados), nascido em Sergipe, em 31 de Agosto de 1985 e desde há quase três anos a residir em Lisboa. “Cheguei em Setembro de 2015 para fazer um doutoramento. Em termos musicais, tenho feito coisas aqui e também fora: uma tournée na Itália, shows na Áustria, na Grécia, na Suíça, em Nova Iorque. Acho que em Portugal se dá mais valor à autocriação do que no Brasil, onde se não se fizer covers não se sobrevive. Em Portugal querem ouvir o que temos para mostrar, as nossas composições. Isso é sensacional.”

O trabalho com Toquinho foi intuitivo: “Os arranjos foram surgindo na hora. Como em São Paulo, eu escutei muito o trabalho dele com Vinicius ou a solo, já havia caminhos previsíveis. Claro que ele vem com novas informações, mas é uma coisa que flui muito naturalmente.”

Nos últimos dias, o telefone de João Ventura tocou mais vezes do que o habitual. Vários jornais, e não só brasileiros, quiseram saber como é que ele foi parar a Nova Iorque, à gala do MET, a convite de Madonna. “Foi uma surpresa. Aconteceu em Alfama, no Tejo Bar, estava tocando lá, ela pelos vistos gostou do que ouviu, e fez-me esse convite.”

Em Nova Iorque, João Ventura acompanhou Madonna durante alguns minutos: “Foi uma apresentação rápida, ela era uma atracção-surpresa dessa gala, mas foi muito intenso.” Três canções, apenas: “Like a prayer, uma canção nova que ela estreou lá e, no fim, o Hallelujah, do Leonard Cohen. E fiz um solo de piano. Foi trabalhoso, mas incrível, muito trabalhoso, mas igualmente bom.”