Slow J: “Eu estou aqui para inventar música nova"

O aguardadíssimo primeiro álbum do músico de Setúbal é uma obra pujante e indomesticável. Confirma-se um amor sem fronteiras, uma criação que vai beber a pontos tão próximos e distantes como o rock, o fado e o semba, o R&B ou a balada pop acústica.

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Quando, em 2013, Slow J, ou João Batista Coelho, como consta do BI, com apenas 20 primaveras, regressou de Londres, mal podia imaginar que, dali a poucos anos, teria uma gigantesca massa de gente devota como a que teve no esgotadíssimo concerto do dia 17 no Estúdio da Time Out, Mercado da Ribeira, Lisboa, que serviu de apresentação ao seu primeiro e aguardadíssimo álbum, The Art of Slowing Down. Mas quando o ouvimos falar, timidez misturada com honestidade e determinação, percebemos como a vocação para a grandeza que a sua música carrega está em directa relação com o seu espírito ambicioso, próprio de um miúdo feliz a fazer o que mais gosta.

“Se reconheceres na minha música algo que já foi feito, é como se eu já tivesse perdido o jogo. Simplesmente, é aborrecido para mim fazer o que já existe! Gosto da surpresa. Se as pessoas já sabem o que vão ouvir do princípio ao fim, ficam dormentes, e não quero isso! Quero que percebam que a minha música não é uma experiência normal.”

De facto, não há nada de “normal” no seu meteórico trajecto: em 2015, com um EP intitulado The Free Food Tape, um desconhecido de Setúbal oferecia um banquete de comer e chorar por mais servido a hip-hop, electrónica e R&B, com isso só gerando mais estômagos esfomeados, outra forma de sublinhar a paixoneta que arrebataria corações dali em diante até chegarmos aqui, ao álbum de estreia, roda-viva de alimentos das mais diversas proveniências. Aquando do regresso a Portugal, depois de estudar Engenharia de Som na capital inglesa, Slow J foi direitinho para os estúdios da Big Bit, em Lisboa, onde explorou à vontade, na reclusão do estúdio que tanto aprecia, o know-how adquirido. Embora, ressalva, “mais do que o conhecimento técnico, que hoje consegues adquirir, mais ou menos devagar, no YouTube, o importante foi poder estar à volta de pessoas que estavam todas focadas na mesma coisa e que acreditavam que um dia podiam ser os melhores produtores do mundo. Pessoas que queriam ser o Dre ou o Timbaland! O contacto com essa capacidade de acreditar, que é mais rara cá, abriu-me os horizontes”.

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A primeira e muitíssimo promissora demonstração dessa crença ficou patente no EP, lançado de forma independente e que, vindo do nada, caiu como uma bomba no panorama nacional. “Não, isto não pode ser poesia / Não foi escrito nem revisto numa academia / Digo, antes de julgares dá um passo atrás / E pergunto só o que é que Bocage diria”, anunciava, voz a descarregar energia a rodos, em Pai eu, cuja evocação do poeta oitocentista selava o encontro da erudição com a linguagem popular que o hip-hop, historicamente, sempre propiciou.

Numa primeira fase, o estremecimento fez-se sentir, sobretudo entre os círculos de hip-hop (aos quais Slow J está mais ligado, embora o novo álbum constitua todo um “descolar” dessa base). Mas rapidamente alastrou, como um fósforo, para outros ouvidos e públicos. O resultado está, passados dois anos, na paixoneta de meio Portugal (sobretudo por essa descomunal canção chamada Cristalina) por um rapaz a quem, até ao lançamento do EP, não se lhe conhecia um registo musical que fosse, tendo se feito sentir a última taquicardia na recriação do Menina estás à janela, de Vitorino, que recentemente protagonizou no programa No Ar, da Antena 3. A aclamação do EP foi a tal ponto abrangente que o músico, com apenas esse registo no bolso, subiu a palcos como o Sumol Summer Fest, Super Bock Super Rock, Festival Iminente ou Meo Sudoeste, o que ilustra o raio de penetração da sua música, cativante tanto para espaços mais juvenis como noutros com história, e um público mais exigente. Se o EP criou o burburinho (depois o alarido) que criou, tal deveu-se a um factor concreto: o facto de, na sua riqueza sónica, se reconhecer que, não obstante o hip-hop ser o ponto de partida de Slow J, o miúdo tinha música para dar e vender noutros territórios. A pergunta era apenas esta: quais? Ou melhor: até onde é que podia e — mais importante — queria ir? A este respeito, desde já se diga que o portentoso álbum de estreia tem o condão de recolocar a questão ao ouvinte: OK, depois disto, onde é que Slow pode e quer ir da próxima vez (e se dizemos “ir” e não “chegar” é porque a sua música aponta para isso mesmo, para um caminho interminável)? Não nos surpreenderíamos se, no futuro, viéssemos a testemunhar uma incursão sua, por exemplo, pela música brasileira.

