Opinião

A importância da Economia (do bem comum)

O trabalho de Jean Tirole contribuiu para alterar profundamente a forma como os Estados pensam a regulação de empresas com poder de mercado e viria a merecer a distinção com o Nobel da Economia em 2014.

A era digital trouxe muitas, talvez demasiadas, possibilidades de escolha. Trouxe demasiada interação (ainda que, em muitos casos, superficial). Muita informação e tempo limitado para a processar. O problema de escolha nunca foi tão premente. Citando Richard Thaler, Nobel da Economia em 2017, sobre os limites das capacidades cognitivas: “Se se oferecerem 500 planos de pensões aos consumidores, serão incapazes de escolher. Creio que são demasiadas opções.” A Economia, ciência que estuda a utilização de recursos escassos – como é o caso do tempo – nunca foi, assim, tão necessária.

Com a Internet surge a necessidade de criar plataformas sofisticadas que nos guiem num mundo tão vasto e permitam que cada um de nós possa, a baixo custo, encontrar um caminho. Entre estas estão hoje algumas das maiores empresas do mundo: a Apple, a Google, a Microsoft, o Facebook ou a Amazon.

Tais plataformas são intermediários num mercado com dois (ou mais) lados. Algumas, como o Skype, o Facebook ou a PlayStation, disponibilizam a tecnologia que permite a interação entre diferentes comunidades de utilizadores. Outras permitem que compradores e vendedores se encontrem, identificando possibilidades de troca que são mutuamente desejáveis. Assim acontece com o Booking, a Uber e o eBay. Pelo caminho, estas plataformas ajudam os consumidores a escolher, oferecendo recomendações ou construindo rankings. Este é também o caso do Airbnb e do motor de busca da Google.

O que todas estas plataformas têm em comum é o facto de o benefício que cada agente retira da sua utilização depender do número de outros utilizadores. Quanto maior o número de utilizadores de uma plataforma, maior o seu poder de mercado.

Ora, os economistas em geral gostam de mercados, mas perante uma tal concentração de poder de mercado, acreditam na sua regulação. A análise do poder de mercado e da regulação tal como a conhecemos hoje deve-se em grande parte a Jean Tirole, francês e professor de Economia em Toulouse (Toulouse School of Economics), e aos seus co-autores. Tirole defendeu ainda que não há uma receita eficaz para todos os mercados, reconhecendo a necessidade de encontrar soluções de regulação diferentes para casos específicos, entre os quais se encontram os mercados com plataformas. E assim voltamos à importância da Economia. O trabalho de Tirole contribuiu para alterar profundamente a forma como os Estados pensam a regulação de empresas com poder de mercado e viria a merecer a distinção com o Nobel da Economia em 2014.

Mas não ficará por aqui. Os desafios colocados pela digitalização da sociedade não têm precedentes. Se já são bem visíveis alterações na forma como compramos livros e música, vemos as notícias ou interagimos com o nosso banco, espera-se uma transformação profunda na estrutura dos mais variados mercados. E não só. O desenvolvimento tecnológico, claramente desejável (e inevitável), afectará radicalmente a forma como trabalhamos e como nos relacionamos. Questões relacionadas com a confidencialidade e proteção de dados, a sustentabilidade dos sistemas de saúde, a destruição de emprego em virtude da automação, põem em perigo a economia do bem comum e merecem hoje, mais do que nunca, toda a atenção de economistas como Tirole.

Sobre tudo isto nos falará Jean Tirole na sua vinda a Lisboa. Apresentará o seu livro Economia do Bem Comum, uma reflexão sobre o papel da Economia na sociedade, amanhã (18h30), na Fundação Calouste Gulbenkian. Na quarta-feira (10h30) dará uma palestra no ISEG, sobre os desafios para as políticas públicas a nível nacional e europeu na era digital.