Fungo que está a matar os anfíbios em todo o mundo surgiu no Sudeste asiático

Análises a várias amostras do quitrídio mostraram que a estirpe mais agressiva deste fungo terá surgido na península da Coreia no início do século XX.

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Anfíbio da espécie Bombina orientalis Frank Pasmans
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Cientistas a recolherem amostras do fungo Dirk Schmeller
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Cientistas a isolarem amostras do fungo Dirk Schmeller

Sabe-se que um fungo está a causar a morte em massa de várias espécies de anfíbios. Mas não se sabia onde e quando tinha surgido esse fungo e qual a sua estirpe mais agressiva. Um artigo científico na edição desta sexta-feira da revista Science – no qual participa o português Gonçalo M. Rosa – desvenda que a estirpe mais agressiva terá aparecido no Sudeste Asiático, nomeadamente na península da Coreia, no início do século XX.

Ao infectar a pele de várias espécies de rãs, sapos e outros anfíbios, o fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis) provoca uma doença designada por quitridiomicose. Essa doença afecta a capacidade de os anfíbios regularem a água e pode levá-los à insuficiência cardíaca. “O quitrídio passa de animal para animal e espalha-se rapidamente na natureza, causando uma mortalidade catastrófica e o declínio de algumas espécies”, refere-se num comunicado do Imperial College de Londres, que teve cientistas envolvidos no estudo.

O quitrídio foi identificado pela primeira vez nos anos 70, mas só nos anos 90 foi reconhecido como um fenómeno global ligado ao declínio de várias espécies de anfíbios. “A descoberta do fungo B. dendrobatidis que mata anfíbios foi um ponto de viragem na compreensão do porquê das espécies de anfíbios estarem em acentuado declínio em todo o mundo”, lê-se no artigo, que é capa da revista esta semana.

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Recolha de amostras a um tritão-marmoreado Gonçalo M. Rosa

Em 2009, relacionou-se, pela primeira vez, esse fungo com um episódio de mortalidade na serra da Estrela. “As populações de sapo-parteiro foram as mais afectadas, principalmente nas zonas elevadas da serra da Estrela onde, em alguns charcos e lagoas, os animais deixaram simplesmente de ser vistos ou ouvidos”, diz Gonçalo M. Rosa, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Instituto de Zoologia do Parque Regent (Londres), num comunicado do cE3c. O cientista fez então um estudo de monitorização nessa serra e, em 2013, publicou um artigo na revista Animal Conservation, que concluía que houve uma diminuição de 67% de sapos-parteiros acima dos 1200 metros de altitude.

Mas onde surgiu o fungo? “Esta é uma questão que tem estado no centro de acérrimos debates ao longo das últimas duas décadas, com sugestões em cima da mesa tão diversas como a África do Sul, a América do Norte e do Sul ou mesmo o Japão”, indica Gonçalo Rosa. “Os biólogos sabem, desde os anos 90, que o Batrachochytrium dendrobatidis está por trás do declínio de muitas espécies de anfíbios, mas até agora não tínhamos sido capazes de identificar de onde veio exactamente”, diz Simon O’Hanlon, do Imperial College e um dos autores do estudo.

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Quinta de criação de rã-touro-americana D. Schmeller

A ponta do icebergue

Para se desvendar a origem do quitrídio, sequenciaram-se 177 genomas de amostras do fungo recolhidas em várias regiões do mundo. Depois, juntaram-se a outros dados de estudos já publicados. Ao todo, foram consideradas 234 amostras.

Identificaram-se quatro estirpes principais desse fungo e verificou-se que três delas se distribuem por todo o mundo. E uma delas (a mais agressiva) só existe na península da Coreia, nomeadamente em sapos da região: a BdASIA-1. Observou-se ainda que essa estirpe tem mais diversidade genética do que qualquer outra.

“Uma análise profunda aos genomas B. dendrobatidis da Coreia revela que não há registo de surtos globais [por esta estirpe], o que sugere que estirpes do quitrídio da Coreia são nativas da região e que são muito parecidas com o antepassado de todos os B. dendrobatidis modernos”, refere-se no comunicado do Imperial College.

Estima-se assim que esta estirpe tenha divergido do seu antepassado comum mais recente no início do século XX. “Em vez de remontar a milhares de anos, como se pensava anteriormente, estimamos agora com maior robustez que a expansão tenha ocorrido entre 50 e 120 anos atrás”, indica Matthew Fisher, também do Imperial College e autor do artigo.

Os cientistas salientam que essas datas coincidem com o aumento das actividades humanas naquele região e de uma rápida expansão do comércio intercontinental. Além disso, a movimentação dos anfíbios, para comércio de animais de estimação, alimentação ou para fins médicos, pode ter contribuído para a disseminação do fungo.  

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Rã-touro-americana Dirk Schmeller

“A nossa investigação aponta não só para o Leste da Ásia como a estaca zero deste fungo patogénico tão mortal, como também sugere que descobrimos apenas a ponta do icebergue da diversidade de quitrídios na Ásia”, nota Matthew Fisher. E no artigo frisa-se: “Este hotspot de hiperdiversidade identificado na Coreia representa, provavelmente, uma fracção da diversidade genética do Batrachochytrium na Ásia.” Em 2014, também se soube que o fungo Batrachochytrium salamandrivorans, que causa lesões na pele de salamandras-de-fogo, veio do Sudeste asiático para a Europa.

E o que se pode fazer para minimizar os efeitos do fungo nos anfíbios? Os cientistas aconselham um maior controlo do comércio de anfíbios da Ásia, assim como da higiene e medidas de biossegurança no transporte desses animais, até pelo grande risco de exportação de outras estirpes desconhecidas para fora da região. E Matthew Fisher deixa uma nota: “Se não interrompermos o comércio em curso de anfíbios infectados, vamos continuar a pôr em risco, de forma irresponsável, a nossa insubstituível biodiversidade de anfíbios.”