Crítica

Quanta frescura

Les beaux esprits se rencontrent — a aliança entre Papillon e o sempre-virtuoso Slow J resulta num disco ambicioso, belo e jovem como todos os objectos criados com amor.

Deepak Looper
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Após um ano pobre, Papillon traz ao hip-hop português o primeiro grande trabalho de 2018

Há pouco mais de um ano, quando Slow J fazia capa do Ípsilon, descrevíamo-lo como um músico “singular, dotadíssimo e de faro rompedor, e que abanará, por certo, a música portuguesa por muitos e bons anos”. Se o primeiro abanão veio em nome próprio (The Art of Slowing Down, 2017), as repercussões do sismo sentem-se agora no modo como assume a produção executiva do primeiro trabalho a solo de Papillon, rapper do grupo Grognation, de Mem Martins — com a irónica particularidade de, sonicamente, este álbum se apresentar mais coeso do que o do próprio Slow J (que, como escrevemos então, se dispersava em demasia num caleidoscópio carente de uma linha própria). À data, Slow J realçava como o seu horizonte era a mistura e o dinamitar de espartilhos (“Já estive com tantos rappers old school que têm vozes do caraças mas que nunca cantaram porque, na altura, não ‘podiam’. Gente que parece que está ‘fechada’”).

E Papillon é, neste sentido (nada pejorativo, entenda-se), o performer de que Slow J se serve para dar asas à sua profunda imaginação, numa sinergia altamente benéfica para ambos. De repente, encontramos Papillon, rapper “de formação”, a puxar da voz, cantando e experimentando entonações e inflexões por cima dos arranjos soberbos (apenas um entre mil exemplos: aquelas duas prodigiosas linhas de sopro sobrepostas no início de Metamorfose fase II) com que Slow J não pára de surpreender o ouvinte (e que dele fazem um dos mais completos e inventivos produtores da música portuguesa actual).

Notável o modo como, em determinadas letras de Papillon, e depois de, num primeiro momento, as palavras e as ideias poderem soar simplistas ou previsíveis, um twist as faz descarrilar (quase sempre com cariz dramático), assim densificando, problematizando, tudo aquilo que o ouvinte captara até aí (ao jeito da parábola) — é o caso de 1 AM, canção aparentemente colorida e escapista cujo subtexto (negro, na verdade, e subtil na forma como o pai biográfico se confunde com o Pai “Estado”) vai progredindo (arranjos de teclas fabulosos, quase de filme mudo cómico, no momento da vertigem) até um pesadelo-suicídio (há ecos do “sunken place” de Foge, o filme de Jordan Peele, também…). Mas vejam-se, também, Imito (grande e inclassificável beat de FMX), na qual o rapper, declinando julgamentos simplistas, recomenda aos heróis que se salvem e aos vilões que se matem; ou, ainda, Money (excelente a distorção vocal que a certa altura se instala, acompanhada das cordas fadísticas, cuja melancolia tinta a agressividade da performance vocal), na qual Papillon, depois de um discurso acusatório sobre o papel do dinheiro, termina, inteligentemente, com “E quando te vires ao espelho/ Olha para o reflexo e diz/‘I’m the Money’” (a consciência de que o dinheiro não é, em si, o mal, antes o uso que os homens lhe dão, enfim, “o inferno somos nós”).

Isto que acima se sublinhou e o modo como Papillon se vai movendo confortavelmente nos diferentes ambientes e ritmos sofisticadamente preparados por Slow J (tal como no seu LP, de que este parece um segundo tomo, o disco vai alegremente navegando entre o hip-hop mais clássico, o trap, o R&B, o afro-house, a pop ou, até, o quasi-nu metal da primeira parte de Imbecis/Íman) atenuam alguns aspectos menos bons — o discurso da “escola da vida”, naïf e algo caricatural, embora reflexo natural da juventude do próprio Papillon; Impasse, o primeiro single, no qual o piano e a guitarra erigem um dramalhão onde Papillon nunca se encaixa completamente; o pop-rock ligeirinho de Impressões, embora matizado pelos belos ecos africanos em fundo. Nada disto oblitera, porém, os momentos altos de Imediatamente (dorida crónica do esmagador mundo mastiga-e-deita-fora alimentado a redes sociais), Imagina (bela canção sobre um amor parental, se o podemos dizer assim, “não correspondido”, que depois se volve, com os mesmos contornos, em amor romântico), Impec (a batida eclipsando-se em favor da guitarra e do baixo) ou Metamorfose fase II (a do próprio Papillon, ou seja, “borboleta”, na qual o rapper, antes de terminar em contagem decrescente com uma espécie de “dez mandamentos”, faz desfilar um impressionante arsenal de métrica e flows em três instrumentais-velocidades distintos dentro da mesma canção, recurso que, não sendo novo, ganhou proeminência depois de Lamar o aplicar em DAMN.). Após um ano pobre para o hip-hop português (exceptuam-se o álbum de Slow J, o EP de Blasph e pouco mais), eis o primeiro grande trabalho de 2018, espécie de autobiografia emocional de uma geração, e por certo interessantíssimo de ouvir no formato banda que Papillon ensaiou no concerto de apresentação em Abril último.