"Não importa como se morre, importa como se vive", diz família de McCain à Casa Branca

Senador republicano criticou a escolha de Gina Haspel para directora da CIA, pelo seu envolvimento em torturas. Assessora de Trump respondeu: "O que ele diz não importa, ele até está a morrer."

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John McCain Reuters

Na quinta-feira, a funcionária da Casa Branca Kelly Sadler disse o seguinte sobre o senador republicano John McCain, que se opõe à nomeação da mulher escolhida por Trump para directora da CIA, por ter estado envolvida em torturas: “O que ele diz não importa, ele até está a morrer.” No mesmo dia, na estação de televisão Fox News, o general da Força Aérea na reforma Thomas McInerney disse o seguinte sobre McCain, que foi torturado no Vietname mas recusou submeter-se aos desejos dos captores que queriam usá-lo para fazer propaganda: A tortura “funcionou com John. Por isso é que lhe chamavam o ‘passarinho John’”. No início da semana, tinha sido o senador republicano Orrin G. Hatch, um entusiasta apoiante de Donald Trump, a declarar que McCain é “ridículo” por estar a morrer e não querer que o Presidente — que fez troça do heroísmo de McCain — esteja no seu funeral.

John McCain não comentou qualquer das ofensas, mas na sexta-feira à noite a sua filha Meghan e a sua mulher, Cindy, reagiram. “Kelly, estamos todos a morrer. Mas o que importa não é como morremos é como vivemos”, disse a filha do senador num programa de televisão. 

“Não percebo este ambiente de trabalho em que tudo é aceitável, em que no dia seguinte ainda temos emprego. E isso é o que mais me surpreende”, disse Meghan McCain. 

Cindy McCain usou o Twitter para lembrar a Sadler o efeito da sua frase nos sete filhos e nos cinco netos do senador. “Deixe-me lembrar-lhe que o meu marido tem família.”

John McCain é um dos mais respeitados senadores dos Estados Unidos. Tem 81 anos e foi-lhe diagosticado cancro no cérebro. Há perto de cinco meses que não vai ao Senado, estando em tratamento na sua casa em Sedona, no estado do Arizona. 

Prisioneiro de guerra

Durante a guerra no Vietname, John McCain foi capturado e torturado depois de o seu avião ser derrubado pelas forças comunistas em Hanói. O senador rejeitou sempre o uso de tortura e criticou a escolha de Gina Haspel, que esteve envolvida em situações em que a agência de espionagem americana usou a tortura para obter informações de prisioneiros depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Haspel é vice-directora da CIA e acusada de ter destruído cem horas de gravações de vídeo onde essas torturas estavam registadas.

O senador não irá a Washington para a votação e pediu aos colegas que chumbem a nomeação de Gina Haspel.

Foi num programa sobre Haspel e as objecções de McCain que o general McInerney usou o caso de McCain para defender que a tortura deve ser usada porque funciona – e deu o senador republicano como exemplo. 

"Nos anais da má televisão vai ser difícil superar este momento oferecido pelo convidado da Fox Business, que diz que a tortura funciona, e a prova disso é John McCain ter fornecido informação sensível durante os anos que passou como prisioneiro de guerra no Vietname", escreveu o jornalista Alex Ward na Vox. 

Alguns sectores criticaram McInerney. Mas foi a declaração de Kelly Sadler, por ser assessora da Casa Branca, que foi alvo de reprovação generalizada. A funcionária pediu desculpa pela frase, que a Casa Branca tentou justificar como sendo uma piada que não funcionou. Segundo o The Hill, Sadler telefonou a Meghan McCain a pedir desculpa. Porém, a Casa Branca viu-se obrigada a emitir um comunicado em que não pede desculpa mas diz: “Temos o maior respeito pelo trabalho que o senador McCain faz pela nação e rezamos por ele e pela sua família neste período difícil”, diz o documento.