A arte de desacelerar

Como no futebol, o “menino do rio”, do Sado e não de Janeiro — assim era a alcunha do carioca Roger, futebolista de habilíssimos pés que chegou a alinhar no Benfica —, encantou pelo virtuosismo (na composição, na voz, na intensidade, na poesia) e, talvez até mais do que isso, pelo amor, pela alegria que a sua música transbordava. Como se da celebração efusiva de um golo marcado por um “menino vadio” (como canta Caetano Veloso em Menino do Rio) fugido às obrigações escolares se tratasse (ele que já cantou sobre a asfixia criativa que a escola também pode constituir em O Cliente, do EP). Ao contrário, porém, do que classicamente acontece no hip-hop, o seu berço, Setúbal, nunca foi motivo de exaltação aguerrida (“Chelas é o sítio / Chelas é o berço”, como um dia imortalizou Sam The Kid), isso mesmo transparecendo de Sado, canção inscrita em The Art of Slowing Down: “O Sado não sente saudade, o Sado olha sempre de lado / Quem não vai voltar / Os putos do Sado já sabem, se nunca saírem da margem / O Sado não julga quem volta, nunca se importa.” Algo natural, explica Slow J, pelo facto de, ao longo da sua vida, ter mudado incontáveis vezes de casa, daí simplesmente não fazer sentido a necessidade de uma reivindicação territorial. “Eu invejo as pessoas que viveram sempre no mesmo sítio, porque são essas que estão na condição de defenderem e exaltarem um local dessa forma. Eu sempre tive uma crise de pertença.” E, quanto ao Sado, quanto à sua “tensão flutuante” (como também cantou Caetano), a visão de Slow também é de outra ordem. “O rio corre sempre. Quer estejas lá, quer te vás embora ou voltes, ele está a cagar-se para ti, porque ele não muda de sítio, está sempre lá. Isso é frio da parte dele, mas também é caloroso, porque ele não se importa quando voltas, ele olha-te exactamente da mesma maneira. Isto também é uma metáfora para o sucesso: se voares alto e depois caíres, vais ter sempre a tua casa, podes sempre voltar a ela. Na Casa, canto ‘Casa em todo o lado / Pode entrar quem quer / É misturar / Casa é o mundo inteiro’. Essa é a minha noção de ‘casa’ hoje em dia.”

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O EP suscitava no ouvinte aquela ideia da “síndrome do primeiro período”, i.e., o momento da avaliação escolar em que só não se atribui a nota máxima por se tratar de um primeiro (e curto, sete faixas) trabalho no âmbito mais vasto de uma obra (então inexistente) que, para ser digna desse nome, se deve assemelhar mais a uma maratona do que a um sprint (não é isto que os professores dizem aos meninos e meninas na escola?). Mas da mesma forma que custa ao professor não premiar o aluno brioso, também será difícil a qualquer pessoa que se ponha à escuta desse EP não tecer loas a um músico cujo nome artístico (traduzindo: “João Lento” ou, melhor, “João, o Lento”) reflecte o seu ideal de uma vivência mais calma, menos acelerada do que aquela que hoje impera, enfim, todo um modo de estar diametralmente oposto ao da excitação-esquecimento e estímulo contínuo em que vivemos.

Não só Slow J conserva um comportamento discreto nas plataformas digitais (não há espasmos “selfieanos” e, mesmo no momento de divulgar o seu trabalho, fá-lo sempre cirúrgica e sobriamente, straight to the point) como veio, desde 2015, a costurar, demorada e secretamente, o álbum, a cada pré-lançamento de um single (quatro foram desvendados: Vida boa, Pagar as contas, Serenata e Comida) disparando o número de partilhas e de declarações de amor eterno nas redes sociais. Mas o “abrandamento” que o seu “Slow” postula possui também, segundo o próprio, outro significado, mais pessoal, e aparentemente paradoxal em alguém que, em tantos momentos, canta, sofrida e raivosamente, sobre a inevitabilidade de fazermos coisas de que não gostamos para pagarmos as contas. É que se durante tanto tempo se falou da geração mileurista como reflexo da desregulação laboral e do empobrecimento generalizado associado, hoje, e mesmo no suposto “pós-crise”, mil euros são uma miragem para muito e boa gente que, como Slow, saiu da faculdade no auge da crise. João Batista Coelho explica-se: “Quero viver aqui e agora, essa é a minha dificuldade. Passei muitos anos a lutar para poder viver o meu sonho, que é o de fazer música todos os dias, e, de facto, para aí há cinco anos que só faço isto.” Todavia, desenvolve, “no Verão passado, fiquei doente e tive de parar, porque cheguei a um ponto em que estava a trabalhar demais, a minha cabeça já não aguentava. Aí percebi que podes estar a viver exactamente aquilo que queres viver, mas, mesmo assim, por estares constantemente a trabalhar por novos objectivos, sentires que estás parado no tempo. Embora te estejas a mover, sentes-te estagnado”.

Se dúvidas existissem, a capa (um macaco, espécie de “regresso às origens”, a um primitivo estado de observação, de atenção ao essencial) e o título do álbum reforçam essa demanda interior: The Art of Slowing Down, álbum editado pela Kambas e cuja forma verbal gerundial prolonga, indefinidamente (interminavelmente), essa ideia de desaceleração no tempo, aqui elevada ao estatuto de “arte”, de processo que exige talento e disciplina, um pouco como a meditação que o músico pratica e que revela ter sido essencial para a conclusão do disco. No seu gosto pela mistura de sons, cores, temperaturas, mas também na humildade com que expõe as suas ideias, diz ao que vem, com aquela segurança e vivacidade tão bonitas de sentir num espírito jovem para quem tudo isto é só o início (nisto fazendo lembrar a atitude iconoclasta de Kanye West): “Estou aqui para inventar música nova, para definir o que virá. Não digo que já o fiz ou que vou consegui-lo, mas é esse o meu objectivo.” Como se o “futuro”, esse a que Slow J aponta, se pudesse — acima de tudo, devesse — fazer em sentido oposto ao da velocidade e da imediatividade. De resto, por que razão pensamos sempre o “futuro” numa relação tão-somente de tempo e distância? Ao menos nos caminhos da arte temos essa reconfortante certeza de saber que o futuro, o que quer que ele represente, pode bem ser aquilatado por outros elementos. Se, como diz o ditado, “depressa e bem, há pouco quem”, para Slow J fazer um álbum ambicioso como este, foi mesmo preciso ir devagar.

Um abraço do tamanho do mundo

Sobre se a atmosfera de louvor e expectativa lhe causou algum tipo de pressão ou angústia para a criação do disco, Slow é do mais pragmático e — valor de que falaremos amiúde por aqui — honesto que poderíamos imaginar. O que igualmente traduz a sua postura profissionalíssima e de auto-exigência máxima. “Não sinto mais pressão por parte das pessoas do que aquela que sinto de mim próprio. Honestamente, nem as pessoas têm uma expectativa tão alta para o álbum como eu tenho! O processo foi mais difícil nesse sentido: de me acalmar a mim próprio e de não estar a tentar fazer música para ser música incrível, mas para ser verdadeira.”

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Se o EP já indiciava como a sua música, tendo raízes no hip-hop (confessa-se admirador dos Da Weasel e de Sam The Kid), descolava livre e alegremente desse território, o seu novo e “transgénero” álbum é a confirmação de um amor sem fronteiras (ele que tem pai angolano e mãe portuguesa), outra forma de sublinhar uma criação que vai beber a pontos tão próximos e tão distantes como o rock (e, até, uma costela punk, ele que integrou bandas de metal e punk-rock na adolescência), o fado e o semba (a guitarra portuguesa de Carlos Paredes samplada em Sonhei Para Dentro), as paisagens electrónicas do trap e do R&B contemporâneos, a balada pop acústica, até, enfim, à Mun’Dança, que, de forma celebratória, fecha o álbum a prometer novas vidas e novos mundos (definitivamente sem muros), afro house para dançar no fim-de-semana e esquecer a jornada laboral. Aliás, as palavras que se lhe ouvem em Casa não deixam dúvidas: “P’ra quê querer complicar? / Lá em casa qualquer cor dá / Mistura é música / Eu sou o meu fado / Eu sou o meu semba.” Por outro lado, este eclectismo — sintoma, em certos artistas, de um pós-modernismo quase fetichista que acaba, por vezes, a subtrair qualquer possibilidade de uma identidade ou sabor próprio na música que se cria —, não se perfilando aqui como “programa”, corresponde, antes, a uma proposta consciente de Slow J, quase em tom de desafio. “Nunca dou aos ouvintes a possibilidade de se agarrarem ao estilo de música que faço. Só dou a possibilidade de se agarrarem a mim, a minha voz é o único elemento de coesão de uma ponta à outra! Por natureza, sou hiperactivo em termos de géneros. Se me avaliarem apenas como um rapper, vão perder o todo. Na verdade, até sou mais produtor do que vocalista, estou sempre no estúdio como um cientista.”

Mas, em bom rigor, o instrumento vocal é um dos seus grandes trunfos, dando-lhe uso como bem lhe apetece, ora rappando, ora cantando, e, mesmo neste último caso, podendo alternar entre a amplitude rockeira e o registo trovadoresco ou mesmo mavioso conforme o que a canção pedir. Por outro lado, no capítulo da composição, em que todo o seu talento fica escancarado, a percussão revela-se eixo central, propiciador de múltiplas mudanças de velocidade ou direcção dentro da mesma canção, altercações acompanhadas por iguais variações melódicas. Concordando com esta ideia, o músico anota, porém, que nenhuma canção sua “tem mais de um andamento”.

“Se sentires isso, é só uma ilusão. Toda a minha música é feita de loops, mas a forma como são editados e como os arranjos são feitos está montada de maneira que as pessoas não sintam que estão a ouvir o mesmo loop. Tem que ver com dinâmica, gosto de refrescar a canção.” O seu espírito miscigenador, que há tempos até o levou a dizer que via o álbum mais rapidamente numa prateleira de música portuguesa do que de hip-hop, é visível ao longo de todo o disco no modo como, de forma natural, vai despertando na memória do ouvinte gente tão diversa como os Xutos & Pontapés (“O Fred [baterista e filho de Kalú], quando ouviu, até me olhou de lado!”, ri-se), os Da Weasel (“O meu timbre mais grave é muito parecido com o do Pacman. Cresci a ouvi-los, não dá para evitar!”), a abordagem delico-doce de Rui Veloso ou o vigor festivo dos Buraka Som Sistema. Mas Slow, depois de primeiramente afirmar que esse tipo de discussão não lhe interessa, precisa melhor a sua visão, sempre polémica em géneros tradicionalmente conservadores como o hip-hop. “Essa afirmação [da prateleira de música portuguesa] foi mal entendida. Não estou a excluir-me do hip-hop. Aliás, não quero excluir-me de nada. Só quero incluir! O meu disco pode estar no hip-hop da música portuguesa, no rock da música portuguesa, na pop da música portuguesa.” Reflexamente, este abraçar generoso de diferentes latitudes passa também para as letras, nas quais se pode ouvir a sua recusa em ser engavetado, manifestação própria de alguém da sua idade, com tudo o que de naïf e idealista, mas também de fresco e entusiasmante, isso encerra. Algo, de resto, comum a géneros em que, historicamente, redutos puristas sempre permanecem, caso do fado, no qual Mariza, Ana Moura ou Gisela João vêm empreendendo propostas igualmente desalinhadas neste sentido.

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Da esquerda para direita: Francis Dale, Slow J Rui Gaudêncio

Mas, perguntamos-lhe, não bastaria que a música falasse por si e espelhasse essa heterogeneidade, sem a necessidade de o verbalizar? “Falo disso não só por mim, mas também pelo resto dos músicos que continuam a ser tão catalogados. Já estive com tantos rappers old school que têm vozes do caraças mas que nunca cantaram porque, na altura, não ‘podiam’. Gente que parece que está ‘fechada’! Sinto que também tenho um bocado essa função de servir de ponte, de levar os ouvintes de hip-hop a abrir o ouvido para um Chet Faker ou um James Blake. Da mesma forma que os fãs destes artistas, depois de ouvirem a Cristalina, já poderão perceber o que é o boom bap [estilo clássico de composição no hip-hop associado, sobretudo, aos anos 90 e a produtores nova-iorquinos] quando ouvirem o Portus Calle. Quero unir os ouvintes como os Da Weasel faziam quando eu era miúdo. Vias pessoal da metalada e do R&B a ouvir as mesmas canções e a abanar a cabeça da mesma maneira!”

Não por acaso, é no estúdio da Kambas, em Campo de Ourique, o mesmo onde Pacman (vocalista dos Da Weasel) gravou com Regula e Fred (o dono da editora) o projecto 5:30 (correspondente ao número de porta 530), que Slow vem ensaiando com Francis Dale (teclas e guitarra) e Fred (baterias) o alinhamento do disco para os próximos concertos, o primeiro dos quais, de apresentação do disco, decorreu com o público em histeria generalizada. Apreciando-se o lato espectro da sua música (“Eu vivo em cada beco / Em cada apartamento / Eu vivo em cada escada”, ouve-se em Sonhei para dentro, como se esta omnipresença “espacial” reflectisse a musical), impossível será não reconhecer nele um virtuosíssimo compositor, sábio (e tão novo ainda) no modo como cria harmonias, picos, quebras e ambientes específicos não só ao longo álbum, mas, sobretudo, dentro da mesma canção. Produzido quase integralmente através de maquinaria digital, o álbum é pontuado pela guitarra de Francis Dale (cuja voz também se faz ouvir em Às vezes), pela guitarra acústica tocada pelo próprio Slow J e, episódio tão tocante quanto pitoresco, pelo solo de trompete que se ouve em Biza, tocado por um grego que o músico conheceu, fortuitamente e enquanto esperava pelo comboio, numa noite junto ao Cais do Sodré. “Ele era engenheiro aeronáutico em Paris, tinha 29 anos, estava bem na vida, mas chegou a um ponto em que pensou: ‘Então a vida vai ser isto? Agora é repetir isto por mais 30 anos?’ Então bazou, começou a viajar pelo mundo e, naquele momento, estava em Lisboa à espera de um barco para ir para Cuba tocar. A cena dele era: o que há realmente neste mundo que não tem preço? Tu podes pagar por um grande concerto do Miles David com o Duke Ellington, mas nunca poderás sentir o que eles sentem no palco a tocar. Ele queria sentir isso!” Com um bacalhau preparado pela mãe e uma garrafa de vinho, Slow J levou-o para o estúdio para conversarem e tocarem. O resto é história: “Não faz sentido ter um solo daquele tamanho na música, mas, neste caso, fez todo o sentido. Cada vez que oiço esse trompete, oiço a história dele.”

Música verdadeira

Enquanto falamos sobre o seu interesse pela diversidade, o sadino define o que diz ser o fio-de-prumo do seu trabalho. “O que considero como o meu tipo de música é música verdadeira.” A questão ou o valor da verdade é algo que já corria, belíssima e sentidamente, no seu EP, fosse na referência ao Siddhartha, de Hesse (há agora, em Sado, novos ecos do livro na significação conferida à figura do rio), no sample da voz de Bob Marley (quando lhe perguntam o motivo para se ter tornado tão proeminente, o jamaicano responde que é pelo facto de representar a verdade) ou, enfim, nessa descomunal canção — frequente e erroneamente confundida como canção de amor — intitulada Cristalina, sobre a importância (e o medo) de dizermos a verdade do que pensamos aos outros: “Se eu disser só / Tudo o que eu pensei / Transformado em voz / Se eu tiver dó e / Vir tudo o que eu neguei / Transformado em nós.” No caso da canção, embora essa importância obviamente se estenda às relações afectivas, ela foi originalmente pensada de um ponto de vista intrinsecamente artístico, ou seja, no de se poder ser franco com alguém no processo de criação, o que pode passar por algo tão simples como, gravado o contributo de um convidado, acabar por se entender que ele não cai bem na canção e, enfim, dizê-lo. A palavra a Slow: “Seres realmente honesto com quem te cruzas no dia-a-dia é das poucas coisas que abrem portas para que uma relação possa subir a outro patamar e deixes de estar só à superfície. Sinto que, durante muito tempo da minha vida, lidei com as pessoas mais à superfície. Sentia que tinha um mundo dentro de mim, que as pessoas tinham outro mundo dentro delas, e que esses mundos não se juntavam! Tenho feito o exercício de dizer mesmo o que sinto, de deitar cá para fora, mesmo que isso possa magoar, porque a partir daí tu crias novas possibilidades, as relações evoluem. Isto está na minha vida em todo o lado, inclusivamente no estúdio. Há dias, estava a ouvir uma entrevista do Hans Zimmer em que ele dizia: ‘The studio is like a sacred place where uncommitted thoughts stay outside.’ Percebes? Só quando crias estes ecossistemas é que a energia rebenta! Não quero estar em estúdio a fazer conversa de elevador com um artista, ele ir gravar, depois voltar e continuarmos a fazer conversa de elevador. Isso é um uncomitted thought!”

Talvez isto esteja irremediavelmente relacionado com o facto de, em The Art of Slowing Down, as palavras que se lhe ouvem serem muito mais claras e directas do que no EP, cuja verve etérea predominava, algo que desde o primeiro momento o catapultou como letrista, desde logo por contrariar o registo mais cru ou “realista” associado ao hip-hop (embora hoje, dos portugueses Virtus e Minus a André 3000 e aos A Tribe Called Quest, passando por Kendrick Lamar ou Oddisee, só o desconhecimento possa justificar a permanência de tal estereótipo). Tal não é, explica, fruto do acaso. “Especialmente ao vivo, eu sentia que tinha de falar entre as músicas, contextualizá-las, explicá-las às pessoas, como se as coisas não ficassem todas ditas. Neste álbum, sinto que as coisas ficaram mais ditas, e, entretanto, até me apercebi de que essa é uma característica dos artistas de que mais gosto: ser claro.”

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A acompanhar esta “aclaração”, está também o traço mais autocentrado (mais do que autobiográfico) do texto, cuja justificação, deixando à vista um certo amadurecimento pessoal, acaba por contrastar com o que de naïf a necessidade de expressar a sua rejeição de rótulos carrega. “Sim, estou mais focado em mim próprio, sinto cada vez mais que a mudança tem de estar dentro de mim para depois acontecer à minha volta, e não criticando os outros ou o sistema de ensino [alusão à canção O cliente, presente no EP]. É um ponto de vista mais pessoal, mas acho que as pessoas também vão sentir este álbum de forma pessoal.” Quando insistimos no facto de uma generosa parte da beleza de Cristalina residir na sua ambiguidade e no seu mistério, o músico refere que há temas que podem “estar mais abertos ao mistério e outros que devem ser tratados de forma mais clara. Se houver um propósito, sem dúvida que o mistério faz sentido. No EP, era mais difícil para mim transmitir as ideias que queria do que agora no álbum”. E daqui se faz a ponte, em nova demonstração da tal honestidade que Slow J reclama para a sua vida e para a sua música, para o destinatário do álbum. “Na comunicação, o importante é que consigas transmitir a tua ideia e ela seja entendida. A menos que haja um propósito para te referires de forma mais abstracta, não se justifica. O meu EP foi muito mais bem recebido pela crítica do que pelo resto das pessoas, e não quero que este álbum seja só para a crítica. Quero que as pessoas percebam o que estou a dizer, porque acho que o que digo é importante!”

Oiçamos, então, o que tem para nos dizer um músico de hoje, a fazer música de e sobre os nossos dias (e eles pedem, mais do que nunca, mistura, em vez de muros), e da única forma que, idealmente, toda a música deve ser feita: exactamente do modo e no tempo (nunca esquecer a importância da desaceleração) que o seu criador o quer.